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Domingo, Julho 3, 2022

Guerras provocam “gritante” recorde de 100 milhões de deslocados no mundo

Pela primeira vez na História foi atingido o número mais alto de refugiados e requerentes de asilo. Guerra na Ucrânia “empurra para a sombra” sofrimento africano

Os cem dias da ofensiva militar russa na Ucrânia já provocaram mais de 8 milhões de deslocados internos e a fuga de quase 7 milhões de pessoas do território. De acordo com os mais recentes dados da ONU, a Europa vive a mais «alarmante» crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Apesar de milhares estarem a regressar, a expectativa pessimista do prolongamento dos combates, numa altura em que as negociações de paz estão paradas, coloca a hipótese de uma segunda vaga de refugiados ucranianos.

A par desta guerra à porta da Europa, que acrescentou perto de 15 mil deslocados à contabilidade de 2021 (90 milhões), os conflitos prolongados em países como a Etiópia, Burkina Faso, Myanmar, Nigéria, Afeganistão e República Democrática do Congo fizeram com que o número de pessoas deslocadas à força – refugiados e requerentes de asilo – tenha subido para 100 milhões, como avançou recentemente o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

«Estes números devem servir como um alerta para resolver e prevenir conflitos destrutivos, acabar com a perseguição e abordar causas subjacentes que forçam pessoas inocentes a fugirem das suas casas», considerou o Alto-comissário da ONU, Filippo Grandi, ao lamentar: «cem milhões é um número gritante – tão preocupante como alarmante. É um recorde que nunca deveria ter sido estabelecido»

O responsável defendeu, ainda, que a mobilização de apoio à Ucrânia tem efeitos positivos e que deve ser replicada nas restantes crises mundiais. No entanto, «em última análise, a ajuda humanitária é um paliativo, não uma cura. Para inverter esta tendência, a única resposta é a paz e a estabilidade, para que pessoas inocentes não sejam forçadas a escolher entre o perigo iminente em casa ou um voo precário e exílio».

A 16 de Junho, vai ser possível ter acesso pormenorizado aos dados globais, regionais e nacionais sobre a deslocação forçada, quando o ACNUR divulgar o Relatório Anual de Tendências Globais.

 

Negligenciadas

Kiev, Borodianka, Irpin, Kharkiv, Lviv, Bucha, Mariupol, Mykolaiv, Odessa, Severodonetsk, Zaporizhya… Os nomes destas cidades ucranianas tornaram-se familiares por serem pronunciados dezenas de vezes, nos últimos três meses. As imagens de destruição, os sons de bombardeamentos, os relatos da população em fuga inundaram o pequeno ecrã e as páginas da imprensa na guerra mais documentada de sempre, onde os telemóveis e as redes sociais também se transformaram em armas no palco das batalhas.

«Com a guerra absorvente na Ucrânia, receio que o sofrimento africano seja empurrado ainda mais para as sombras», avisou Jan Egeland,  secretário-geral do Conselho Norueguês para Refugiados

Longe dos holofotes mediáticos e distantes da onda de ajuda internacional existem, no entanto, outras guerras sangrentas sem rostos e nomes.

Parece que apenas os números chocam, como é o caso do Iémen – mais de 233 mil mortos e 2,3 milhões de crianças em desnutrição aguda em 11 anos de conflito –; de Mianmar – estima-se que mais de 10 mil pessoas morreram desde Fevereiro do ano passado –; da Síria – 380 mil mortos confirmados e 200 mil desaparecidos –; ou do Haiti e do Afeganistão, entre outros.

As dez crises de deslocados, consideradas as mais negligenciadas do mundo, estão todas em África, como divulgou na semana passada o Conselho Norueguês para Refugiados (CNR). Classificações anteriores incluíam países como a Venezuela e Honduras.

«O facto de as crises mais negligenciadas do mundo estarem todas em África indica o fracasso crónico dos agentes de decisão, doadores e dos media em lidar com conflitos e sofrimento humano neste continente», lamentou o secretário-geral do Conselho, Jan Egeland ao acrescentar: «com a guerra absorvente na Ucrânia, receio que o sofrimento africano seja empurrado ainda mais para as sombras».

A operação militar em território ucraniano «mostrou a imensa lacuna entre o que é possível quando a comunidade internacional se une por detrás de uma crise e a realidade quotidiana de milhões de pessoas que sofrem em silêncio no continente africano e nessas crises que o mundo escolheu ignorar», alertou ainda Egeland.

A República Democrática do Congo (RDCongo) aparece no primeiro lugar da lista, com 5,5 milhões de pessoas deslocadas dentro do país e cerca de 30 milhões a passar fome (um terço da população).

No índice daquela organização humanitária, a RDCongo é seguida pelo Burkina Faso, Camarões, Sudão do Sul, Chade, Mali, Sudão, Nigéria, Burundi e Etiópia.

Falta de financiamento, falta de atenção dos meios de comunicação social e falta de iniciativas políticas e diplomáticas internacionais são os critérios utilizados na lista anual de crises negligenciadas.

 

Somália em risco

Outra crise humanitária em território africano está a deixar em risco de vida mais de 380 mil crianças subnutridas. Segundo a Unicef, neste momento, existem 15 milhões de pessoas a precisarem de ajuda urgente na Somália, devido à pior seca dos últimos 40 anos com as colheitas a secar, o gado a morrer e perante a previsão de nova época sem chuva.

«Se o mundo não ampliar o seu olhar sobre a guerra na Ucrânia e agir imediatamente, está prestes a acontecer uma brutal vaga de mortalidade infantil no Corno de África», avisou Rania Dagash, uma das representantes da organização.

«Apelamos à comunidade internacional, liderada pelo G7, que se reunirá na Alemanha em poucas semanas, para se comprometer com um novo pacote de financiamento para salvar vidas”, sublinhou Rania Dagash ao recordar que até agora apenas foi angariado um terço dos 250 milhões de dólares necessários para evitar uma catástrofe humanitária na Somália.

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