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João de Sousa

Quarta-feira, Maio 25, 2022

Guerras santas contra vacinas e ciência

Por gerações, as vacinas foram necessárias para a entrada nas nossas escolas públicas, para evitar surtos de varíola, pólio, difteria, rubéola, sarampo e catapora. E por décadas, as objeções não se sobrepunham com a política. Agora, em uma América muito mais polarizada, os Republicanos estão muito mais propensos a pular a vacina contra o coronavírus.

No último verão, parte da minha família visitou companheiros na Pensilvânia. Todos nós, que saímos do Bronx estávamos completamente vacinados. A observância do uso de máscaras estava basicamente em 100% no Amtrak – os condutores pediram aos passageiros que não estavam usando máscaras para coloca-las. Diferente de muitos passageiros que eu vejo diariamente nos ônibus da cidade e no sistema do metrô, aqueles passageiros cumpriam sem reclamar.

Enquanto andando para o carro depois de alcançar nosso destino, eu descobri que a mãe da nossa família anfitriã não estava vacinada. O pai riu da minha máscara, que eu esqueci de remover, mas ele não sabia que o Amtrak as exigia. Seu estado havia recentemente suspendido os mandatos de máscaras para pessoas dentro de restaurantes e lojas.

A família é cristã evangélica, então eu não estava inteiramente surpreso com as revelações. Para não ser um convidado controverso, eu escolhi não discutir a questão. Mas uma noite enquanto assistindo a cobertura das notícias na TV a cabo sobre o crescimento da variante Delta, eu comentei em voz alta que nós ainda não havíamos terminado a crise. A manchete era que até pessoas vacinadas estavam se infectando.

Uma manchete melhor teria sido que não vacinados eram muito mais prováveis de pegar o vírus. Por exemplo, na cidade de Nova York, 96% dos pacientes de coronavírus são não vacinados. Aqueles completamente vacinados respondem por menos de um por cento dos casos.

De qualquer forma, a reportagem levou uma das crianças a me perguntar, porque se importar em se vacinar? Além disso, ele continuou, os Centros de Controle de Doenças estavam inflando o número de pessoas infectadas.

Meu coração afundou ouvindo essa desinformação. Eu disse a ele que eu tinha assistido, ouvido ou lido as notícias todos os dias e eu nunca me deparei com essa afirmação. Eu me perguntei quem disse isso a ele. O ministro da família estava dando o OK para recusar vacinas? Novamente, melhor evitar questões para manter a paz.

Eu tenho certeza se minha suspeita estava correta. Meu vereador e meu senador estadual, Rev. Rubén Díaz, Sr., recentemente confirmaram isso. Na sua edição de 21 de setembro de seu newsletter, “What You Should Know” (Nota: o que você deve saber), ele explicou porque “tantas pessoas de fé, especialmente evangélicos cristãos, estão optando por não obter vacinas de COVID”.

Diáz cita 1 Coríntios 6: 19-20. Essa passagem diz aos cristãos que seus corpos são “templos do espírito santo”, que está dentro dos corpos dos crentes. Uma vez que os cristãos “não são deles”, eles devem “honrar a Deus com seus corpos.” A seleção não discute, e possivelmente não poderia discutir, vacinas. Talvez inoculações contra varíola remontam a mil anos, na China, norte da África e Turquia. A Primeira Carta de Paulo aos Coríntios foi escrita quase mil anos antes dessas primeiras inoculações. E as vacinas existiam há apenas cerca de 200 anos.

Além da base teológica, objeções religiosas contra vacinações geralmente protestam que células-tronco são frequentemente usadas em seu desenvolvimento. Recentemente, isso foi com afirmações incorretas de que as vacinas de COVID-19 contêm células-tronco de fetos abortados. Para ser consistente, Tylenol, Pepto Bismol, Ibuprofeno, Motrin e outros produtos também teriam que ser recusados.

Na nossa sociedade secular, todas as objeções religiosas devem ser consideradas autênticas? Diretrizes federais e decisões judiciais anteriores guiam empregadores para fazer julgamentos. Os empregadores podem perguntar se o comportamento dos trabalhadores mostra consistência com a crença religiosa. Uma razão religiosa está sendo usada como conveniência para benefícios seculares e não religiosos? A temporização da objeção religiosa a faz suspeita? O empregador tem uma boa razão para duvidar que a objeção religiosa não é sincera?

Em 2016, Vermont removeu as crenças religiosas como um modo de saída das exigências de vacina para admissões em escolas de jardim da infância públicas. Imediatamente, o número de casos de isenção religiosa disparou. Em outras palavras, as pessoas agarraram em objeções religiosas quando outras objeções não podiam ser usadas.

Por gerações, as vacinas foram necessárias para a entrada nas nossas escolas públicas, para evitar surtos de varíola, pólio, difteria, rubéola, sarampo e catapora. E por décadas, as objeções não se sobrepunham com a política. Agora, em uma América muito mais polarizada, os Republicanos estão muito mais propensos a pular a vacina contra o coronavírus.

Díaz também argumenta que o medo de efeitos colaterais é uma razão válida para recusar vacinações. Especialmente porque, ele implica, ninguém vai ser responsável por pressionar as pessoas para obter as injeções, se um horrível efeito colateral se desdobrar.

Ele e os não vacinados estão reprovando na classe de probabilidade. Sim, é possível que sérios efeitos colaterais podem causar problemas de longo prazo, mas isso é “extremamente improvável.” Mais prováveis são os efeitos colaterais leves e de curta duração, mas o dano da COVID-19 é frequentemente “duradouro e até fatal.”

Rev. Díaz afirma, “tantas pessoas de fé” estão recusando a vacinação. Mas isso é simplesmente falso. Os cristãos evangélicos são o ponto fora da curva; a maioria das lideranças religiosas discorda.

O Papa e a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos estão dizendo aos católicos para se vacinarem. O Papa Francisco está vacinado e disse que seria suicídio não o fazer. Ele chama ser vacinado de “um ato de amor.”

Similarmente disseram os seguidores da Arquidiocese Ortodoxa Grega da América, assim como os adoradores Ortodoxos Orientais, representados pelo Santo Sínodo Eparquial da arquidiocese nacional.

As mesmas notícias são pregadas pela Igreja Luterana Evangélica na América e o Rev. Robert Jeffress, da Primeira Batista de Dallas, uma mega igreja Batista do Sul. Adicione a lista a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Em alguns casos, esses grupos religiosos estão exigindo que seus estudantes ou seus missionários sejam vacinados. Em outros casos, as vacinas são estimuladas, embora não via declarações oficiais da política. Exemplos aqui são a Igreja Metodista Unida e a União Ortodoxa, uma organização guarda-chuva para o Judaísmo Ortodoxo. Os estudiosos Islâmicos do Conselho Fiqh da América do Norte aconselham os crentes muçulmanos a obterem suas injeções e argumentam contra “rumores e mitos infundados” sobre vacinas.

Os Testemunhas de Jeová também são incentivados a se protegerem. Apesar de sua longa história de oposição a vacinações, os Cientistas Cristãos estão abertos às vacinas que combatem a COVID-19.

Meu prestes a se aposentar vereador também argumenta que algumas pessoas “já adquiriram ‘Imunidade de Rebanho Natural’”. Outra nota “F”, dessa vez na classe de ciências.

Imunidade de rebanho é sinônimo de imunidade de comunidade. Ela não acontece com os indivíduos, a menos que ocorra com o coletivo. Como isso acontece? Ou números massivos são vacinados ou muitos pegam a doença, a propagação de uma pessoa para outra não é mais possível. A doença ou vírus ainda se propaga, mas apenas em um nível individual. Não rasga cidades inteiras, estados, etc.

Repetir o absurdo de Paul Kengor, do “The American Spectator”, é irresponsável. Kengor argumenta que imunidade de rebanho via infecção comunitária é superior à imunidade via vacinas. A verdade é que o primeiro caminho tem grandes problemas. Um é a possível reinfecção, muito mais provavelmente com os não vacinados. A outra armadilha é que precisaria provavelmente de 70% da população dos EUA pegar COVID-19 e recuperar para a “imunidade natural” ocorrer.

Os líderes devem, seja do púlpito ou não, acreditar em fontes políticas conservadoras ou na Mayo Clinic (Nota: organização sem fins lucrativos na área da saúde) para orientação sobre COVID-19? Díaz escolhe a primeira fonte, aquela que aconselha o Presidente com impeachment Donald Trump, escarrando ruidosamente “Minuteman Bill of Rights Gold Half Dollars”.

O mesmo artigo do “American Spectator” cita um estudo afirmando que pessoas que se recuperaram da COVID “não obtém benefícios adicionais da vacinação.” Cientistas discordam de todo coração. Há evidências que aqueles que se recuperaram do coronavírus, mas não são vacinados estão “mais que duas vezes mais prováveis” de serem reinfectados, comparados com as pessoas que estão completamente vacinadas.

O Rev. Díaz está vacinado, mas ele “não pressiona” os membros de sua igreja ou visitantes a seguir o exemplo. Ele abençoa objeções emocionais e físicas, mas dá mais peso a razões espirituais. Devemos acreditar que os não vacinados em sua congregação sabem mais sobre o Bom Livro do que ele? Porque a vacina é necessária para ele, mas não para o rebanho?

Os melhores de nossos oficiais eleitos perderam a paciência com esquemas de vacinação voluntários. O Estado de Nova York agora exige que os trabalhadores da saúde obtenham suas injeções. Se eles não se vacinarem, vão perder seus empregos. Uma semana antes da exigência, 82% dos trabalhadores de casas de repouso do estado e cerca de 84% de seus trabalhadores de hospitais tinham recebido uma ou mais doses. Quando o mandato estava em vigor, os números pularam para 92%. Os dois grupos no geral estão muito mais protegidos que o resto da sociedade, mas eu me pergunto se os 8% resistentes estão ouvindo o Rev. Díaz e vozes similares.

Será que a liberdade religiosa prejudica potencialmente a segurança pública? Algumas religiões ancestrais usavam sacrifícios humanos para agradar os deuses. Suas sociedades não eram científicas e eram aturdidas por erupções vulcânicas, furacões, epilepsia e similares. Hoje, todos nós concordaríamos que matar humanos não é a resposta natural para desastres, germes e vírus. Nós devemos perguntar, abençoar a oposição às vacinas potencialmente prejudica muitas pessoas? Pergunte às equipes dos hospitais que estão transbordando com casos de COVID-19 e isso deve afastar outros problemas médicos.

Nesse ponto, minha futura vereadora, Amanda Farías, entra no debate. Ao longo da pandemia, Farías distribuiu máscaras, comida e álcool em gel – e informação correta sobre vacinas. Uma declaração de 5 de outubro argumenta que casos de COVID-19 de não vacinados são prejudiciais à comunidade por direito próprio. E por preencher os leitos dos hospitais sem necessidade, eles estão expulsando outros pacientes, como mulheres com câncer de mama, a segunda principal causa de câncer entre mulheres.

Tomando uma abordagem totalmente oposta do homem que se aposentou, ao invés de encara-la em uma eleição, Farías diz às pessoas de seu distrito que nós devemos “não apenas cuidar de nós mesmos, mas também cuidar de nossos vizinhos. Como? Sendo vacinados. Um link no lançamento leva os leitores a locais de vacinação através de grandes áreas do Bronx.

O Rev. Díaz devia ser mais cuidadoso. Eu não posso contestar suas sinceras objeções religiosas. Mas seu newsletter levanta muito mais do que questões de fé – ele dissemina numerosas falsidades científicas. E ele circula além de sua lista de e-mail, via o feed do Twitter, assim como sua reprodução em muitas publicações impressas e online locais do Bronx. Isso inclui “The Bronx Chronicle”, “Newsbreak”, “La Voz Internacional”, “100 Percent Bronx” e várias páginas do Facebook. Cobertura online significa que a mensagem se dissemina além do bairro.

Nós precisamos de liderança, se nós vamos superar a era do coronavírus. O Rev. Díaz e vozes similares estão falhando com seus próprios constituintes e seguidores. E como o próprio vírus, o dano não pode ser contido.


por Michael Arney, Ativista do Partido das Famílias Trabalhadoras. Ajudou a liderar o Bronx Progressives, uma afiliada local da New York Political Action Network (Our Revolution)| Texto em português do Brasil, com tradução de Luciana Cristina Ruy

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado

Fonte: People’s World

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