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João de Sousa

Sábado, Setembro 18, 2021

Irão, Portugal, diplomacia & terrorismo

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Se quisermos entender os principais dramas nacionais com que o nosso regime democrático está confrontado, há que começar em Camarate e desenrolar o novelo de negócios e contrapartidas em que se enredou o nosso país, nos quais a falência do BES é uma das consequências.

  1. O atentado de Paris

Começou dia 27, em Antuérpia, o julgamento do grupo responsável pelo atentado falhado de 30 de junho de 2018, na região parisiense, grupo encimado pelo então conselheiro político da Embaixada da República Islâmica do Irão em Viena de Áustria, Assadollah Assadi, com o nome operacional de ‘Daniel’, grupo do qual três outros iranianos foram também presos.

O atentado viria a ser abortado em Bruxelas, quando o veículo que transportava a bomba foi interceptado, tendo o diplomata iraniano – que foi filmado a fornecer a bomba num Pizza Hut no Luxemburgo – sido por sua vez preso antes ainda de chegar à fronteira com a Áustria e poder assim usufruir de imunidade diplomática.

A cronologia da preparação do atentado, acompanhada por um dossier fotográfico, foi divulgada a semana passada pela televisão estatal belga em língua flamenga. Só foi possível abortar o atentado graças ao empenho e coordenação das autoridades antiterroristas de vários países europeus.

A prisão do diplomata e membro da Divisão de Segurança Interna do Ministério da Informação e Segurança da República Islâmica do Irão levou as autoridades europeias, meses mais tarde, em janeiro de 2019, a incluir na lista das organizações terroristas essa divisão desse Ministério, juntamente com o então comandante da força Jerusalém dos Guardas Islâmicos, Qasem Soleimani.

Como assinalei na altura, a República Islâmica do Irão passou a ser assim o único país do mundo com instituições estatais e dirigentes oficialmente designados pela União Europeia como terroristas, num movimento que mostra, por um lado, que a luta antiterrorista se profissionaliza e se torna independente do negócio político e por outro a total dissintonia entre as autoridades responsáveis pela luta antiterrorista e os responsáveis políticos que persistem no apaziguamento do fascismo islâmico.





A captura em flagrante deste operacional diplomata/terrorista iraniano em solo europeu e a neutralização do atentado que comandava não foi o único dissabor sofrido pelas autoridades iranianas. Qasem Soleimani, o líder da mais importante organização terrorista do mundo, os guardas revolucionários islâmicos, foi eliminado um ano depois no Iraque e, já este Verão, o número 2 da Al Qaeda iria também ser eliminado em Teerão, havendo notícias não confirmadas da morte – eventualmente por causas naturais, do número 1 da Al Qaeda que se fez constar que estaria no Afeganistão.

A revolução islâmica iraniana de 1979 trouxe ao mundo um novo tipo de terrorismo, utilizando o aparelho de Estado, fanático, atingindo multidões, e usando frequentemente instrumentos suicidas.

A utilização da máquina diplomática para as operações terroristas tem sido uma constante do regime iraniano, e talvez por isso a apertada vigilância a que foi submetido o diplomata/terrorista da Embaixada iraniana em Viena, mas a realidade é que até aqui, com algumas excepções, a política tem resultado, levando os interlocutores do Irão a ceder como forma de tentar evitar ser alvo de atentados ou a fim de obter a libertação de reféns, como se verificou na semana passada com a troca de uma refém australiana por três terroristas iranianos.

No dia 25, dois dias antes do início do julgamento do seu diplomata/terrorista, o regime iraniano fez saber que tinha transferido para o corredor da morte um académico de origem iraniana da VUB – a universidade pública de expressão flamenga em Bruxelas – que condenou há alguns anos sob a acusação de ‘espionagem para o sionismo’, processo típico da diplomacia iraniana para fazer chantagem internacional, neste caso, para tentar sabotar o julgamento do seu grupo terrorista na Bélgica.

 

  1. A bomba como forma de prosseguir a diplomacia por outros meios

O alvo terrorista das autoridades iranianas era a conferência anual do ‘Conselho Nacional da Resistência Iraniana’ (CNRI) – principal organização da oposição iraniana – onde se concentravam dezenas de milhares de expatriados iranianos vindos de todo o mundo bem como inúmeros apoiantes estrangeiros, vindos igualmente do mundo inteiro, incluindo centenas de políticos.

Eu, bem como vários outros portugueses, estive presente e fui, portanto, também alvo potencial do atentado. Aquilo que decorre do processo enviado a tribunal é que a célula terrorista trabalhava já no atentado há anos, tendo o seu líder feito viagens de reconhecimento ao local um ano antes do atentado.

Os três outros réus no processo tinham infiltrado o CNRI e trabalhavam com ‘Daniel’ desde a data da sua nomeação como diplomata em Viena, em 2014. Tinham dessa forma conseguido obter passes de entrada com os quais podiam tornear a segurança e ter mesmo acesso à zona VIP do recinto.

Provavelmente, o regime iraniano estaria na disposição de os deixar cair, fabricando, como é seu costume, uma história de ‘dissidência’ no CNRI que justificaria o acto de terror. Apesar de o atentado ter falhado, a República Islâmica – contra toda a evidência – continua a negar ser o seu autor mas, paradoxalmente, ou com a falta de vergonha que a caracteriza, sem deixar por isso de reconhecer a sua responsabilidade ao ameaçar a Europa de represálias caso insista em condenar o seu diplomata/terrorista.

Conselho Nacional da Resistência Iraniana (CNRI)

A secção externa dos guardas revolucionários islâmicos controla um grande número de milícias que nalguns casos se encontram no poder total ou parcialmente (Líbano, Iraque, Síria, Iémen) ou que têm uma importante presença no terreno (Afeganistão, Paquistão, Palestina ou Nigéria) e prolonga a sua presença de forma mais informal um pouco no mundo inteiro.

Os guardas islâmicos são uma estrutura dupla das forças policiais, diplomáticas, militares e de espionagem, num sistema de competências paralelas e por vezes rivais que sempre caracterizou a República Islâmica desde o seu nascimento, e que não impede que a concertação funcione eficazmente. Por exemplo, a aliança irano-russa para a ocupação da Síria foi conduzida por Soleimani, não pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, o que levou mesmo a algumas manifestações públicas de ciúme por parte do Ministro dos Negócios Estrangeiros. É aliás também esse procedimento que alimenta a fábula de facções moderadas e duras do regime.

Não existem regras rígidas na divisão de tarefas entre as várias entidades do polvo jihadista armado, controlado e financiado pelo regime. Na década de oitenta, o regime utilizou preferencialmente o Hezbollah libanês para atentados na Europa, mas na vaga de atentados dos últimos anos – que têm tido por alvo oponentes iranianos – a diplomacia iraniana tem estado directamente envolvida.

No caso dos atentados contra comunidades judaicas na Argentina dos anos noventa, tudo indica que a operação, comandada a partir das estruturas diplomáticas iranianas, foi executada por operacionais do Hezbollah libanês, que normalmente respondem perante os Guardas Islâmicos.

Para além de Israel, o alvo prioritário do regime iraniano é a sua oposição interna. A colocação de bombas é apenas a prossecução da diplomacia iraniana por outros meios, e esta passa pela compra de dirigentes na política ou na sociedade civil em todo o mundo, pela desinformação e pelas campanhas de diabolização, estas também frequentemente promovidas a partir das embaixadas.

A generalidade dos agentes do regime iraniano que circulam na Europa tem assim como prioridade a infiltração no CNRI, autopromovendo-se depois como ‘dissidentes’ e fazendo testemunhos efabulatórios sobre a realidade, que são depois utilizados para diabolizar a oposição.

Isso não impede que de vez em quando os agentes infiltrados sejam também utilizados para cometer actos terroristas como aquele que foi abortado em Paris e que sirvam depois para a ladainha de que se ‘tratou de disputas internas’.

Na minha vida política conheci bem todas estas situações, uma das quais, a organização e financiamento pela diplomacia iraniana, através da Embaixada iraniana de Bruxelas, de uma campanha de diabolização na comunicação social portuguesa contra mim.

 

  1. A fábula do cantinho à beira mar plantado

Portugal tem ocupado um papel importante na expansão da teocracia iraniana no mundo, e isso desde que em 1980 se converteu na principal placa giratória de abastecimento em armamento da teocracia iraniana.

Que essa é a realidade portuguesa é algo sobre o qual em Portugal se tem feito um sepulcral silêncio ou produzido um dilúvio de desinformação e que levou a que, mesmo eu, só o tenha entendido quando fui submetido a uma implacável perseguição nacional pela oligarquia político-mediático-financeira portuguesa, apenas por me ter mobilizado contra a teocracia iraniana.

Mesmo aqueles que sofreram na pele e que viram familiares assassinados, como foi o caso de Alexandre Patrício Gouveia, no importante e sincero testemunho que nos deixou recentemente, é tentado a inocentar pelo crime os responsáveis portugueses e os seus correligionários iranianos mandando para cima de terceiros as principais responsabilidades, fazendo confiança em testemunhos de operacionais terroristas que não têm credibilidade.

A ideia que temos sobre ‘este cantinho à beira mar plantado’ leva-nos por vezes a pensar que neste país de brandos costumes, ninguém poderia ser responsável pelo assassínio do primeiro-ministro e da sua comitiva em Camarate, em 1980, e que se o crime foi comprovadamente encoberto e as suas pistas desfeitas, isso foi só para que os nossos dirigentes ficassem bem na fotografia perante a comunidade internacional.

Mas os factos que estão sobre a mesa – alguns deles, bem assinalados agora por Alexandre Patrício Gouveia mas, na minha opinião, expostos magistralmente por Frederico Duarte Carvalho na sua obra ‘Camarate e as armas para o Irão’ – levam-nos a considerar algo de substancialmente diverso, que Camarate não foi o fim, mas apenas o princípio e que dos negócios controlados por militares se passou aos negócios controlados por civis.

Se quisermos entender os principais dramas nacionais com que o nosso regime democrático está confrontado, há que começar em Camarate e desenrolar o novelo de negócios e contrapartidas em que se enredou o nosso país, nos quais a falência do BES é uma das consequências.

O regime iraniano, através da sua diplomacia, está em julgamento na cidade de Antuérpia. A grande questão não é saber se vai ser considerado culpado, porque as provas são absolutamente esmagadoras, mas é antes saber se a Europa se dispõe por uma vez a respeitar a independência da investigação e da justiça ou se vai continuar a aceitar negociar reféns e contratos contra o fechar de olhos aos crimes da teocracia iraniana.

Disso depende em muito a libertação do povo iraniano do jugo opressor do regime totalitário, mas mais ainda da capacidade da Europa enfrentar positivamente os problemas que minam o seu sistema político.


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