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Segunda-feira, Julho 4, 2022

Guerra: Efeitos em Portugal

Eugénio Rosa
Eugénio Rosa
Licenciado em economia e doutorado pelo ISEG

Uma U.E. e um E.U.A. que, no lugar de apoiar a Ucrânia nas negociações rápidas e verdadeiras para encontrar uma solução diplomática para a guerra, a deixa sozinha face a um invasor poderoso, que ocupa já parte do seu território, e que se colocam na posição cómoda de fornecedores de armas para que a matança, a destruição de um país e a fuga maciça de ucranianos continuem criando aos países da U.E., incluindo em Portugal, uma grave crise económica e social pior que a causada pela pandemia.

Este estudo é um olhar diferente sobre a guerra na Europa, sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia, sobre a incapacidade e cegueira dos lideres europeus, submissos à estratégia e aos interesses americanos, incapazes de estabelecer um acordo de segurança na Europa, que incluísse a Rússia, e que não permitissem o cerco desta pela NATO. Analiso também as consequências da guerra e da multiplicação sanções, que são também “tiros dados nos pés dos europeus” que estão a conduzir a U.E., e nomeadamente Portugal, cuja economia é extremamente frágil e dependente, a uma situação de inflação elevada e sem crescimento económico, o que determinará o aumento da pobreza e das desigualdades muito maior do que a resultante da pandemia.

Estudo

Uma U.E. e um E.U.A. que, no lugar de apoiar a Ucrânia nas negociações rápidas e verdadeiras para encontrar uma solução diplomática para a guerra, a deixa sozinha face a um invasor poderoso, que ocupa já parte do seu território, e que se colocam na posição cómoda de fornecedores de armas para que a matança, a destruição de um país e a fuga maciça de ucranianos continuem criando aos países da U.E., incluindo em Portugal, uma grave crise económica e social pior que a causada pela pandemia

No contexto atual em que só os tambores da guerra são ouvidos, em que a comunicação social perdeu toda a objetividade, limitando-se a divulgar comunicados de guerra de noticias não confirmadas, em que os jornalistas se transformam em estrategas de guerra (a deontologia foi mandada às urtigas”), em que os media repetem até à exaustão noticias não confirmadas, muitas vezes em contraste com as reportagens filmadas que ao mesmo tempo apresentam, em que a mesma imagem da guerra é transmitida dezenas de vezes num autêntico massacre informativo, em que os comentadores de televisão são escolhidos a dedo, condicionando por todos estes meios a opinião pública, em que qualquer opinião diferente é silenciada ou esmagada por uma avalanche de criticas e de até de palavras ofensivas (pensar diferente é perigoso neste momento mesmo em Portugal), é necessário ter coragem para encarar com racionalidade e objetividade os acontecimentos atuais que nos estão a conduzir a Ucrânia e o mundo, a uma situação imprevisível e insustentável, com consequências económicas e sociais dramáticas também na vida dos portugueses (disso ninguém pode ter dúvidas até porque todos nós já começamos a sentir isso nos preço dos combustíveis, do gás, dos produtos alimentares, etc., etc.), que o governo tenta subestimar ou mesmo esconder e que nada faz para mitigar as consequências nos mais vulneráveis. Correndo conscientemente todos estes riscos não abdico de pensar e ter uma opinião própria e livre (a minha) que pretende apenas ser um contributo pra reflexão dos leitores.

 

Um pouco de história para mostrar o contraste entre dois líderes mundiais que evitaram uma guerra nuclear e os líderes atuais incapazes de impor negociações sérias para acabar com a guerra e garantir a segurança de todos os países na Europa incluindo da Rússia

Recordar a história recente é importante até para mostrar o contraste em dois lÍderes mundiais – John Kennedy e Nikita Khrushchov -que tiveram a lucidez de evitar um confronto nuclear, e os atuais líderes que o que fazem é promover a guerra e fornecer armas para que a matança e a destruição continuem. Contemos, sinteticamente, o que aconteceu em 1962 em que o mundo esteve à beira de uma guerra nuclear pois muitos portugueses não viveram esses momentos de angústia e de medo geral.

Em 1960, 2500 cubanos que tinham fugido para Miami, treinados e financiados pelos E.U.A., invadiram Cuba com o objetivo de derrubar o governo de Fidel de Castro. Descobertos pelo exército cubano foram dizimados e 1500 feitos prisioneiros mais tarde libertados com base num acordo com o E.U.A.

Receando novo ataque apoiado pelos E.U.A., Cuba, para se defender, permitiu à União Soviética, que era sua aliada, a instalação de misseis que atingiam facilmente as cidades americanas. Em out.1962, aviões-espiões americanos U2 fotografaram imagens que revelavam rampas que permitiriam o lançamento de mísseis em Cuba. Para os E.U.A, era inadmissível ter mísseis nucleares tão perto do seu território, enquanto para Cuba, as armas eram uma garantia que não seriam novamente invadidos. E os E.U.A. não aceitavam, embora em nov.1961 tivessem instalado 15 mísseis nucleares “Júpiter” na Turquia e 30 mísseis na Itália. Estas armas tinham um alcance de 2.400 km e ameaçavam Moscovo.

A reação dos Estados Unidos aos misseis foi fazer um bloqueio naval a Cuba, uma quarentena. Durante este período a marinha americana tencionava inspecionar os navios de bandeira soviética e aqueles que contivessem armas seriam mandados de volta ao porto de origem. Esta ação dos E.U.A. foi apoiada pela NATO. A URSS não aceitou a inspeção aos seus navios. Um avião espião americano U2 foi derrubado sobre Cuba. Os generais americanos queriam bombardear Cuba. Kenedy não permitiu. Durante 13 dias negociou-se e o mundo viveu sob a ameaça de uma guerra nuclear. Mas os dois líderes acabaram por chegar a um acordo. A URSS fez uma proposta em que se comprometia a retirar os misseis de Cuba, e os E.U.A. retirariam os seus da Turquia, e comprometiam-se a não invadir Cuba. O presidente Kennedy aceitou a proposta e assim, com base num acordo diplomático, se evitou a guerra entre a URSS e a NATO. A clarividência dos dois líderes foi um fator chave. É evidente que essa clarividência não existe nos líderes atuais que, no lugar construírem a segurança de todos os países e a paz, são fautores da guerra devido à sua intransigência e cegueira. No lugar de se empenham ativamente para obter a paz, são inflexíveis e transformam-se em fornecedores de armas para que a destruição continue. E assim um país é destruído, um povo está a ser obrigado a fugir e uma grave crise económica e social abate-se sobre a U.E. agravando ainda mais a sua dependência aos E.U.A e à China, e os obstáculos ao crescimento e desenvolvimento

 

A expansão enorme da NATO após queda do “Muro de Berlim” (passou de 12 para 26 países) e o cerco da Rússia pela NATO que deu o pretexto a um autocrata para invadir a Ucrânia

O mapa que a seguir se apresenta mostra de uma forma clara como a NATO, sob a batuta dos Estados Unidos, e com a subserviência dos países da União Europeia, foi criando uma situação que tarde ou cedo daria origem ao que está a suceder. Se juntarmos a isso, a conduta também de um outro autocrata, Zelensky, apoiado por forças da extrema-direita, agora transformado pela comunicação social ocidental em “herói da liberdade”, que inscreveu na própria Constituição a adesão à NATO, completando assim o cerco desta à Rússia, tornam-se claras as causas que levaram à situação atual que enfrenta a Europa, perante a passividade e a incapacidade dos líderes europeus para prever e evitar uma situação insustentável e a sua submissão aos E.U.A., embora isso não justifique a invasão da Ucrânia que está a destruir este país e a causar um sofrimento enorme ao seu povo que anseiam pela paz e segurança.

Os países a azul são os que constituíam a NATO antes da queda do “Muro de Berlim”; a laranja são os que entraram para a NATO depois da queda do “Muro de Berlim”. Com a implosão da URSS, no lugar de se estabelecer um acordo que garantisse a todos os países segurança, incluindo a Rússia, a NATO expandiu-se enormemente fechando o cerco à Rússia. O quadro 1 mostra a expansão e datas de adesão dos países à NATO.

Quadro 1 – A expansão da NATO após a queda do “Muro de Berlim” em 1989 e o cerco à Rússia

É claro o cerco e a intimidação da NATO à Rússia. Pensem o que os Estados Unidos fariam se fossem cercados por uma aliança militar comandada pela Rússia? Para compreender a situação criada pelos líderes ocidentais é necessário que nos coloquemos na posição contrária. É que o que faz qualquer pessoa inteligente e mais quando os seus atos afetam centenas de milhões de seres humanos.

 

A U.E. a reboque do EUA, a descrebilização, a incapacidade e a passividade dos líderes europeus para encontrar uma saída negociada para a crise

A situação dos Estados Unidos é completamente diferente da situação da União Europeia. Os E.U.A. exportam gás, a U.E. importa gás. Os E.U.A. exportam cereais, e a U.E. importa cereais para alimentar a sua população e o seu gado. Os E.U.A. não terão de suportar os custos económicos e sociais de milhões de refugiados, e a U.E. terá de suportar. À medida que o tempo passe e a guerra se prolongue, e passada a emoção causada pela invasão da Ucrânia pela Rússia, e a voz dos falcões da guerra que atualmente dominam os media ocidentais se esmorecer, e a realidade se impuser com a sua força brutal e a vida dos europeus, nomeadamente dos portugueses se tornar ainda muito mais difícil que a vivida com a pandemia, e a pobreza e as desigualdades se agravarem muito mais é que se tornará claro para todos que a via de fomentar a guerra e multiplicar as sanções como têm feito a U.E. e os E.U.A., com a ilusão que dessa forma põem de joelhos o autocrata russo, não foi a correta, e são “tiros dados nos próprios pés dos europeus”.

 A perda de iniciativa, a descredibilização da U.E., a sua total submissão aos E.U.A. e aos seus interesses económicos e estratégicos, muitas vezes condicionados pela sua política interna e eleitoral, e visando tornar a Europa totalmente dependente dos E.U.A., a incapacidade dos atuais líderes europeus para se afirmarem num mundo em mudança e cada vez mais multipolar, é dramático para todos os europeus e, em particular, para Portugal, um pequeno país que não pode deixar de seguir a onda criada pelos outros. É incompreensível que seja um país como Israel, com uma política de violência e de guerra contra outro povo – o da Palestina – a ter a iniciativa para encontrar uma saída diplomática perante a incapacidade dos líderes europeus. Os países da NATO ainda tiveram a lucidez de resistir à chantagem do autocrata da Ucrânia para entrar na guerra, pois se acontecesse levaria ao alastramento da guerra à Europa com o cortejo de destruição, mortes e forme. Mas esta lucidez é um sinal para que a destruição continue, o que devia ter sido evitada com verdadeira um acordo de segurança europeu.

 

O disparar dos preços, a passividade do governo, e uma nova e mais grave crise económica e social com a queda do crescimento e o aumento da pobreza e das desigualdades

Passou-se pouco mais de uma semana de guerra, e os portugueses já sentem de uma forma brutal os efeitos dela. Contrariamente ao que afirmara o governo, de que Portugal não estava dependente do gás russo, criando a ilusão de que os portugueses não seriam afetados, bastou alguns dias para que a realidade desmentisse as afirmações do ministro da Energia Matos Fernandes. Em poucos dias os preços dos combustíveis dispararam e aumentam todas as semanas. Embora tenha sido publicado recentemente a Lei 69-A/2021 que permite ao governo controlar as margens de comercialização das empresas petrolíferas, o governo nada faz, o que permite às grandes empresas de energia, controladas por grupos estrangeiros, aproveitar a crise, para embolsar grandes lucros à custa dos portugueses. Os lucros da GALP aumentaram 48% em 2021 atingindo 457 milhões € e os da EDP 657 milhões €, e se deduzirmos os efeitos não recorrentes eles foram de 826 milhões € como refere a própria empresa. 2022 será certamente um ano de ouro para as petrolíferas que “engordarão” ainda mais à custa dos consumidores. A crise é o paraíso para as empresas de energia devido à liberdade que gozam para aumentar todas as semanas os preços perante a passividade de um governo que nada faz. O gráfico 1, com dados do INE mostra o disparar do IPC em Portugal até fev.2022 segundo o INE.

A manter-se o ritmo de crescimento dos preços verificado de jun.2021 a fev.2022, estimo que a inflação em Portugal será, em 2022, superior a 6%. Compare-se esta taxa de inflação com subida das remunerações verificada em 2022 nas Administrações Públicas de apenas 0,9%, nas pensões entre 0% e 1%, na banca inferior a 0,9%, etc. O mesmo acontecerá em relação às poupanças depositadas nos bancos onde as taxas de juro pagas são atualmente iguais ou inferiores a 0,3%. E mesmo em relação aos trabalhadores do setor privado registar-se-á uma quebra significativa do seu poder de compra até porque as subidas nos salários serão certamente muito inferiores à inflação. E isto porque a crise causada pela guerra na Europa afetará certamente os principais mercados das exportações portuguesas.

A inflação será certamente mais elevada do que é possível prever neste momento devido ao disparar dos preços de energia que aumentarão os custos de todos os outros bens porque a energia é utilizada em todos os setores da economia. O quadro 2, com os preços da gasolina e do gasóleo em jan.2022 nos países da U.E., revela que Portugal é um dos países onde os combustíveis são mais caros.

Quadro 2 – Preços dos combustíveis sem impostos e com impostos nos países da U.E. -jan.2022


Portugal é um dos países da U.E. onde, já em jan.2022 o preço da gasolina e do gasóleo era um dos mais elevado quer se considere os preços sem impostos quer com impostos. E após jan.2022 os preços não pararam de aumentar perante a passividade do governo que continua a dar às petrolífera a liberdade total para aumentar todas as semanas os preços agora com a justificação da guerra (atualmente o preço da gasolina 98 já atingiu 2,07€/i e do gasóleo 1,862€/l e vão aumentar mais 9 e 19 cêntimos na semana 7-11 de março). O mesmo já sucedeu com o gás cujo preço aumentou nos mercados internacionais cerca de 25%, isto quando o ministro da Energia dizia que Portugal não seria afetado pela crise do gás russo. Segundo o presidente da Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares, Portugal tem reservas de cereais apenas para 3 a 4 semanas findas as quais não tem alternativas porque a Ucrânia era o principal fornecedor. Isto a juntar à seca prolongada e o aumento dos custos a energia prevê um aumento substancial dos produtos alimentares (pão, carne, etc.). Portugal caminha para uma situação de inflação elevada sem crescimento económico que aumentará a pobreza e as desigualdades. É esta a perspetiva se se insistir na via da guerra e da multiplicação de sanções, e não na via de verdadeiras negociações visando garantir a segurança de todos os países na Europa, incluindo a Rússia e acabando com o cerco asfixiante da NATO a este país que muitos europeus não falam por medo ou conveniência, e que os media ignoram deliberadamente.


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