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Sábado, Setembro 18, 2021

Ary dos Santos

Helena Pato
Antifascistas da Resistência

(1937 – 1984)

Militante da Resistência, José Carlos Ary dos Santos foi, até ao fim, a voz e a palavra conjugadas num raro e inato talento. Poeta criativo, expressivo, um poderoso inventor de metáforas e de imagens que ficaram no território dos afectos e dos combates contra o fascismo.

Tornou-se conhecido do grande público como um dos mais talentosos poetas da sua geração e, durante a Ditadura, contribuiu para a renovação da música ligeira portuguesa, através dos poemas, que considerava serem a sua maneira de falar ao povo[1]. «A sua importância para a poesia moderna portuguesa é inegável, não só por ser um cidadão-poeta empenhado desde sempre na transformação social, o que adquire expressão maior pós 25 de Abril, como na renovação do fado, a canção típica da sua bem amada cidade Lisboa». Apropriou-se da linguagem popular e recuperou-a para uma linguagem erudita da poesia[2].

A vida

Filho mais velho do médico Carlos Ary dos Santos e de Maria Bárbara de Castro Pereira, José Carlos Pereira Ary dos Santos nasceu em Lisboa, a 7 de Dezembro de 1937, numa família aristocrata da alta burguesia[3].
Começou a escolaridade no Colégio Infante Sagres mas, (expulso por “mau comportamento”), transitou para o Instituto Nuno Álvares, um colégio interno em Santo Tirso. Mais tarde, regressou aos estudos em Lisboa, no Colégio São João de Brito, no Lumiar. Apesar de não ter terminado nenhum curso superior frequentou as faculdades de Direito e de Letras de Lisboa. 

Ary dos Santos inicia-se muito cedo na escrita de poesia. Após a morte da mãe foram publicados, pela mão de familiares, alguns dos seus poemas. Tinha 14 anos e viria a rejeitar esse livro (“Asas”), considerando-o de fraca qualidade, mas não tardou, porém, a revelar-se como poeta, ao ser incluído na Antologia do Prémio Almeida Garrett, em 1954 (ladeando com nomes consagrados da poesia portuguesa). 

Pela mesma altura, aos 16 anos, incompatibilizado com o pai, abandonou a casa da família e, para assegurar o sustento económico, exerce as mais variadas actividades, desde vendedor de máquinas de pastilhas elásticas a paquete na Sociedade Nacional de Fósforos ou escriturário no Casino Estoril. Em 1958 Ary dos Santos inicia uma carreira profissional na área da publicidade, em que irá ter bastante êxito, fruto da enorme criatividade que revela em “slogans” publicitários que ficaram na memória dessa geração.

José Carlos Ary dos Santos inicia a actividade política em 1969, integrando a CDE de Lisboa. Publicitário com uma imaginação prodigiosa, foi então um dos autores dos cartazes da campanha eleitoral das CDEs , que foram elementos determinantes na mobilização popular conseguida nessa altura. A partir daí apoia pessoas e causas com uma generosidade que verá reconhecida, afirma-se contra a Ditadura e, a par da intervenção como poeta, desenvolve intensa actividade de militante da Resistência, deslocando-se por todo o país para se integrar em espectáculos da Oposição, declamando poesia. Após o 25 de Abril entra para o PCP, partido em que militará até à morte, servindo-o como poeta, com coragem e humildade, derramando assiduamente poesia, em comícios ou em sessões políticas da esquerda[4].Torna-se um activo dinamizador cultural da esquerda, percorrendo o país de lés a lés. Notabilizou-se então como declamador. . 

Homossexual assumido, viveu praticamente toda a sua vida no nº 23 da Rua da Saudade, um histórico lugar de encontro de intelectuais progressistas, amigas e amigos do poeta, e de gente ligada ao mundo da canção e da música. 

José Carlos Ary dos Santos era um homem de causas, generoso e excessivo, temperamento que não foi alheio à sua morte prematura. Faleceu a 18 de Janeiro de 1984, vítima de uma cirrose e foi sepultado no cemitério do alto de São João.

A obra. Os poemas. A voz. A memória de Ary

A sua estreia literária (efectiva) dá-se em 1963 com a publicação do livro de poemas “A liturgia do sangue”. No ano seguinte é editado o “Tempo da lenda das amendoeiras” e o poema “Azul existe” que será representado no Tivoli, no Teatro da Estufa Fria e na RTP.

Depois, ao longo da carreira, Ary dos Santos foi publicando livros de poemas, como:

  • “Adereços, endereços”, em 1965;
  • “Insofrimento in sofrimento”, em 1969;
  • “Fotos-grafias”, um livro que foi apreendido pela PIDE, em 1971;
  • “Resumo”, em 1973;
  • “As Portas que Abril Abriu”, em 1975;
  • “O Sangue das Palavras”, em 1979;
  • “20 Anos de Poesia”, em 1983. 

 

As extraordinárias capacidades criativas de Ary dos Santos estiveram patentes numa área que, cedo, lhe logrou grande sucesso e popularidade junto do grande público: a de autor de poemas de canções e fados, editados em disco e apresentados repetidamente na rádio e na televisão, bem como em espectáculos por todo o país. Autor de mais de 600 poemas para canções, colaborava assiduamente com vários compositores, de que se destacam Nuno Nazareth Fernandes e Fernando Tordo, mas também Alain Oulman, José Mário Branco, Paulo de Carvalho e António Victorino de Almeida.

A sua ligação ao fado foi iniciada com José Manuel Osório, editando em disco, em 1967, o poema “Desespero” . Posteriormente, escreverá para vários fadistas, tendo colaborações muito regulares com Amália Rodrigues e Carlos do Carmo[5]. Representativos do grau de popularidade, que os poemas de Ary dos Santos atingiam junto do grande público, são os temas “Estrela da Tarde”, “Lisboa, Menina e Moça” ou “Os Putos”, interpretados por Carlos do Carmo, com músicas de Fernando Tordo e Paulo de Carvalho. O seu nome ficou ligado para sempre a um disco de Carlos do Carmo, que marcou a História do Fado, o LP “Um Homem na Cidade”, de 1977, inteiramente concebido com poemas de Ary dos Santos. . Com Fernando Tordo escreveu mais de 100 poemas, destinados a canções do músico; e o duo Tordo/Ary continua a ser, até hoje, um dos mais notáveis da História da música ligeira portuguesa.

À data da sua morte tinha em preparação um livro de poemas intitulado As Palavras das Cantigas, que foi publicado pelas Edições Avante, em 1989, (com coordenação de Ruben de Carvalho); e, também, uma autobiografia romanceada a que pretendia dar o título de “Estrada da Luz – Rua da Saudade”. Ainda em 1984 foi lançada a obra VIII Sonetos de Ary dos Santos, com um estudo sobre o autor, de Manuel Gusmão e planeamento gráfico de Rogério Ribeiro, no decorrer de uma sessão na Sociedade Portuguesa de Autores. Em 1988, Fernando Tordo editou o disco O Menino Ary dos Santos, com os poemas escritos por Ary dos Santos na sua infância. Em 1994, foi editada “Obra Poética”, uma colectânea dos seus poemas.

Edições discográficas

A teatralidade patente na sua voz vibrante encontra-se registada em várias edições discográficas, onde se apresenta como declamador. O seu primeiro disco, “Ary por si próprio” data de 1970. No ano seguinte participa no LP “Cantigas de Amigos”, juntamente com Natália Correia e Amália Rodrigues. Em 1974 surge “Poesia Política”, em 1975 “Llanto para Afonso Sastre y Todos”, em 1977 “Bandeira Comunista”, em 1979 “Ary por Ary” e, no ano seguinte, “Ary 80” .

Homenagens

A 4 de Outubro de 2004 foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique a título póstumo.

O seu nome foi atribuído a um largo do Bairro de Alfama, e descerrada uma lápide evocativa na fachada da sua casa, na Rua da Saudade. Foi também dado o seu nome a uma rua em Benfica, no Bairro das Pedralvas (Lisboa).

Em 2009, Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti dão voz ao álbum de tributo Rua da Saudade – canções de Ary dos Santos.

Em 5 de Outubro de 2013, a Associação Conquistas da Revolução levou a cabo, na Voz do Operário, em Lisboa, uma sessão pública de homenagem ao poeta, com o espectáculo «As Portas que Abril Abriu – Homenagem ao Poeta da Revolução», uma homenagem integrada nas comemorações do 40.º aniversário do 25 de Abril.

Em 2014, trinta anos depois da sua morte, foi homenageado na Festa do Avante, num espectáculo-Café-Concerto.

Hoje, o poeta é conhecido e reconhecido por muitos como “poeta do povo” e a sua obra permanece na memória da geração da Revolução. Muitos dos grandes cantores o interpretaram e, ainda hoje, surgem novas vozes a cantá-lo[6].

 

[1] Escreveu poemas de 4 canções vencedoras do Festival RTP da Canção, apuradas para representarem Portugal no Festival Eurovisão da Canção:

  • Desfolhada Portuguesa (1969), com interpretação de Simone de Oliveira;
  • Menina do Alto da Serra (1971), interpretada por Tonicha;
  • Tourada (1973), interpretada por Fernando Tordo;
  • Portugal no Coração (1977), interpretada pelo grupo Os Amigos.

São de suas autorias canções intemporais, como Estrela da Tarde, Cavalo à Solta, Lisboa Menina e Moça, O amigo que eu canto, Café, Dizer Que Sim à Vida, Rock Chock, Meu amigo está longe. Estas canções foram interpretadas por cantores como Fernando Tordo, Carlos do Carmo, Mariza, Amália Rodrigues, Mafalda Arnauth e Paulo de Carvalho.

[2]

São raros os poetas que conseguem o ritmo encantatório, quase alucinado que imprime aos seus versos. Ler Ary no silêncio das páginas acaba sempre por acordar a sua poderosa voz de declamador em que sabia como poucos enfatizar a oralidade omnipresente na sua poesia escrita para ser dita ou cantada. (…) Uma poesia viril, uma voz indomada e indomável, como bem escreveu Baptista-Bastos».

in ARY, o POETA do POVO e da REVOLUÇÃO

[3] Além de José Carlos, o casal teve mais duas filhas, Maria do Rosário e Maria Isabel, e um outro filho, Diogo. Quando era ainda adolescente a sua mãe morre e o pai volta a casar. Dessa relação nasce a sua meia-irmã Ana Maria.

[4]

Sensível até ao desatar das lágrimas, um sátiro que usava com destreza e originalidade o verbo para despir na praça os hipócritas, os sabujos e deixar à mostra o cetim estiraçado da moral burguesa. (,,,) Com a clareza efabulatória das palavras que a sua voz potente purificava e o guindaram próximo e amado do povo, com a inquietação das nossas mais fundas interrogações existenciais: a raiva, a ternura, o combate, a ironia, a solidão e o amor levados a limites de exaltação e acerto sintáctico como raros poetas entre nós conseguiram expressar com igual mestria e vigor, argúcia narrativa e assertiva evidência»

in O poeta que Abril nos deu

[5] A convite de Alain Oulman escreve, em 1968, o poema “Meu amor meu amor” para ser interpretado por Amália Rodrigues. Seguiram-se temas como “Amêndoa Amarga”, “Alfama”, “Rosa Vermelha”, “O Meu é Teu” e “O Meu Amigo está Longe”.

Ainda no âmbito da sua criação de poemas interpretados por fadistas, Ary dos Santos escreverá “Adagio”, em 1973, para a música “Adagio” do compositor Albinoni, a qual foi interpretada por Teresa Silva Carvalho; “Meu Corpo”, em 1974, para o repertório de Beatriz da Conceição; o poema “Roseira, botão de gente”, interpretado por Vasco Rafael na revista “Ó da Guarda”, de 1977; o tema “O País”, de 1981, cantado por Tony de Matos; e os temas “Mãe Solteira”, “Fado Mulher”, “Os Pinheiros” e “A Cidade”, escritos no início da década de 1980 para a fadista Maria Armanda.

[6] Desde Fernando Tordo, Simone de Oliveira, Tonicha, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Amália Rodrigues, Maria Armanda, Teresa Silva Carvalho, Vasco Rafael, entre outros, até aos mais recentes como Susana Félix, Viviane, Mário Barradas, Vanessa Silva e Katia Guerreiro.


Dados biográficos


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