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Quinta-feira, Julho 7, 2022

“Foram só cinco minutos”

video
O vídeo em causa, divulgado há poucos dias, recorreu a câmaras escondidas, que captaram a imagem de condutores que tinham estacionado o carro em cima de um passeio. Quando regressaram ao veículo, tinham um papel no vidro da frente, com um número de telemóvel e a frase “Bati no seu carro”. Os condutores ligavam para o número, e uma voz do outro lado afirmava que em pouco tempo iria ter com eles.

Quem surgia era Salvador Mendes de Almeida, tetraplégico e responsável da Associação Salvador, que assim tenta chamar a atenção para os problemas que um carro mal estacionado pode causar a quem tem dificuldades de locomoção. Quando uma das condutoras diz “foram só cinco minutos”, Salvador responde: “infelizmente, estes cinco minutos estão sempre a acontecer”.

Esta iniciativa teve eco no jornal espanhol El País. Ao correspondente em Lisboa do jornal, Javier Martin, Salvador Mendes de Almeida diz: “temos as melhores leis do mundo mas não se cumprem”, sublinhando que “desde 1998 existe uma lei que exige que todos os edifícios públicos e obras recentes tenham condições de acessibilidade, mas adiou-se o prazo de cumprimento para 2003, depois para 2008 e agora não sei para quando. Assim, fica difícil termos uma vida activa em sociedade”.

 

Políticos mostram-se sensíveis, mas problemas do dia-a-dia persistem

O activista pelos direitos das pessoas com deficiência não deixa de criticar a classe política: “os políticos são super-sensíveis, aplaudem-te, dizem-te que sim a tudo, aparecem contigo nas campanhas eleitorais, mas nos problemas do dia-a-dia, somos a última das suas preocupações”, ironiza, recordando que em Portugal existe um milhão de pessoas com mobilidade condicionada. Na Europa o número ascende a 120 milhões.

Quanto às reacções dos condutores, que prometiam que não voltariam a estacionar de forma indevida e que só tinham sido cinco minutos, Salvador Mendes de Almeida assume que o objectivo do vídeo “é haver uma sensibilização para os problemas que temos quando tentamos sair à rua, porque temos de o fazer.

Se não saímos, não vamos à escola, temos menos cultura e menos peso na sociedade. Ficamos marginalizados para sempre. É o que se passa com a maioria”, alerta o líder da Associação Salvador. Deu o seu próprio exemplo: numa ocasião, precisou de 50 minutos para encontrar um restaurante com acessibilidade.

Salvador de Almeida afirma que Lisboa “é das cidades europeias com piores acessos. Apenas uma quarta parte das estações de metropolitano é acessível, e nestas é frequente que o elevador esteja avariado”, aponta, frisando no entanto que nos autocarros a situação tem tido melhorias, e agradecendo a existência de 50 táxis acessíveis a pessoas com deficiência.

O problema, à partida, parece ser a calçada portuguesa – da qual Salvador Mendes de Almeida se declara fã – mas em última análise, falta a manutenção da mesma. E o facto dos carros estacionarem por norma em cima da calçada provoca buracos e desníveis, o que dificulta o caminhar a qualquer pessoa.

Porém, existem casos positivos, sublinha o activista: a cidade de Portimão tem todos os passeios adaptados a pessoas com dificuldades de locomoção e o Porto rebaixou os passeios.

 

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