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Sábado, Dezembro 3, 2022

Fernanda Montenegro e Gilberto Gil podem dar cara nova à Academia Brasileira de Letras?

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

No prazo de uma semana a Academia Brasileira de Letras (ABL) elegeu para ocupar as cadeiras dos “imortais” das letras e da cultura do país, a atriz Fernanda Montenegro, de 92 anos, e o multiartista Gilberto Gil, de 79 anos. A escolha de ambos significa uma mudança de postura dos acadêmicos para se tornar uma trincheira em defesa da democracia?

A escolha deles está sendo muito festejada pelos setores progressistas da sociedade porque “a eleição desses dois importantes artistas sinaliza a disposição de um vasto setor cultural de resistir ao fascismo”, argumenta o jornalista e escritor, Antonio Carlos Queiroz (ACQ).

Para ele, “agora a ABL é mais uma trincheira dessa luta, assim como o Prêmio Camões concedido ao Chico Buarque, assim como a valorização da música da Marília Mendonça (1995-2021) em confronto com o pessoal do sertanejo bolsonarista”.

Fernanda Montenegro analisa a crise na Cultura no desgoverno Bolsonaro

Marília Mendonça, que morreu em um acidente de avião no dia 5 de novembro, foi muito reverenciada pelo movimento feminista por representar uma das poucas vozes pela emancipação feminina e pela democracia nesse gênero musical bastante popular.

Javier Alfaya, secretário nacional de Cultura do PCdoB, afirma que a ABL “tem uma função de reconhecimento e formalização de alguns nomes da nossa cultura”, mas, “vem mantendo uma postura de conservação e pouca transformação da realidade” por se conduzir por “valores distantes da cultura brasileira”.

Lembrando que a escritora Conceição Evaristo, com uma grande campanha popular por seu nome, perdeu a eleição para o cineasta Cacá Diegues, em 2018. Ambos representantes de setores progressistas. “A ABL já mostrava sinais de aproximação com  algo mais popular quando elegeu o escritor best-seller Paulo Coelho, em 2002”, analisa Francisca Rocha (Professora Francisca), secretária de Assuntos Educacionais e Culturais da Apeoesp e dirigente nacional da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB). “talvez por marketing, talvez por intenção real de mudança”.

A Professora Francisca acredita ser “muito salutar para a democracia e para a cultura nacional a ABL participar mais ativamente da vida do país com integrantes democráticos e progressistas como Gilberto Gil e Fernanda Montenegro”. Gil que foi o melhor ministro da Cultura do país, de 2003 a 2008, no governo Lula.

ACQ diz nunca ter levado “a sério a ABL, por não ser uma entidade  realmente dedicada ao cuidado com a língua brasileira” por ser “mais uma casa de convescotes políticos, abrigando muitos membros que não têm nada a ver com a literatura. Por isso me divertia muito com as gozações do Pasquim (jornal de oposição à ditadura, que durou de 1969 a 1991) contra o chá das cinco (ironia ao encontro semanal dos “imortais” para tomar chá)”.

Mas “A ABL é uma instituição que mobiliza setores da intelectualidade”, emenda ACQ. E “nos últimos tempos muita gente boa e progressista tem achado por bem disputar esse espaço”. Para Javier essa disputa pode ajudar a acabar com essa história de “imortais”, como “se os integrantes da ABL estivessem acima da realidade e sem dar importância a ela”.

Punk da Periferia (1983), de Gilberto Gil

A repórter Ana Clara Costa escreve na revista Piauí que “entre os membros atuais da ABL há apenas um negro, Domício Proença filho, e os antecessores são raros: além de Machado de Assis, que fundou a instituição, houve José do Patrocínio, Silvério Pimenta, Evaristo de Moraes Filho e Octavio Mangabeira, muitos dos quais não se classificavam como negros, como o próprio Machado. Em 2018, quando a escritora Conceição Evaristo pleiteou a vaga deixada pelo cineasta Nelson Pereira dos Santos por meio de um abaixo-assinado virtual, refutando o beija-mão tradicional regado a chá entre imortais, seu nome foi descartado. A atitude, considerada belicosa, fez com que a escritora recebesse apenas um voto, dado de forma simbólica para mostrar que sua candidatura havia sido apreciada – e não ignorada. Quem ganhou foi o cineasta Cacá Diegues, com 22 votos”.

Com muita justiça, Fernanda Montenegro e Gilberto Gil foram escolhidos por sua relevância cultural. O que pode significar uma tentativa da ABL de se aproximar da vida real do país. A Professora Francisca lembra que o extraordinário escritor Lima Barreto (1881-1992) morreu triste por ter sido preterido pela academia, muito por seu estilo inovador como por seu sarcasmo à hipocrisia. Então, “que os novos ventos transformem realmente a ABL numa trincheira pela cultura e pela liberdade”, conclui.


Texto em português do Brasil

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