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Sábado, Julho 20, 2024

Haverá futuro nas crises? (Medidas)

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

A propósito da crise financeira que ameaça estender-se e repetir a desestabilização sistémica global que em 2008, um ano depois de ter rebentado a bolha do subprime norte-americano, começou a varrer o sistema financeiro mundial, importa recordar que é cada vez maior o número de economistas que apontam a necessidade de novas formas de abordagem para o conhecido ciclo expansão – recessão – expansão que as economias mais desenvolvidas se habituaram a registar nos últimos anos.

As interligações e interdependências entre os actores de um sistema financeiro fortemente dependente do dólar norte-americano rapidamente produziram novas vítimas e depois do episódio que levou ao desaparecimento do Credit Suisse foi a vez da queda em bolsa do Deutsche Bank espalhar o alarme na banca europeia, reacendendo os riscos de grandes estragos na economia mundial, mesmo após a confirmação que a desvalorização terá resultado, no essencial, de uma manobra meramente especulativa sobre os CDS (seguros contra o incumprimento), que fez voar 1,6 mil milhões de euros à capitalização bolsista do banco.

Se atentarmos na realidade, ou seja que a actual conjuntura é dominada pelo efeito conjugado de uma conjuntura de guerra com a subida da inflação e das taxas de juro (com que os bancos centrais tentam debelar a inflação), que degradam ainda mais o baixo nível de rendimentos das famílias e aumentam as dificuldades de financiamento da economia, arrastando os bancos que concederam grandes volumes de crédito de alto risco já distribuído pelos fundos de investimento, de pensões e de especulação (hedge funds) e que já estará a atingir os bancos comerciais junto dos quais estes se financiaram, constata-se que a política monetária decidida pelos bancos centrais mais não vai fazer que ampliar os efeitos da crise em formação.

A crescente financeirização da economia mundial, que determinou a concentração dos meios financeiros em opções de natureza especulativa ao invés de colmatar as indispensáveis necessidades de investimento produtivo, traduz-se numa situação de escassez de meios de investimento que deveria justificar de per si a necessidade de uma nova política monetária, não orientada para favorecer os interesses do sector financeiro, mas sim para o do equilíbrio do tecido económico. E ela existe e remonta a trabalhos de investigação que precederam a crise sistémica de 2008, tendo sido formulada por autores como Richard C Cook – estudioso e consultor de empresas de nacionalidade norte-americana, licenciado na Universidade William and Mary (uma das universidades públicas mais prestigiadas nos EUA), desempenhou funções na Food and Drug Administration, na NASA (onde esteve envolvido na denúncia dos defeitos que culminaram com o desastre do vaivém Chalenger) e no Departamento do Tesouro dos EUA, abandonou funções governamentais em Janeiro de 2007 passando a desenvolver uma actividade de escritor, orador e consultor em matérias de administração pública, mudança organizacional e resolução de conflitos – em defesa do conceito do crédito como bem público. Já então Richard C. Cook, denunciava uma era de desregulamentação onde se sobrevalorizam os “mercados” e não os “governos” como a via adequada para a tomada de decisões económicas e questionava o dogma da qualidade e da bondade dos referidos “mercados” perante a estagnação dos rendimentos do trabalho e o rápido controlo da riqueza pelos mais ricos, a degradação da classe média e o crescimento da pobreza, o desaparecimento das indústrias de base, o regular rebentamento de bolhas especulativas, a inflação, a persistente valorização de acções reconhecidamente frágeis, o financiamento das guerras mediante recurso a dívida externa e o domínio dos mercados de capitais por fundos predadores, deixando bem clara a pertinente dúvida de porquê é que o “mercado” estava a prejudicar tanto a maioria enquanto enriquecia uma minoria?

No topo de tudo isto está o crescimento exponencial da dívida (pública e privada) que deixa os estados, as empresas e as famílias endividadas como nunca. Os únicos não endividados são as instituições financeiras a quem toda a gente em geral deve dinheiro. Se isto é o que se designa por “o mercado”, então o principal problema reside numa escassez crónica de meios monetários (liquidez) e esta é consequência da actuação do sistema financeiro, que a coberto dos bancos centrais, tem vindo a criar uma situação que torna toda a gente dependente do crédito.

Se este fosse utilizado enquanto instrumento de desenvolvimento – gerador de mais bens e serviços e da consequente melhoria das remunerações salariais – e desnecessário enquanto meio para suprir necessidades de consumo, nem as famílias ou os Estados estariam na situação de sobreendividamento que hoje conhecemos.

Na prática o que Cook defende é o abandono de uma política orientada em benefício de uma minoria, mas em prejuízo da vasta maioria, algo que pragmaticamente parece impossível de alcançar de forma rápida e sem enorme resistência, e pior agora quando corremos o sério risco de vir a ter que enfrentar uma nova crise económica, na sequência das que as economias têm registado nos últimos tempos. Nada, porém, que anule a evidência da necessidade de uma mudança nas políticas que nos conduziram até aqui, mas esperar isso dos políticos que tão diligentemente têm defendido este estado das coisas e que terão sido eleitos com o “alto patrocínio” da grande finança internacional parece absolutamente impossível.

Muitos continuaremos a defender princípios basilares como os do “governo do povo para o povo” e os benefícios da democracia, mas aqueles que verdadeiramente determinam o futuro que nos espera estarão já muito mais preocupados a arquitectar as formas através das quais se perpetuarão… especialmente se, a par do modelo da captura privada do crédito, se mantiver um modelo de financiamento dos orçamentos públicos fortemente sustentado na emissão de dívida e a aversão a um real debate da situação e das alternativas possíveis, com os poderes estabelecidos – sob conselho e orientação do neoliberalismo mais dogmático – a recusarem-se a aceitar que soluções do tipo austeritário (como as aplicadas pela troika em 2012) mais não conseguem que agravar o problema e sem cuidar de explicar aos contribuintes que os credores da dívida pública são aquele mesmo sistema financeiro que a pretexto da relevância da sua actuação na economia se arrogam o privilégio de não poderem em caso algum sofrer as naturais consequências da má gestão praticada (e inúmeros são os casos em que pior que uma gestão arriscada houve lugar a verdadeira gestão danosa e fraudulenta), recusam qualquer debate, em nome da exclusiva defesa dos interesses dos credores, e impõem a aplicação de sucessivos pacotes de austeridade que no limite não conseguirão satisfazer esses mesmos credores.

 

Haverá futuro nas crises? (Enquadramento)

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