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Quarta-feira, Julho 6, 2022

Irlanda do Norte: mais pobre com o Brexit?

NINM
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Colaboração do Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos do Humanismo e de Reflexão para a Paz (integrado na área de Ciência das Religiões da U.L.H.T.)

Dizia alguém há pouco tempo, em comentário de um texto publicado no Facebook, que a religião cristã nunca cometeu os excessos comparáveis aos crimes cometidos em nome de outras religiões.
A comentadora exaltou-se muito quando contraposta com algumas evidências – algumas tão perto da nossa cronologia e cujas cicatrizes não desapareceram, temendo-se mesmo que ressuscitem os confrontos que lhe deram origem à menor faúlha lançada sobre memórias e dores colectivas.

Aquele que conhecemos como O Conflito na Irlanda do Norte (que também é um conflito do Reino Unido) trata-se de um excelente exemplo do que dizemos, por ser um conflito sangrento, em espaço europeu, que durou muitos anos (a origem estará no século XIX) e que opôs, em lutas de morte, cristãos católicos e cristãos protestantes num espaço onde aparentemente a proximidade podia entender-se mais facilmente que as profundas diferenças que ali emergiram.

É que a Irlanda é uma nação historicamente de forte influência católica, enquanto que os ingleses seguem a corrente anglicana, originada de um cisma entre o monarca inglês e Roma.
”Bloody Sunday”Este “conflito”, que alguns de nós associamos às canções dos U2 (o tema “Bloody Sunday” foi imortalizado pela banda irlandesa U2 na canção com o mesmo nome) e a notícias cada vez mais espaçadas de um confronto fratricida, é é uma das guerras mais marcantes da história da Europa, dada a dimensão, duração e número de vítimas.

A origem de tudo isto estará em 1800, com o Act of Union (ato de união ou da unificação), posto em prática a 1 de janeiro de 1801 e que ‘uniu’ os reinos da Grã-Bretanha e da Irlanda, dando origem ao Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. A dominação inglesa, grande potência económica, militar e cultural, nunca foi aceite pelos irlandeses do norte. O auge da violência ocupou sobretudo toda a segunda metade do século XX e causou largas centenas de mortos – vítimas do fundamentalismo religioso, de cariz político-ideológico.

A população protestante (a maioria), era a favor de preservar os laços com a Grã-Bretanha. Do outro lado, a população católica (minoria), militava a favor da independência ou da integração da província na República da Irlanda, ao sul, país predominantemente católico. As partes em luta armada entraram numa espiral de violência que durou desde o final da década de 1960 até a assinatura do Acordo de Belfast . Aceso o conflito, mesmo depois do Acordo, foi necessário reformulá-lo. Surgiu assim o Acordo de Sexta-Feira Santa, a 10 de Abril de 1998, o qual estabeleceu as bases para um novo governo, em que católicos e protestantes compartilhassem o poder.

O domínio britânico não trouxe vantagens à população irlandesa, uma das mais pobres da Europa na época, onde as crises alimentares durante o século XIX eram comuns. A fome e a inexistência de esperança a qualquer nível, provocava a emigração em massa, especialmente para os Estados Unidos e Austrália.

A Irlanda, nação historicamente de forte influência católica, não aceitou os ingleses, seguidores da corrente anglicana, originada num cisma entre o monarca (inglês) Henrique VIII e a Igreja de Roma. (A Igreja da Inglaterra (em inglês: Church of England), também denominada Igreja Anglicana, é a igreja nacional e denominação cristã estabelecida oficialmente na Inglaterra. Fora da Inglaterra, a Igreja Anglicana é geralmente denominada como Igreja Episcopal, principalmente nos Estados Unidos da América e países da América Latina).
”Home Rule”No fim do século XIX, cresceu o movimento “Home Rule”: pelo direito da Irlanda, dentro da união, a ter o seu próprio parlamento e jurisdição plena sob assuntos internos (conquistado poucas semanas depois do início da Primeira Guerra Mundial). O descontentamento com a união, porém, aumenta e a Irlanda luta pela independência, conquistada em 1922 por meio de um conflito armado iniciado em 1919. Nascia assim o Estado Livre da Irlanda, por meio do Tratado anglo-irlandês de 1921. Este previa, porém, que cada um dos 32 condados do novo país pudessem exercer o livre direito de permanecerem unidos à Grã-Bretanha. Foi o que aconteceu com seis destes condados, equivalentes à região da Irlanda chamada Ulster (nordeste da ilha), onde parte significativa da população era protestante e tinha muito mais afinidades com os britânicos do que o restante dos irlandeses. O Ulster (com capital em Belfast) continuou ligado à Grã-Bretanha, situação que se mantém até hoje.

A Irlanda do Norte ainda é uma das regiões mais pobres da Grã-Bretanha, situação agravada pela divisão da população, que utiliza a religião como divisor fundamental: do lado católico ainda estão agrupados todos os que reivindicam a união do Ulster com a República da Irlanda, em especial o famoso movimento independentista Sinn Féin, e seu braço armado, o IRA (Exército Republicano Irlandês); do outro lado estão os unionistas ou orangistas, de orientação protestante – que lutam para preservar o status quo. As autoridades britânicas foram acusadas durante décadas de favorecer os irlandeses protestantes, dando importantes postos administrativos aos mesmos e favorecendo economicamente tal comunidade.

Apesar da relativa acalmia dos últimos anos, a tensão nunca se debelou. Pensa-se que o Brexit irá piorar a situação, pelo menos no que respeita às disparidades e dificuldades económicas.

Recorde-se que entre os episódios de violência mais extrema na região está o “Bloody Sunday” (Domingo Sangrento) de 30 de janeiro de 1972, onde 13 civis foram mortos pela ação repressiva da polícia britânica. Os mortos faziam parte de uma manifestação pacífica organizada pela Northern Ireland Civil Rights Association, em luta por direitos iguais entre católicos e protestantes na região.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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