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Quarta-feira, Fevereiro 1, 2023

Fidel Castro, um balanço desapaixonado

Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida
Economista, MBA, Pos-graduado em Estudos Estratégicos e de Segurança, Auditor do curso de Prospectiva, geoeconomia e geoestratégia, Doutorando em Sociologia

Fidel

Vamos tentar alinhar alguns critérios que nos ajudem a fazer uma súmula da vida deste Homem.

Foi uma vida útil?

Alguns utilitaristas perguntariam se a sua vida foi útil para os outros, desde logo para os familiares e os amigos mas essencialmente para o seu povo e para a Humanidade na sua multitude. Outros reformulariam a questão inquirindo se fez o mundo um melhor lugar para se viver.

A estes Fidel Castro poderia responder pela boca das estatísticas rigorosas da ONU no seu Índice de Desenvolvimento Humano. De um país miserável, muito pobre, em que a fome era comum, a morte prematura frequente, o analfabetismo dominante, Cuba, apesar de um bloqueio comercial, imposto pelos Estados Unidos e assegurado pela Marinha de Guerra desse país, que tanto prejudicou a economia cubana, transformou-se num pais de desenvolvimento humano alto, um dos mais altos da América Latina, à frente de países como o México, o Brasil, a Colômbia e a tantos outos mais afortunados pelas riquezas naturais.

Cuba surge em 67º no ranking mundial pouco abaixo de Portugal que se queda pela 43ª posição apesar de ser um país europeu e a seu tempo colonizador.

Cuba fica mesmo à frente de países europeus como a Bósnia, a Turquia, a Albânia, a Macedônia e a Ucrânia. E à frente de grandes produtores de petróleo ou gás como a Líbia, a Argélia, o Irão, a Nigéria ou Angola.

O índice de desenvolvimento agrega vários indicadores. Comparemos alguns entre Cuba e os Estados Unidos o país mais rico do mundo.

gráfico com informação de dados comparativos entre Cuba e Estados Unidos

Assim Cuba tem uma mortalidade infantil inferior, uma maior cobertura de ensino pré-primário, um menor desemprego, uma sociedade mais segura com menos pessoas presas, um ambiente que gera menos suicídios e tudo isto com um rendimento bastante inferior ao dos Estados Unidos. Porquê? Porque o rendimento está mais distribuído e porque o Estado assume as suas responsabilidades.

É, pois, notável o avanço de condições de vida do povo cubano. Certo que ainda não é um país de grande desenvolvimento persistindo ainda áreas a melhorar. Saiu da cauda e aproxima-se da frente, mas ainda lá não chegou. É preciso mais tempo, mas é inegável que o caminho percorrido foi na direção certa.

Cometeu erros? Sem dúvida. Mas o bem que fez a muitos supera algum erro ou excesso que possa ter cometido. Neste cômputo diremos que sim, que foi uma vida útil aos outros. 

Vida coerente?

Outros indagariam se foi coerente, i.e. não no sentido de acreditar sempre no mesmo o que afastaria a aprendizagem e a reflexão, mas no de agir de acordo com a sua mais profunda convicção e de acordo com valores morais e humanos estáveis sendo verdadeiro perante si mesmo. Acrescentando que a coerência está fortemente ligada à coragem e à determinação, qualidades sem as quais a coerência sucumbe, estiola e rapidamente se transforma em conformismo e desistência.

Fidel pelo contrário, manteve ideais constantes desde a Juventude e perante as adversidades, que foram muitas, primeiro a ditadura depois as ameaças externas económicas, militares e políticas, e os desafios, como desenvolver um país pobre e rural, soube sempre agir sem comprometer ideais, promessas e rumo.

Num mundo em que os políticos hoje defendem uma coisa e amanhã, por um punhado de votos ou um pequeno benefício pessoal, glorificam o seu contrário desdizendo-se desavergonhadamente, Fidel surge como um contraponto de coerência e de confiança. Neste ponto diremos sem pejo que Fidel fica muito acima dos seus congéneres.

Vida inspiradora?

Haverá ainda quem averigue se inspirou, pelas palavras ou actos, os outros a agir pelo bem comum ou simplesmente fomentou o maléfico egoísmo egocêntrico.

Quando pensamos em tantos milhares quer em Cuba quer na América Latina quer por todo o mundo que se inspiram na revolução cubana, que a querem, com as modificações e adaptações ao tempo, modo e lugar onde vivem, emular e reproduzir nos seus resultados, podemos com segurança afirmar que a vida de Fidel foi e continuara a ser inspiradora.

E a inspiração não vem apenas dos ideais, que são nobres e perenes, mas essencialmente da prática e dos seus frutos. Que patriota não desejaria enfrentar países poderosos e resistir. Que político não gostaria de fazer avançar o seu país e tirá-lo da miséria e alcandorá-lo ao estatuto de país de desenvolvimento humano elevado? Que militar não aspira a vencer uma guerra justa? Que jovem não sonha em contribuir para um mundo com maior justiça e igualdade? Que ser humano não pretende ser vertical e coerente?

Pois se tudo isso conseguiu Fidel, a sua vida pode ser um exemplo inspirador para tantos e tantos.

Numa era sem heróis que não sejam empresários, que egoisticamente acumulam mais riqueza que a da maioria das nações juntas, ou futebolistas pretensiosos e ocos é importante que tenhamos referências solidas e exemplares.

Vida libertadora?

Há também quem defenda que o critério de aferição passa pela liberdade com que se abre horizontes a outros. Uma vida libertadora é, então, aquela que se desprende de tradições inúteis, de amarras castradoras e se propõe, em conjunto com outros, mudar a sociedade no sentido da justiça, da liberdade e da igualdade.

Recordamos aqui a brutal ditadura de Baptista com as prisões arbitrárias, com a censura, com a pobreza mais áspera e crua, com a submissão aos interesses estrangeiros, com Cuba como um país de casinos e prostitutas, um lupanar para os turistas do continente.

Fidel e seus amigos não vergaram ao peso da repressão, escaparam à prisão, passaram pelo exilio, organizaram a resistência, iniciaram uma revolução que, finalmente vitoriosa, libertou o país. Milhões de cubanos puderam participar como cidadãos completos na construção da sua pátria.

Alguns dos antigos dirigentes da ditadura fugiram, Fulgêncio Baptista refugiou-se em Portugal, na ilha da Madeira, outros foram presos. Foi-lhes retirada a liberdade, transformaram-se em presos políticos dirão os demagogos, foi feita justiça dirão os mais sensatos.

Ao longo dos anos Fidel sofreu vários atentados à sua vida e Cuba sofreu uma tentativa de invasão por forças estrangeiras. Na sequência destas acções, pessoas foram presas, julgadas e condenadas. Quem se coliga com estrangeiros para invadir o seu país é um preso político? É. Mas deve ser por isso devidamente punido? Claro. Uma acção de traição à pátria deve ser sempre castigada.

Então estamos seguros que Fidel contribuiu para a liberdade de muitos embora tenha assegurado justiça pesada sobre o restrito grupo dos responsáveis e colaboradores da ditadura e dos que atentaram contra a independência de Cuba por via das armas.

Conclusão

A morte de Fidel cala fundo na alma e no ânimo de milhões de pessoas, por todo o mundo. Como se morresse um familiar, um amigo, um mestre na arte de pensar e agir. Justificadamente.

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