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Sexta-feira, Setembro 17, 2021

Gonçalo Ribeiro Telles

Helena Pato
Antifascistas da Resistência

(1922 – 2020)

Arquitecto paisagista, Gonçalo Ribeiro Telles, esteve presente na Resistência ao fascismo, desde jovem, e foi um monárquico católico com quem republicanos e agnósticos ou ateus dialogaram sempre amistosamente. Faleceu a 11 de Novembro de 2020.

Cidadão muito respeitado pela sua seriedade, é conhecido pela cordialidade, pelo entusiasmo e pelo rigor científico, com que se envolve nas causas e iniciativas ligadas ao meio ambiente, pela forma como exerceu a profissão, mas também pela sua dimensão humanista e disponibilidade para partilhar conhecimentos.

Foi o grande mentor ideológico de uma política de paisagem, que se desenvolveu em Portugal na década de 60 , procurando uma relação íntima entre a Cultura e a Natureza. Deixa uma marca não só ao nível da arquitectura paisagista (o Parque Gulbenkian é o exemplo mais conhecido entre inúmeros outros), como na política do ambiente em Portugal. Figura notável das questões do ordenamento do território, introduziu em Portugal a Ecologia, conceitos como biodiversidade, multifuncionalidade, equilíbrio, dinâmica e a noção de recurso finito.

Devemos-lhe jardins urbanos aprazíveis, as hortas urbanas, a protecção legal da reserva natural e dos parques naturais, e também a frontal denúncia dos empórios do betão, da celulose e da energia.

O arquiteto-paisagista Gonçalo Ribeiro Telles visitou o Jardim-Horto de Camões, quase 30 anos depois de o ter projectado. Inaugurado em 1991 pelo Presidente da República, o Jardim-Horto de Camões é considerado o mais vivo e singular monumento erguido no mundo a um poeta.

(Foto: mediotejo)

 

Arquiteto-paisagista

Gonçalo Pereira Ribeiro Telles nasceu em Lisboa, em 25 de Maio de 1922. Licenciou-se em Engenharia Agrónoma e terminou o Curso Livre de Arquitectura Paisagista no Instituto Superior de Agronomia. Iniciou a sua vida profissional como assistente deste instituto e, mais tarde, foi professor convidado da Universidade de Évora, onde criou as licenciaturas em Arquitectura Paisagista e em Engenharia Biofísica. Na sua carreira universitária foi também professor convidado do curso de Planeamento Regional e Urbano e Engenharia Sanitária da Universidade Técnica de Lisboa (1973-1975).

Foi catedrático da Universidade de Évora, entre 1976 e 1992, ano em que se jubilou. A sua actividade profissional abrangeu principalmente as áreas do planeamento regional e urbano, do ordenamento rural, da paisagem industrial (Siderurgia) e do enquadramento e valorização dos jardins, destacando-se a que é talvez a sua obra mais conhecida: os jardins da sede da Fundação Gulbenkian, em Lisboa. No início da sua vida profissional, trabalhou na Câmara Municipal de Lisboa (1951-1960).

Intervenção pública

Iniciou a intervenção pública como membro da Juventude Agrária e Rural Católica (JAC), de que foi um dos fundadores e seu presidente[1]

Em 1957, fundou o Movimento dos Monárquicos Independentes (MMI), que se propunha concorrer às eleições legislativas desse ano, chegando a publicar um manifesto eleitoral. Quando começaram a verificar-se divisões internas no MMI, fundou, com outros monárquicos , o Movimento dos Monárquicos Populares (MMP), claramente oposicionista. Em 1959, esteve implicado na denominada Revolta da Sé e, no mesmo ano, subscreveu, com mais quatro dezenas de católicos – entre os quais Francisco Sousa Tavares, João Bénard da Costa, Nuno Teotónio Pereira e Sophia de Mello Breyner Andresen –, uma carta dirigida ao Presidente do Conselho, Salazar, na qual se denunciavam os métodos da PIDE.



Foi também um dos signatários do manifesto católico de apoio às posições da oposição democrática que ficou conhecido por «Manifesto dos 101».

Em 1958 manifestou o seu apoio à candidatura presidencial de Humberto Delgado. Em 1967, por ocasião das cheias de Lisboa, manifestou-se publicamente contra as políticas de urbanização vigentes, responsáveis pela dimensão da tragédia. 

Foi candidato na Lista Monárquica (Lisboa) em 1961 e em 1969 concorreu à Assembleia Nacional numa lista da Comissão Eleitoral de Unidade Democrática (CEUD)[2].

Em 1970 ajudou a fundar o movimento Convergência Monárquica, um movimento de monárquicos oposicionistas ao Estado Novo que reunia o Movimento dos Monárquicos Populares (que fundara em 1957), a Renovação Portuguesa, de Henrique Barrilaro Ruas, fundada em Maio de 1962, e uma facção da Liga Popular Monárquica, de João Vaz de Serra e Moura, nascida em 1964 .

Gonçalo Ribeiro Telles

Participou no III Congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro de 4 a 8 de Abril de 1973, apresentando uma tese intitulada «O Problema dos Espaços Verdes Urbanos»[3].

Da extensa obra de projecto e de planeamento que desenvolveu, salienta-se, nos anos que precederam o 25 de Abril, em 1970, o projecto de estrutura verde para a cidade de Nova Lisboa, em Angola, cujo plano director entregou no ano seguinte; em 1971, o plano de urbanização do Vale das Abadias e do Galante, na Figueira da Foz, em colaboração com o arquitecto Alberto Pessoa, e, nesse mesmo ano, o planeamento da zona de Quarteira-Albufeira e da ilha de Armona, ambos no Algarve, em colaboração com o arquitecto Frederico George.

Partido Popular Monárquico

Após o 25 de Abril, Ribeiro Telles, fundou o Partido Popular Monárquico (PPM), a cujo Directório presidiu. Foi Subsecretário de Estado do Ambiente nos Governos Provisórios I (A. Palma Carlos), II e III (Vasco Gonçalves) e Secretário de Estado da mesma pasta, no I Governo Constitucional. Em 1979 integrou a Aliança Democrática. Deputado à Assembleia da República, em 1980, eleito na lista de Lisboa do Partido Socialista. Em 1983/ 1985 integrou o VIII Governo Constitucional, como Ministro de Estado e da Qualidade de Vida. Durante esse período criou as zonas protegidas da Reserva Agrícola Nacional, da Reserva Ecológica Nacional e lançou as bases do Plano Director Municipal.

Em 1984 fundou o Movimento Alfacinha, com o qual se apresentou candidato à Câmara Municipal de Lisboa, tendo sido eleito vereador. Posteriormente fundou o Movimento o Partido da Terra, de que é presidente honorário, desde 2007.

Projectos de referência

Entre os seus projectos referenciam-se os jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, (que assinou com António Viana Barreto), um projecto com o qual recebeu, ex aequo, o Prémio Valmor de 1975. Projectou também o Jardim Amália Rodrigues, junto ao Parque Eduardo VII, em 1996. De 1998 a 2002, por iniciativa da presidência da Câmara Municipal de Lisboa, coordenou uma equipa técnica responsável por um conjunto muito vasto de projectos , relativos às estruturas verdes principal e secundária, tais como o Vale de Alcântara e a Radial de Benfica, o Vale de Chelas, o Parque Periférico, o Corredor Verde de Monsanto e a Integração na Estrutura Verde Principal de Lisboa, da Zona Ribeirinha Oriental e Ocidental.

O arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles foi homenageado pela Fundação Calouste Gulbenkian, na inauguração de um centro interpretativo do jardim desta instituição, em Lisboa, com o nome do arquitecto.


Da sua vida profissional destaca-se ainda o estabelecimento das zonas protegidas da Reserva Agrícola Nacional, da Reserva Ecológica Nacional e as bases do Plano Director Municipal.

Publicações

Colaborou com numerosos jornais e revistas e publicou vários livros sobre assuntos da sua especialidade, sozinho ou em colaboração, e tem vastíssima obra de projecto e planeamento. 

É autor de alguns trabalhos de carácter técnico, como Administração Pública e Ordenamento Territorial (Lisboa, 1980); Lisboa: Entre o Passado e o Futuro (Monte da Caparica, 1987); Reforma Agrária: o Homem e a Terra (Lisboa, 1976); Um Novo Conceito de Cidade: a Paisagem Global (Matosinhos, 1996). 

Em 1994 recebeu do então Presidente da República, Mário Soares, a Grã-Cruz da Ordem de Cristo.

Em 2011, aos 89 anos, Gonçalo Ribeiro Telles, foi homenageado na Universidade de Évora e na Fundação Calouste Gulbenkian.

Em Abril de 2013 foi galardoado com o Prémio Sir Geoffrey Jellicoe, a mais importante distinção internacional no âmbito da arquitectura paisagista, prémio que, segundo a Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas (APAP), “representa a maior honra que a Federação Internacional dos Arquitectos Paisagistas (IFLA) pode conceder; e reconhece um arquitecto paisagista, cuja obra e contribuições ao longo da vida tenham tido um impacto incomparável e duradoiro no bem-estar da sociedade e do ambiente e na promoção da profissão de Arquitectura Paisagista”.

[1] A JAC, com ligações ao “Movimento dos católicos progressistas”, atingiu o auge de implantação e participação na década de 60, acentuando a sua oposição ao regime nas sessões do Centro Nacional de Cultura.

[2] Neste ano, foi constituída a Comissão Eleitoral Monárquica (CEM), com o objectivo de concorrer às eleições legislativas, e Henrique Barrilaro Ruas convidou-o para fazer parte da lista, mas recusou por já se ter comprometido com a CEUD. Garantiu, porém, que se a CEM chegasse às urnas e fosse qual fosse o resultado, o MMP aderiria a uma Convergência Monárquica .

[3] Convidado, com outros monárquicos, a participar no III Congresso Republicano de Aveiro começou por recusar, por se tratar de um congresso republicano, mas a denominação passou a ser III Congresso da Oposição Democrática – por sugestão do governador civil de Aveiro, Vale Guimarães, que argumentava não estar em causa a questão do regime – o que afastou o obstáculo à participação de monárquicos.

 


Dados biográficos


 

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