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João de Sousa

Segunda-feira, Julho 4, 2022

Quem ganha com a guerra e com a especulação?

Eugénio Rosa
Eugénio Rosa
Licenciado em economia e doutorado pelo ISEG

Mesmo que na esta semana o preço da gasolina seja reduzido 0,13€/litro e o do gasóleo em 0,17€/litro, os portugueses pagarão mais 1986 milhões € de que com os preços que vigoravam em jan.2022, revertendo, deste valor a mais, 985,6 milhões € para as empresas e 996,1 milhões € para o Estado.

Neste estudo analiso o efeito de uma eventual descida do preço do litro da gasolina em 0,13€ e do litro do gasóleo em 0,17€ na esta semana anunciada pelos media, e mostro que o grande beneficiário com a guerra na Ucrânia são os E.U.A., que assim eliminam um concorrente importante no mercado internacional do petróleo e do gás, que é a Rússia, causando um aumento enorme dos preços o que tornará altamente rentáveis as empresas americanas deste setor, e que a Europa e a Ucrânia são simples peões da estratégia americana visando, por um lado, um maior domínio da Europa para, aumentar o seu poder a fim de enfrentar a China que consideram o seu principal inimigo, e os grandes benefícios para a industria americana de armamento que resultaria do rearmamento da NATO (os 2% do PIB).

Estudo

Quem ganha com a guerra e com a especulação: mesmo que na esta semana o preço da gasolina seja reduzido 0,13€/litro e o do gasóleo em 0,17€/litro, os portugueses pagarão mais 1986 milhões € de que com os preços que vigoravam em jan.2022, revertendo, deste valor a mais, 985,6 milhões € para as empresas e 996,1 milhões € para o Estado

Os media, citando várias fontes, divulgaram que na esta semana haverá uma redução nos preços dos combustíveis, que dizem ser significativa, porque se registou uma diminuição acentuada da cotação do barril do petróleo. A TSF refere uma redução será de 0,13€ por litro no preço de venda a publico da gasolina e de 0,17€ por litro no preço do gasóleo, e que o governo tenciona manter a redução do ISP de 0,017€ no litro da gasolina e de 0,024€ no litro do gasóleo. Vamos utilizar estes dados divulgados pela TSF nas simulações que vamos fazer para avaliar o impacto desta redução para os consumidores, para as empresas (gasolineiras, as que vendem os combustíveis) e para o Estado. O quadro 1 mostra as variações nos preços do gasóleo e gasolina desde janeiro de 2022, incluindo a agora divulgada pelos media para entrar provavelmente em vigor na esta semana.

Quadro 1 – Variação dos preços da gasolina e do gasóleo por litro entre jan.2022 e 21 mar.2020, e variação do pago pelos consumidores e da parte que reverte para as empresas paro o Estado

Mesmo supondo que se verifique na esta semana uma redução de 0,13€/l no preço da gasolina e 0,17€/l no preço do gasóleo, e que o governo não elimine a redução do ISP que fez anteriormente (0,017€/l na gasolina e 0,024€/l no gasóleo), mesmo assim os consumidores pagarão a mais 0,226€ por litro de gasolina e 0,346€ por litro de gasóleo; as gasolineiras arrecadarão mais 0,11€ por litro de gasolina e 0,173€ por litro de gasóleo, e a receita do Estado aumentará 0,116€ por litro na gasolina e mais 0,173€ por litro de gasóleo, em relação aos preços de jan.2022. Embora pareça pouco, mas como se consomem anualmente no nosso país 1.133.168.774 litros de gasolina e 4.986.942.837 litros de gasóleo, são centenas de milhões € que os portugueses têm de pagar a mais às gasolineiras e a Estado (quadro 2, o PVP é preço pago pelos consumidores).

Quadro 2 – Aumento de encargos para os portugueses e de receitas para as gasolineiras e para o Estado

Mesmo com a redução no preço da gasolina 0,13€ por litro e de 0,17€ por litro de gasóleo, que os media divulgaram, mesmo assim os portugueses pagariam por ano mais 1.981,6 milhões € do que pagariam com os preços que vigoravam em janeiro de 2022, revertendo deste valor pago a mais 985,6 milhões€ para as empresas de combustíveis (gasolineiras) e mais 996,1 milhões€ para o Estado. É por isso que se pode afirmar com propriedade que os grandes beneficiários com o aumento significativo dos preços dos combustíveis suportados pelos portugueses são, em primeiro lugar, as petrolíferas (ex. GALP) e o Estado, mas não só. Há outros grandes beneficiados com a guerra e a especulação que se tem verificado no mercado mundial do petróleo, matéria-prima dos combustíveis. É isso que vamos mostrar.

 

O grande beneficiário com a guerra e com as sanções são os E.U.A.: a estratégia americana para eliminar o concorrente russo e para dominar a Europa, utilizando como peão a Ucrânia, e o seu povo, e a emoção sincera dos europeus, para assim fortalecer o seu poder para enfrentar a China

Para se compreender a guerra da Ucrânia e a emoção verdadeira criada nas pessoas comuns pela propaganda de guerra feita por uma única parte, o governo da Ucrânia, e veiculada sem qualquer espirito critico pelos média em Portugal (todos os que pensam diferentemente são saneados e afastados dos media), leia-se o interessante artigo de José Barata-Feyo, provedor do Público na edição deste jornal de 10/3/2022, que carateriza “a cobertura noticiosa tão unilateral e tão exaustiva quanto à Ucrâniaveiculada pelos media no nosso pais, pois limitam-se apenas veicular a informação filtrada pelas autoridades da Ucrânia. A parcialidade, a descontextualização e a falta de ética de muito jornalismo que se faz em Portugal, não de todo, é chocante. Para compreender esta guerra é importante analisar as razões económicas dela pois são determinantes, já como escreveu o conhecido estratega militar alemão, Carl von Clausewitz, “a guerra é a continuação da política por outros meios”.

E vamos procurar explicar, embora muito sinteticamente para não alongar este estudo, a razão do subtítulo que pusemos a esta parte para que os leitores possam refletir e formar a sua própria opinião.

Os principais produtores de petróleo e de gás do mundo são, em 1ºlugar, os E.U.A e, em 2º, a Rússia. E os principais fornecedores da Europa de gás são a Rússia com 41% do gás importado pelos europeus, mas há países europeus em que dependência é ainda maior (na Alemanha cerca de 50%, na Hungria, na República Checa e Finlândia é superior a 80%). Em relação ao petróleo a dependência da Europa da Rússia atinge uma média de 34% do petróleo importado pelos países europeus (mas na Lituânia e Finlândia é superior a 80%, e na Polónia atinge 58%). A dependência da Europa em relação ao E.U.A. é muito menor, até porque os Estados Unidos importam também, embora pouco, petróleo e gás da Rússia.

A energia é um produto estratégico para o funcionamento da economia e para a vida das pessoas (sem ela os países parariam), pois a produção das energias renováveis é ainda insuficiente. Quem não possui petróleo ou gás tem de o importar. A percentagem nas importações totais da Europa de gás e petróleo dos EUA é muito reduzida, pois os próprios Estados Unidos importavam gás e petróleo (o petróleo apenas 7% da Rússia) daí a razão por que foi fácil a Biden proibir as importações pois afeta pouco a América.

O gás e o petróleo americano têm um NÃO (aspeto negativo) muito grande pois é produzido com base no xisto, o que o é mais caro e não concorrencial com o gás e petróleo russo. Por isso o objetivo da estratégia americana é eliminar o concorrente russo, e transferir a dependência da Europa da Rússia para o E.U.A. E para isso era importante engendrar um pretexto para que o autocrata russo desencadeasse uma guerra que levasse a Europa e outros países a proibir as relações comerciais com a Rússia, eliminando assim este forte concorrente e provocando um significativo aumento dos preços do barril de petróleo e do gás nos mercados internacionais o que tornava altamente rentável as empresas americanas deste setor, criando assim as condições para o seu florescimento, e ao mesmo tempo transferia a dependência da Europa e de outros países (ex. o Japão) para o E.U.A. aumentando assim o seu domínio total sobre estes países e aumentando a sua força para enfrentar a China, que a atual administração americana considera como o seu principal “inimigo” devido ao seu crescente poderio económico que põe em risco a supremacia dos Estados Unidos no mundo. Refira-se também que esta estratégia dos E.U.A. visa aumentar os lucros e o poderio das empresas americanas não só nos Estados Unidos, mas também das multinacionais americanas que controlam a exploração do petróleo em muitos outros países (ex.: Iraque, Líbia, Angola)

Para conseguir criar esse pretexto os E.U.A levaram os países europeus submissos a apoiar o cerco da Rússia pela OTAN (veja-se o nosso estudo 9-2022) e, embora a Ucrânia não fosse membro da NATO, aproveitando a posição anti russa do governo ucraniano apoiado pela extrema-direita e mesmo por grupos nazis (até o nazi Machado foi libertado para se ir juntar), levaram-no a inscrever na sua constituição a entrada para NATO e permissão para realizar no seu território exercícios militares da NATO. Assim a Ucrânia não tinha entrada de direito da NATO mas já era um pais de facto da NATO. Tal como aconteceu na crise de 1962 dos misseis soviéticos em Cuba em que os E.U.A. se sentiram ameaçados e exigiram a sua retirada, tendo-se estado perto de um confronto nuclear entre os EUA e a URSS, evitado pela lucidez dos então líderes políticos que atualmente não existe atualmente, a Rússia também se sentiu ameaçada  e exigiu que a Ucrânia não entrasse na NATO pois isso representava um risco existencial para ela, pois os misseis ficariam a poucos quilómetros de cidades importantes. Os E.U.A e os países europeus responderam que a Ucrânia era um país livre (?!) e tinha direito de escolher os seus aliados. Mas também Cuba em 1962 era um país livre e não foi essa a posição dos E.U.A e da própria OTAN, e dos países europeus que a integravam. A dualidade da moral ocidental é clara e idêntica à que se verificou utilizando falsos pretextos para atacar o Iraque e a Líbia, que levou à morte de dezenas de milhares de pessoas e à destruição e anarquia nesses países e a apropriação por empresas americanas e europeias do seu petróleo. A juntar a isto há ainda a acrescentar as acusações recentes de Biden sem qualquer sentido de Estado a Putin que visam ou dificultar ou mesmo impedir qualquer acordo para acabar com a guerra na Ucrânia ou uma deterioração grave cognitiva de Biden.

Mas desta forma os E.U.A. criaram o pretexto para que autocrata Putin invadisse a Ucrânia e a destruísse, causando a fuga em massa do seu povo que representa também uma “”bomba atómica humana” para os países da Europa, pois são milhões de pessoas que fogem  aos horrores da guerra e da destruição para os outros países da Europa , com elevados custos humanos, sociais, económicos e políticos  (é de prever que passada emoção natural a extrema direita aproveite para crescer) que temos todos a obrigação moral e humana de nos solidarizar e os apoiar, mas que os Estados Unidos descartam deste dever moral de apoiar e os integrar (até os prendem quando tentam ir para os E.U.A. como aconteceu recentemente como uma ucraniana que procurar reunir-se ao marido que lá estava por emigração ilegal). O que os EUA fazem é fornecer armas aos ucranianos, cujo custo já atingiu os 650 milhões € (quem paga?) para que se continuem a morrer e, como alguém já disse por ironia, para resistirem até ao último ucraniano vivo. A juntar a tudo isto há ainda o “renascimento” da NATO, que já estava em “morte cerebral” como dizia Macron e que, a pretexto da guerra de Ucrânia querem que os países europeus aumentem a despesa militar para, pelos menos, 2% do PIB, o que só será possível aumentando os impostos ou reduzindo as despesas sociais, e criando novamente o clima de guerra fria na Europa e um mercado gigantesco de muitos biliões de dólares, pagos pelos europeus para a industria de armas dos EUA que será o principal fornecedor. Mais uma vez o ganhador será os EUA.

 

A “bomba atómica” das sanções que está a destruir a economia russa, mas, pelo efeito bumerangue, também a europeia e, de uma particular, a portuguesa devido à sua fragilidade

As noticias divulgadas pelos media portugueses de “milhares de trabalhadores parados na indústria devido à escalada de preços de energia” e de “aumentos de gás que chegam a multiplicar por 12 a que se juntam a eletricidade, os combustíveis e as matérias-primas que também escasseiam nalguns setores” (JN, 17/3/2022) dão bem uma ideia das consequências nefastas para o nosso  país desta guerra, e da ligeireza do atual governo e dos comentadores da TV da forma como a encaram, sem compreender as consequências dramáticas que ela está a ter para o país e para os portugueses, chegando a  dizer mesmo que elas não se sentiriam em Portugal pois as importações e exportações para a Rússia eram reduzidas e que, portanto, o efeito da sua proibição seria praticamente nulo. A realidade mostrou que tais declarações revelavam uma total ignorância em relação a uma economia globalizada ou a intenção de enganar os portugueses.

A Rússia é um importante exportador não só de gás e petróleo, mas também de níquel (3º maior exportador mundial), um produto que até essencial para a cutelaria portuguesa, do paládio que é mais caro do que ouro (controla 50% mercado mundial) fundamental para toda a indústria elétrica e para a produção de catalisadores das viaturas por ex., do titânio, utilizado na indústria aeroespacial (motores, mísseis e foguetes), etc. etc. E isto já para falar dos cereais em que a Rússia é também um grande exportador. A proibição/boicote a estas produções nos mercados internacionais onde Portugal tem de adquirir o que necessita para a população e para o funcionamento da economia fez disparar os preços, com aumentos brutais, que dificilmente são suportados pelas empresas portuguesas, cujo baixa produtividade não permite absorver tal subida de custos, e para as famílias. Na “indústria cerâmica as empresas estão a encerrar os fornos devidos ao aumento dos preços de energia”, na indústria transformadoras os “aumentos dos custos com o gás chega a atingir 12 vezes mais”, no setor da indústria de transformação de papel verificou-se “um aumento dos custos de energia também de 12 vezes relativamente aos custos em set.2021”. O mesmo nas indústrias de calçado e têxtil. A nível das condições de vida dos portugueses a situação está a tornar-se insustentável devido ao aumento brutal dos preços. Num inquérito feito pela DECO utilizando um cabaz de 63 de bens essenciais às famílias concluiu que num mês apenas o preço do cabaz aumentou em 4%. Os apoios anunciados pelo governo aos 2 milhões de pobres que existem no país de menos de 20€/mês são ridículos. O aumento das pensões e dos salários em 2022 foi apenas igual/ inferior a 1%. O boicote à energia russa vai dividir o mundo em 2 partes: uma com energia barata (Rússia, China, India, etc.) e outra com energia cara (Europa, EUA, etc.). É para onde caminhamos.


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