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João de Sousa

Sábado, Outubro 16, 2021

Os mano

Christiane Brito, em São Paulo
Jornalista, escritora e eterna militante pelos direitos humanos; criou a “Biografia do Idoso” contra o ageísmo.  É adepta do Hip-Hop (Rap) como legítima e uma das mais belas expressões culturais da resistência dos povos.

E aí, como vai mano? Esta foi a pergunta que Joanilson fez ao colega, conhecido desde a infância, quando se encontraram por acaso em um ruela na periferia onde moravam. O papo foi rápido, o conhecido precisava “fazer um serviço” e seguiu seu caminho.

Na mesma noite, Joanilson soube que seu primo havia sido assassinado em um acerto de conta de gangues. “Esse tipo de coisa é comum na periferia mais pobre e a gente só sabe daquilo nos guetos, a polícia não toma conhecimento”.

Joanilson ficou muito abalado, mais ainda quando o colega de infância confessou que ele havia matado o seu primo durante o tal serviço, encomendado. Então abraçou o amigo e chorou, arrependido. “Tudo bem, cara, eu não vou te julgar”, respondeu o garoto que já convivia há longa data com o sofrimento dos miseráveis.

Mais dois dias e o assassino, menor, resolveu se entregar. Prova de caráter, alguma dúvida? Foi à delegacia e, de lá, encaminhado à Fundação Casa, onde ficou preso.

Joanilson tornou-se policial militar, chegou a se corresponder com o colega durante anos até seus caminhos se descruzarem. Soube muito depois que o jovem fora solto, mas escolhera a marginalidade e tinha se tornado mesmo um bandido.

Perguntei: “Um garoto que assassinou outro, foi condenado, consegue trabalho, tem alguma oportunidade de mudar de vida?”

Não! É a única resposta possível, penso.

Joanilson é um rapaz diferente, poeta, sensível, pensa um segundo e responde: “Não!”

A história é real, os nomes foram alterados. Quem a contou foi o próprio Joanilson, poeta que frequenta saraus da periferia, para uma plateia de jovens “guerreiros” na vida e da arte.  Longe de mim doutrinar ou dar lição de moral se nem defendo os moralistas, mas sei que a vida não traz respostas. Ao contrário, em cada momento, nos confronta com escolhas. Privilegio o humanitarismo, temos que nos olhar como iguais e ao mesmo tempo tentar entender as diferenças. Tarefa dificílima; é preciso dizer “não” aos preconceitos e juízos conservadores que nos serviram desde o berço.

A autora escreve em Português do Brasil

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