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Sábado, Julho 20, 2024

França, as brechas no muro

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

DO AVESSO

Sentiu-se o efeito de uma frase antiga, essa que determina que os democratas são os maiores inimigos da Democracia

Sentiu-se o efeito de uma frase antiga, essa que determina que os democratas são os maiores inimigos da Democracia, quando as eleições francesas trouxeram na hora dos resultados a evidência do pior dos efeitos produzidos pela cultura da França: se, há anos, as ideologias faliram, agora são as utopias que estão muito enfermas, acusando uma sintomatologia de estertor.

A França deixou-se minar pelo pessimismo, pelo conservadorismo, pelo desconhecimento das melhores expectativas humanas, impede-se por vontade própria o progresso e a defesa dos direitos fundamentais, sucumbindo ao medo e implorando um estado de repressão, de obscurantismo político, de intolerância, tão opostos a uma história excecional de emancipação e de valores de consciência e de princípios que nos habituámos a louvar. Pelo menos, é o que se nota num punhado enorme de franceses que, eles também, são a França de hoje.

Liberdade, igualdade e fraternidade…

Para viver a Democracia – e a perseguição de princípios elevados da soberania humana, como a liberdade, a igualdade e fraternidade, que qualquer ser humano celebra com denodo se for formado para entender o que realmente significam (poder pensar, sentir e agir, em espaços seguros e movidos pela esperança) – a França sugere manietar e amordaçar a Democracia.

A velha França que ensinou a laicidade como projeto e os direitos humanos como garante do indivíduo em ascensão para o melhor de si, tem agora rostos que a representam com a feição da limitação da liberdade, da consciência, do  pensamento e religiosa, confundindo a afirmação da autonomia do indivíduo e as exigências transcendentes de uma ética, com a feição clara de um estado musculado, limitador, policial, oposto às mais nobres e legítimas ansiedades humanas.

Os números denotam o triunfo do populismo, da demagogia, do conservadorismo, de uma direita que começa sempre por patrocinar grupos como os que compõem as claques do futebol ou que rapam a cabeça para mostrar que ali há muito pouco, para acabar na ponta das espingardas, nos cárceres e nas valas comuns bem conhecidas.

… Onde?

A França cai na sua armadilha, como se não tivesse tido Maquiavel, Robespierre, Rousseau, Marat, Danton ou o incontornável Bonaparte, já sem falar de Jean Monnet, d´Estaing, Pompidou, Mitterrand, Chirac, outros que, mais à esquerda ou mais à direita, interpretavam a França de serviço público….

Mas esquece-se ainda de outro passado recente, que a trouxe das guerras do século XX para o protagonismo de uma Europa reanimada.

A espada de Dâmocles paira sobre o pescoço nu dos franceses, como a guilhotina esperava o último segundo de Maria Antonieta. Só que desta vez não há revolução à espera, mas a autofagia de políticos com projetos pessoais muito acima dos interesses dos povos.

Se alguém lê-se Voltaire por estes dias, ali em França, talvez a necessidade de tolerância ensinasse alguma coisa. Mas lê-se pouco. E Voltaire não está na moda. O poder político nos nossos dias vive em fronteiras erguidas contra a moral social e cívica. E a moral social e cívica naufraga na sua ignorância e no medo do desconhecido, que dita sempre as piores opções.

Lados opostos de intolerantes

Num mundo Global, falta mundividência. Não resta nada da inquietação filosófica. Nem da soberania do povo. O espírito público, a opinião pública, não é mais do que a adaptação atabalhoada de uma muito intencional e cada vez mais atabalhoada opinião publicada. Aquilo que se passa no mundo de hoje, dos bombardeamentos na Síria às mortes no futebol, das violações no Níger às eleições francesas, do Daesh ao homenzinho cobarde que bate na mulher com a cumplicidade dos vizinhos, determina o que seremos: lados opostos de intolerantes, pois até a intenção de salvaguardar as liberdades gerará novas formas intoleráveis de intolerância e o confronto será bipolar, bipartido, bidimensional, tremendo.

A França exibe hoje as brechas no muro. É fácil espreitar e ver através delas o terrível caminho a que poderá conduzir o que fica agora à vista.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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