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João de Sousa

Quarta-feira, Maio 25, 2022

Gina Azevedo

Helena Pato
Helena Pato
Antifascistas da Resistência

N. 1944

Militante antifascista, foi presa e torturada a tal ponto, e de tal forma, que os horrores por que passou, às mãos da PIDE, ficaram na memória das mulheres e homens que ouviram falar dela, em 1964. A sua situação clínica foi, então, motivo de um acompanhamento médico invulgar e desencadeou campanhas internacionais para a sua libertação. Internada sob prisão no Hospital Miguel Bombarda, a seguir às torturas, foi submetida a tratamento, permanecendo num semi-coma induzido, durante um mês e meio, para os médicos a desligarem da realidade próxima.

Gina Azevedo revela que ainda hoje tem graves sequelas psicológicas e emocionais, de que nunca conseguiu recuperar e que se reflectiram até a nível profissional.

Biografia

Maria Georgina Maia de Azevedo, filha de Manuel Azevedo, jornalista do “Diário de Lisboa”, e de Natália Maia, nasceu no Porto. Estudante de Belas Artes, começou a sua militância política ainda no liceu, na campanha de Humberto Delgado, apenas com 14 anos. Quando já se encontrava a estudar na Escola de Belas Artes, foi activista nas associações de estudantes e no PCP. Depois, iria aproximar-se da FAP (grupo dissidente do PCP, de orientação maoista).

Foi presa com 20 anos, ao colaborar numa acção gorada da FAP, em Lisboa – colocação de um engenho explosivo num carro da polícia – e então conduzida para a sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso. Aí, interrogada, ameaçada e submetida de imediato a tortura de sono, foi perdendo a consciência, até cair no chão, exausta. Acordou 12 dias após o início do interrogatório, com o médico da PIDE, Barata, a apertar-lhe os mamilos – admite que com a intenção de a acordar por meio de um gesto humilhante. «Você sai daqui como uma cadela» – são as últimas palavras que ouve de Mortágua, o inspector. Completamente alucinada, foi então conduzida para Caxias, onde ficou 7 meses. O quadro clínico de total desequilíbrio em que se encontrava motivou a acedência da PIDE a que fosse vista por uma junta médica, solicitada pelo seu pai.

«as mazelas sérias»

Foi a julgamento em Tribunal Plenário, mas só pôde estar presente na primeira sessão. Depois, médicos e advogados foram de opinião que não devia assistir. Não ouviu a sentença: pena suspensa por dois anos, com perda de direitos políticos por cinco anos. Mais do que os sete meses de prisão, Gina Azevedo lamenta «as mazelas sérias» com que ficou. Apesar de ter mantido actividades políticas no MDP/CDE até 1975, e de ter trabalhado em publicidade e no ensino secundário, a mágoa, a revolta, a indignação e o esgotamento físico e psicológico por que passou nunca a deixaram retomar o equilíbrio de que iria sempre sentir a falta.

Não deu informações à PIDE. Enquanto esteve consciente, sabe que não deu.

Acho que devia ter sido mais tenaz…É difícil conviver com o meu passado. (…) Aquela situação do Barata… (…) Como é que é possível? É uma dor muito aguda, custa-me falar dessas coisas (…) É espantoso como é que se faz o branqueamento das torturas tenebrosas que foram feitas durante décadas… e isso não está resolvido em mim…”

Entrevista em “No limite da Dor”

Apelo de Pai

Excerto da CARTA do PAI ao Ministro do Interior

Excelentíssimo Ministro do Interior Excelência:

Manuel Rodrigues Monteiro de Azevedo, 48 anos, jornalista (…), vem respeitosamente expor a V. Exa.

Minha filha, Maria Georgina Maia de Azevedo, estudante da Escola de Belas Artes de Lisboa (…) foi detida no dia 25 de Novembro último [1964], às sete da manhã, pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado. Só hoje, pelo meio-dia, me foi autorizado visitá-la em Caxias, apesar de uma incomunicabilidade de mais de doze dias ser inteiramente ilegal, visto que a chamada “incomunicabilidade absoluta”, tal como o preceituado Código do Processo Penal, não pode exceder três dias.

Acontece, porém, muito pior. Quando me foi dado ver a minha filha através de duas redes tive dificuldade em conhecê-la. O seu aspecto era absolutamente cadavérico, não conseguia coordenar ideias e tinha dificuldade em articular as palavras. Além disso, não conseguia manter-se em pé, nem andar sem se amparar às paredes. Tudo isto mostra claramente que durante doze dias esteve isolada na sede da PIDE, sujeita a um tratamento violento, sujeita à tortura do sono e, por ventura, a outras violências. Tudo isto feito a uma rapariga menor, que nunca havia sido presa e sempre vivera na casa paterna!

Será este o método que a polícia está a utilizar para extorquir confissões que possam justificar a “Nota Oficiosa” de 4 do corrente sobre as prisões de dezenas de estudantes universitários. Pergunto que valor podem ter depoimentos obtidos deste modo e se é legítimo um país civilizado permitir, em nome seja do que for, a prática de tais violências.

(…) Solicito a V. Exa. providências imediatas, como é de justiça.

Lisboa, 7 de Dezembro de 1964

Manuel Azevedo, jornalista do “Diário de Lisboa”

À população de Lisboa

Citação
(s.d.), “À população de Lisboa”, CasaComum.org

Dados biográficos:

  • Entrevista dada por Gina Azevedo à jornalista da Antena 1 Ana Aranha, publicada em “No Limite da Dor”, Ana Aranha e Carlos Ademar. Edições Parsifal. 2014
  • Carta retirada de uma prova de admissão do IP de Leira, integrada numa pergunta sobre o movimento estudantil e o Estado Novo em 2011

 

Fotografia tirada por Ana Aranha durante a entrevista para “O Limite da Dor”.

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