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Quarta-feira, Julho 6, 2022

Para entender o presente e o futuro do nosso continente

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

O que a situação actual mostra é que os esforços para estender a influência ocidental na esfera russa (Sérvia, Ucrânia, Crimeia, Bielorrússia) ultrapassaram as linhas vermelhas estabelecidas por Moscovo e a Ucrânia, a Bielorrússia e os Balcãs só podem encontrar a paz num quadro de cooperação entre a Europa e a Rússia, mas agora estamos muito longe disso.

Desde a implosão da URSS e da queda do Muro de Berlin que de longe em longe se foram ouvindo vozes que iam alertando para o rescaldo daqueles eventos e para a importância da situação nas regiões fronteiriças da Rússia ou da CEI (comunidade de Estado Independentes organização supranacional fundada em finais de 1991, envolvendo 11 repúblicas que pertenciam à antiga União Soviética – Arménia, Azerbaijão, Bielorrússia, Cazaquistão, Geórgia, Quirguistão, Moldávia, Tajiquistão, Turquemenistão, Ucrânia e Uzbequistão, além da Rússia) que lhe sucedeu; entre estas vozes conta-se a de Adriano Moreira, quando já depois da anexação da Crimeia cita um discurso de Putin à Duma, onde este expõe receios e preocupações dizendo: «Mentiram-nos em várias ocasiões, tomaram decisões nas nossas costas, colocaram-nos perante factos consumados. Isto verificou-se com a expansão da NATO para leste, com a instalação de sistemas de defesa antimíssil, com o desenvolvimento constante de negociações sobre os vistos, com as promessas não sustentadas de concorrência honesta e de acesso livre aos mercados mundiais». Mas este tipo de preocupações com a definição das áreas de interesse e de fronteiras amigas, ou pelo menos não inquietantes, eram já antigas e objecto de reflexão por personalidades tão insuspeitas como Henry Kissinger.

Este ex-secretário de Estado norte americano, escreveu (o artigo original pode ser lido aqui pelos assinantes do Washington Post) antes da ocupação de Crimeia que a sobrevivência da Ucrânia deveria ser procurada numa ligação Leste-Oeste e não num qualquer estatuto de posto avançado de um deles. Baseando-se na história comum dos dois países (a formação da Rússia começou na região de Kiev) alertou ainda para a necessidade de o Ocidente entender que a Rússia nunca poderia ver a Ucrânia como um estranho…

Datados de antes do ataque russo à Geórgia (país que, como a Ucrânia, já tinha integrado a CEI), estes e outros avisos terão ganho ainda maior acuidade com a acção de anexação da Crimeia em 2014 ou agora com a invasão da Ucrânia e a confirmação daquele perigo para a Europa e o Mundo. Da fase diplomática que a antecedeu não resultou qualquer alteração ou indício de pacificação. A falta de soluções e o acumular de tensões nas últimas duas décadas culminaram num reforço das capacidades da NATO na Europa, tão real quanto é agora evidente a demonstração de força da Rússia, mas de desfecho incerto.

Talvez a UE continue a acreditar que tem a situação sob controle, mas desde a última guerra nos Balcãs (que opôs sérvios a croatas, encerrou o processo de fragmentação da antiga Jugoslávia, deu origem a sete novos estados, entre os quais o muito contestado Kosovo e terminou com mais de 100 mil mortos) que na realidade todo o seu flanco oriental passou quase inteiramente para o campo dos EUA, que substituiu a antiga influência soviética na Europa Central e Oriental no arco constituído pelos mares Báltico, Adriático e Negro, onde se incluem todos os países do antigo bloco que aderiram à UE em 2004 (Polónia, Croácia, Bulgária, República Checa, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Roménia, Eslováquia e Eslovénia). Se à área de influência daqueles três mares juntarmos o Cáspio e voltarmos aos acontecimentos de 2008 (invasão russa da Geórgia) acrescentando a permanente instabilidade entre arménios e azeris sobre o território de Nagorno-Karabach (território do Azerbaijão maioritariamente povoado por arménios), teremos uma rápida imagem da instabilidade das fronteiras sul e oeste da Rússia e a clara comprovação da crescente influência norte-americana na região cuja estratégia é desviar o potencial económico da Europa Ocidental não apenas da Rússia, mas também da China e incapacitar o projecto chinês da Nova Rota da Seda. O corredor dos mares interiores poderá assegurar aos EUA acesso aos territórios e mercados da Europa Ocidental, Europa Oriental, Eurásia Ocidental (Bielorrússia, Ucrânia, Moldávia) e Balcãs, constituindo uma via americana ao longo da qual circularão livremente a sua moeda, o seu gás e petróleo e demais parafernália militar, produzida e vendida pelo seu complexo militar-industrial.

Pela sua inépcia e subserviência aos interesses norte americanos, os dirigentes europeus desprezaram a oportunidade de trazerem a Rússia para o círculo do capitalismo democrático, preferindo o atrito constante que serviu a expansão da estrutura militar da NATO, esqueceram-se que de provocação em provocação foram alimentando o monstro que agora é Putin. E parecem apostados em continuar na mesma linha, quando, sem mostrarem qualquer sinal de ter entendido e resolvido os problemas criados pelo alargamento a leste e em plena cenário de guerra, sustentam a anunciada pretensão ucraniana de uma rápida integração na UE.

O que a situação actual mostra é que os esforços para estender a influência ocidental na esfera russa (Sérvia, Ucrânia, Crimeia, Bielorrússia) ultrapassaram as linhas vermelhas estabelecidas por Moscovo e a Ucrânia, a Bielorrússia e os Balcãs só podem encontrar a paz num quadro de cooperação entre a Europa e a Rússia, mas agora estamos muito longe disso.

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