Diário
Director

Independente
João de Sousa

Segunda-feira, Julho 4, 2022

Festival da Eurovisão – Política e história

Rui Galiza
Rui Galiza
Jornalista

O Festival Eurovisão da Canção é a competição musical internacional que se realiza há mais anos consecutivos a nível mundial. Numa Europa a recuperar das feridas da guerra, a competição musical surgiu como símbolo da e uma nova Europa. O “combate” civilizado através da chamada “música ligeira” ao invés das armas.

A vitória da neutral Suíça na primeira edição parecia indicar o caminho para uma um evento conciliador que se pretendia à margem da política. Décadas depois, o Festival da Eurovisão é um evento transmitido para vários países e com audiências de milhões. É assim natural que as estórias e a história dos países e do continente se misturem, de formas por vezes assustadoramente premonitórias. Ou talvez não.

A primeira participação de Portugal ocorreu em 1964, na cidade de Copenhaga. Ficou na última posição entre 15 países concorrentes. Foi um evento que quebrou um certo isolamento do país que, para além de continuar preso a uma ditadura, tinha iniciado recentemente uma já então anacrónica guerra colonial. Tal não impediu a participação de António Calvário com o tema “Oração”, a que muitos portugueses assistiram em espaços públicos, já que em Portugal ter um aparelho de televisão era um luxo.

Três anos depois, Portugal fez-se representar por um intérprete negro. Foi a primeira ocasião em que tal aconteceu no “sector masculino” a nível internacional. Eduardo Nascimento levou o tema “O Vento Mudou” a Viena, onde encheu o palco com o inesquecível “Ouçam”. Segundo muitos, o ditador Salazar queria que a Europa ouvisse que Portugal era uma “nação multirracial e pluricontinental, una e indivisível do Minho a Timor”. A classificação, tal como o número de aparelhos de televisão no país, continuou a ser baixa, mas a música ainda hoje é uma delícia.

O número de países participantes foi crescendo. Em breve incluiria toda a Europa ocidental e também a antiga Jugoslávia, que na sua peculiaridade de país com um pé em cada lado do muro de Berlim, foi acolhida no Festival. Em Portugal a popularidade do festival continuou em alta, assim como a esperança de, mais cedo ou mais tarde, alcançar uma histórica vitória.

Mas a história não chegou com uma vitória musical. Se a edição realizada em abril de 1974, no Reino Unido, ficou célebre pela vitória dos suecos ABBA (“Waterloo”), dias depois Portugal acordava para um movimento revolucionário ao som do tema “E Depois do Adeus” com que o país concorreu nesse ano à Eurovisão, provando que há muitas formas que ficar na história.

Portugal disse adeus à ditadura, mas tal não implicou uma melhoria nas qualificações. Logo no ano seguinte, o representante português foi impedido de envergar traje militar (como pretendia por ser um dos militares implicados na queda da ditadura). Atuou de cravo vermelho na lapela, mas parece que a organização não apreciou o gesto nem o júri apreciou a música.

Teríamos de esperar mais alguns anos até que no país pairasse a pergunta “Como é que não ganhámos isto?”. Corria o ano de 1980 e em Haia José Cid representou o país com o tema “Um Grande, Grande Amor”. Tinha tudo para ganhar, mas não passou do 7º lugar. Segundo rumores tal ficou a dever-se ao facto de a letra referir explicitamente que o tal grande amor do José Cid não ter “grades, fronteiras, barreiras, muro em Berlim”…

Entre 1980 e o final do século, a participação do país foi oscilando entre o meritório (com destaque para a participação de Lúcia Moniz, em 1996) e o para esquecer, mas talvez nenhum tema tenha perdurado tanto no cancioneiro informal do país como a canção “Conquistador”, com que a banda “Da Vinci” representou Portugal na Suíça, em 1989. A qualificação não deixou saudades, mas se ainda hoje alguém cantarola “Já fui ao Brasil”, meio país responde “Praia e Bissau, Angola Moçambique, Goa e Macau, Ai fui até Timor, Já fui um conquistadoooooor”… Um tema que antecipava guerras culturais futuras. Em entrevista concedida ao suplemento ípsilon do jornal Público em agosto de 2017, o autor do tema revela que “na altura até queriam que mudássemos a canção de nome, para Descobridor…”. A edição ficou marcada pela vitória da Jugoslávia, num gesto que muitos acusaram de político e uma forma de premiar o regime mais democrático do leste europeu. A Eurovisão revelava-se bipolar, ora parecendo apoiar ora recusando a política. Mas a verdade é que o muro de Berlim, que José Cid cantou como oposto ao amor, cairia antes do final desse ano e a Jugoslávia entraria numa guerra fratricida não muito depois.

Com a década de 90 veio a grande abertura à Europa de Leste. Sem o tal muro em Berlim, o número de países participantes multiplicou-se e a estrutura do evento mudou, incluindo voto do público e uma final onde só os “melhores” ou “maiores” (contribuidores financeiros) têm lugar. Os detratores do Festival começaram a falar de “Neighbourvision” (“VizinhoVisão”), numa crítica à prática de cada país votar nos vizinhos e não nas músicas. As perspetivas para Portugal, país com apenas um vizinho, não pareciam muito favoráveis e deu-se então esse fenómeno: O Grande Desprezo!

Enquanto a leste da Europa o Festival atingia níveis de popularidade recorde, na Ocidental Praia Lusitana crescia o desinteresse pelo mesmo. E convém dizer que se tratou de um desprezo sem segundas intenções ou mecanismos de defesa. De facto, ninguém quis saber do Festival para nada, ao ponto de Portugal ter entrado no novo milénio sem se ter dado ao trabalho de concorrer em quatro edições e sem que ninguém no país tivesse sentido saudade…

Já nos países anteriormente por detrás da cortina de ferro, a popularidade do evento superou a alguma vez alcançada no ocidente, e com resultados! Se a Jugoslávia venceu a edição do ano da queda do muro de Berlim, o certame voltaria diversas vezes ao leste europeu, incluindo à Sérvia, numa edição ganha pela Rússia, que assim respondeu à vitória da vizinha Ucrânia ocorrida logo em 2004. Mas a abertura a leste trouxe consigo tensões políticas que têm falado mais alto que a música. Basta recordar que no ano de 2009 a Geórgia foi impedida de concorrer pela organização. Motivo: o tema “We Don’t Wann Put In” foi considerado demasiado político…

Fora destas movimentações, Portugal continuava a ignorar olimpicamente o certame. Em 2016, ano em que, na Suécia, a vitória voltou a ser da Ucrânia, com um tema intitulado “1944” (ano da deportação forçada do Tártaros da Crimeia durante a II Guerra Mundial), Portugal nem participou… Mas eis que uma nova direção entrou em funções no canal público de televisão e resolveu dar uma nova vida ao evento. O Festival RTP da Canção mudou de formato e o país descobriu Salvador Sobral, irmão da então mais conhecida Luísa Sobral, que compôs o tema “Amar Pelos Dois”. A imprensa estrangeira recebeu a participação de Portugal com entusiasmo. Salvador foi chamado de akword boy (rapaz bizarro) cujos tiques com que fazia acompanhar a interpretação davam um toque especial a um tema que não era um espetáculo de luz e cor, mas sim… Uma canção. E ganhou a edição do festival realizada em Kiev com uma votação recorde, mesmo sem vizinhos, purpurinas ou lantejoulas. A Rússia não participou.

Foi um acontecimento com muito de dramático. Salvador estava gravemente doente e não muito depois seria alvo de um transplante de coração que lhe salvou a vida. Quando no final subiu de novo ao palco para a consagração, teve de cantar em dueto com a irmã, mas tal não impediu que nas conferências de imprensa que se seguiram os irmãos Sobral tivessem continuado a dar espetáculo. Se Salvador não se conteve nas críticas ao festival, do sistema de votação às músicas “fogo de artifício”, já Luísa, quando questionada se a música sem género era um apoio à causa LGBT, respondeu prontamente que não, a letra tinha saído assim pois tratava-se de um tema escrito por uma mulher heterossexual para ser interpretado por um homem heterossexual. O país estava a pedi-las…

E eis senão quando, depois de anos de desprezo, a cidade de Lisboa viu-se “obrigada” a acolher o Festival em 2018, já então um espetáculo que não se queria político, mas que refletia todas as tensões do velho continente e que, durante o “grande desprezo” a comunidade LGBT tinha adotado como “cosa nostra”, num fenómeno que algum dia os sociólogos poderão explicar.

Rússia e Ucrânia participaram “avisadas” para se deixarem de provocações e a participação portuguesa ficou em último lugar, já que desta feita a estratégia de concorrer com uma canção e não um espetáculo de fogo de artifício não foi premiada… Pelo contrário, o fogo de artifício e a política voltaram em força. Israel venceu a competição com uma “música” disparatada, cujo grande mérito seria a associação à causa feminista e depois de ações de publicidade realizadas em sites e aplicações da comunidade LGBT. Benjamin Netanyahu não perdeu a oportunidade para capitalizar a ocasião: Assim que a intérprete vencedora aterrou em Israel, foi vê-los a executar a ridícula coreografia que fazia lembrar um galináceo espavorido…

Telavive recebeu uma polêmica edição do Festival em 2019. Polêmica quer por ser em Israel, quer pela não participação da Ucrânia, depois de a cantora escolhida ter declarado não ser uma “ferramenta política” e recusado assinar um contrato que a proibia de atuar na Rússia…

E assim chegámos a 2022, sob o signo da guerra no leste da Europa que a Eurovisão foi antecipando. A Rússia foi afastada e a Ucrânia passou a favorita mesmo sem se conhecer metade das canções concorrentes, que deverão ser apenas um detalhe perante onda de solidariedade que se adivinha para com o país invadido ao pior estilo do tempo em que não havia Eurovisão.

Quanto a Portugal, voltou a verificar-se um interessante fenômeno, quando o país foi forçado a concluir que “nosso festival” é bem melhor que o internacional (o que nem será muito difícil…).

O projeto “Fado Bicha” concorreu com o tema “Povo Pequenino”, demonstrando que dos tempos do “Conquistador” às teorias pós-modernas foi um salto! Gerou expectativa ao ponto de despertar certa intelectualidade para o festival. Afinal reunia num só tema as causas LGBT e a autoflagelação histórica, algo a que na academia se dá o nome de “interseccionalidade”. Não encantou. Talvez por ausência de novidade. De facto, quer o autoflagelamento histórico quer a  “desconstrução do fado” são pratos requentados servidos há décadas atrás. A votação no tema acabou por ser pequenina. A vencedora foi Maro, com o tema “Saudade” numa performance longe de ser um espetáculo de luz e cor.
Não se prevê grande resultado na Eurovisão. Nos fóruns internacionais e nas redes sociais, a entrada portuguesa foi acolhida com comentários segundo os quais o país continua a surpreender e a revelar-se inovador. “Another portuguese masterpiece”, dizem alguns com certa dose de exagero, numa referência à tendência da representação nacional continuar longe das fórmulas fracas em qualidade mas fáceis de agradar.

Em resumo, um pequeno país que faz bem. E não será isto o que de melhor podemos ser, com ou sem música?

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

Artigo anteriorSem foco
Próximo artigoConhecer e perceber a cultura russa
- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

A impostora

Titãs cantam: “Comida”

Além Tejo (1)

UNITA desmente MPLA

- Publicidade -