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Sexta-feira, Abril 19, 2024

Há 40 anos, a MPB cantava a Amnistia que balançou a ditadura

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

A música popular brasileira tem sido um retrato fiel dos mais importantes acontecimentos da nação chamada Brasil. Não foi diferente com alguns clássicos da MPB pelo grito de “Anistia ampla, geral e irrestrita”.

Aprovada em agosto 1979, limitada e restrita para não punir os opressores, torturadores e frios assassinos, a Anistia balançou as estruturas da ditadura (1964-1985), que já sofria abalos com as passeatas estudantis de 1977, as greves dos operários do ABC Paulista, de 1978 a 1980, e a campanha contra a carestia no início dos anos 1980. Foi um grande impulso às lutas populares pelo fim da ditadura.

O Bêbado e a Equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco, torna-se o principal hino desse movimento com uma melodia marcante, quase uma toada, somada ao encantamento da sublime interpretação de Elis Regina. Quarenta anos depois, permanece no imaginário popular como o símbolo de um tempo de resistência, abnegação e generosidade.

Quem de lá para cá não cantarolou os versos “que sonha com a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu”… E Herbert de Sousa, o Betinho (1935-1997), irmão do brilhante cartunista Henfil (1944-1988), ambos vítimas da aids em transfusão de sangue por serem hemofílicos, revitalizaram o sonho de um Brasil mais justo e mais igual.

A canção foi além da denúncia ao arbítrio temporário. Permanece atual quando canta “que uma dor assim pungente / não há de ser inutilmente / a esperança dança na corda bamba de sombrinha”, porque “o show de todo artista tem que continuar”.

Show que nunca cessou de defender o sonho de liberdade e justiça para a construção de um País onde prevaleça o respeito e a dignidade humana. Sonho translúcido na também quarentona Sonho Meu, de Dona Ivone Lara (1922-2018) e Délcio Carvalho (1939-2013).

“Sonho meu / vai buscar quem mora longe / sonho meu”, canta a voz imponente de Dona Ivone. A primeira mulher a fazer parte da ala de compositores de uma escola de samba, na Império Serrano, em 1965, mostra o talento e a força de uma das maiores sambistas do país.

“Vai buscar quem mora longe… Vai mostrar esta saudade 
Sonho meu 
Com a sua liberdade
Sonho meu
No meu céu a estrela guia se perdeu 
E a madrugada fria só me traz melancolia,
Sonho meu”

Gonzaguinha (1945-1991) também transmite o seu grito de liberdade de 40 anos atrás. Tangencia a questão da Anistia, mas a sua poesia cantada diz “chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder / o que não dá mais pra ocultar / e eu não quero mais calar”.

Extremamente atual. “Já que no brilho desse olhar foi traidor e entregou o que você tentou conter”. O grande compositor carioca canta ainda “que essa vida entre assim como se fosse o sol desvirginando a madrugada… explode coração”. Tudo o que o Brasil precisa em 2019 é explodir em amor ao próximo, emoção pelo país e candura para superar o pesadelo Jair Bolsonaro.

Duas outras canções não poderiam ficar de fora. A versão feita por Gilberto Gil de No Woman no Cry (Não Chore Mais), de Bob Marley, vem ao encontro dos anseios de pôr fim à ditadura e trazer de volta tantas brasileiras e brasileiros forçados a viver no exterior.

Em 1979, Gil cantava ter:

“amigos presos, amigos sumindo assim
pra nunca mais
nas recordações retratos de um mal em si 
melhor é deixar pra trás
não, não chore mais… Observando hipócritas 
disfarçados rondando ao redor”.

Já Feijoada Completa, de Chico Buarque, pedia para “botar água no feijão” para receber os amigos que há muito não se viam “pra conversar”. O Brasil recebia de braços abertos grandes personagens de nossa história como Miguel Arraes (1916-2005), Leonel Brizola (1922-2004), Luiz Carlos Prestes (1898-1990) e João Amazonas (1912-2002), entre muitos outros.

O samba rasgado, divulgado em fins de 1978 foi sucesso no ano da Anistia.

“Mulher, você vai gostar 
Tô levando uns amigos pra conversar
Eles vão com uma fome que nem me contem 
Eles vão com uma sede de anteontem… 
e vamos botar água no feijão”.

São cinco canções antológicas que reforçam a necessidade de entender a cultura como essencial para a vida de um povo e de uma nação e o compromisso da MPB com o País, a democracia, a liberdade e a justiça para o Brasil recuperar o tempo da delicadeza e da poesia.


Texto em português do Brasil


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