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Terça-feira, Outubro 26, 2021

Israel-Sudão, não é desafio de futebol, é desafio à imaginação

Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

Sudão, Inglaterra, Egito, qual o denominador comum? Israel e/ou a Palestina?

Hoje em dia, a posição de Cartum em relação à questão palestiniana e o direito dos palestinianos estabelecerem o seu estado independente “permanecem e permanecerão firmes”, disse o chefe do conselho soberano do Sudão na passada terça-feira. É a declaração mais recente.

Abdel Fattah al-Burhan, líder do Conselho de Transição do Sudão, confirmou a sua presença na reunião com o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu no Uganda dia 3 de Fevereiro.

Burhan disse em comunicado que a responsabilidade de discutir as relações entre o Sudão e Israel e desenvolvê-las é das partes envolvidas. Parece enigmático e diplomático.

Esta reunião surpresa entre os dois líderes provocou polémica no Sudão, com o respetivo governo a dizer na terça-feira que não foi notificado com antecedência. Outras vozes disseram que a reunião de segunda-feira melhoraria a posição do Sudão em relação aos Estados Unidos e ajudaria Cartum a abandonar sua imagem de estado considerado à margem de tudo e de todos. Para Israel, a reunião com um estado africano de maioria muçulmana, dois dias depois que a Liga Árabe ter rejeitado o Negócio do Século para o Médio Médio do presidente Donald Trump e do genro Jared Kushner, é considerada um grande avanço diplomático. Para mim, esta interpretação é do domínio do fantástico ou da ficção cientifica.

Esta reunião foi a referida na minha crónica “O Sudão, Israel e Companhias Ldas”, de 5 de Fevereiro.

Netanyahu queria que o Sudão se junte ao clube “amigos de Israel” ou seja dos estados árabes sunitas. A Mossad, com a ajuda da Arábia Saudita, já o tinha tentado.

A história das relações entre Israel e o Sudão está cheia de factos, equilíbrios e desequilíbrios que foi passando por acontecimentos pouco gloriosos que incluem tráfico de armas e contrabando de pessoas, conspirações, transferências bancárias clandestinas e um relacionamento em grande parte secretíssimo, do qual de vez em quando transbordaram algumas informações oportunas.

Nos anos 30, o nacionalismo, corrente ideológica que já vinha dos tempos da 1ª Guerra Mundial, ressurgiu no Sudão. Os sudaneses instruídos queriam restringir o poder do governador geral e obter participação sudanesa nas deliberações do conselho. No entanto, qualquer mudança no governo exigia uma alteração no contrato de condomínio de 1899. Eram regentes do condomínio a Inglaterra e o Egipto. O dito acordo condominial alcançado em 1899, estabeleceu o domínio anglo-egípcio sobre o Sudão que passou a ser administrado por um governador-geral nomeado pelo Egito com o consentimento britânico. Na realidade, para grande repulsa dos nacionalistas egípcios e sudaneses, o Sudão foi efetivamente administrado como possessão imperial britânica.

Nem a Grã-Bretanha nem o Egito concordariam com uma modificação das regras do jogo. Além disso, os britânicos consideravam seu papel proteger os sudaneses da dominação egípcia. Os nacionalistas temiam que o resultado final do atrito entre as duas potências do condomínio pudesse ser a anexação do norte do Sudão pelo Egito e do sul do Sudão pelo Uganda e Quénia.

Embora tenham resolvido a maioria de suas diferenças no Tratado de Aliança de 1936, que estabeleceu um cronograma para o fim da ocupação militar britânica, a Grã-Bretanha e o Egito não concordaram com o status futuro do Sudão. Nacionalistas e líderes religiosos estavam divididos sobre a questão de o Sudão solicitar a independência ou a união com o Egito. Formaram-se alas rivais do movimento nacionalista. Mais tarde, nacionalistas radicais e o Khatmiyyah criaram o Ashigga, mais tarde renomeado Partido Nacional Sindicalista (NUP), para promover a causa da unificação sudanesa-egípcia. Os moderados favoreceram a independência sudanesa em cooperação com a Grã-Bretanha e, juntamente com os Ansar, estabeleceram o Partido Umma.

Finalmente nos anos 50 o Sudão negociou a independência do tal condomínio, ou seja do governo conjunto britânico e egípcio.

O Partido Nacional Umma, um partido político centrista islâmico moderado liderado por Sadiq al-Mahdi, que serviu depois duas vezes como primeiro-ministro do Sudão, e foi removida pelas duas vezes por golpes militares,temia naquela época que o presidente egípcio Gamal Abdul Nasser, com a sua ideologia pan-árabe, e suas ambições de liderança da África e do mundo árabe, tentasse bloquear a independência do Sudão, em coordenação com nacionalistas sudaneses que preferiam a unificação com o Egito.

Os representantes do Umma, nos anos cinquenta, encontraram-se secretamente em Londres com diplomatas israelitas. Os emissários sudaneses procuraram a assistência diplomática e, se possível, económica de Israel, um inimigo jurado do Egito.

Em Janeiro de 1956, o Sudão conquistou finalmente a independência e foi reconhecido pela Inglaterra e pelo Egito. (Em 2011 dá-se a separação entre o Sudão de Norte e o Sudão do Sul.) Naquela época os encontros secretos com Israel continuaram através da Mossad. E Londres mantém relações com membros do Partido Nacional Umma sudanês.

Israel fornece apoio financeiro ao partido para impedir que o Sudão se junte à Liga Árabe. Nissim Gaon, nascido no Sudão, um empresário internacional israelita com passaporte suíço, ajudou às boas relações entre Israel e o Sudão, sobretudo na área económica, o que permitiu a Israel investir no turismo e hotelaria.

Um golpe militar liderado pelo general Ibrahim Aboud em 17 de novembro de 1958 suspendeu a constituição e proibiu os partidos políticos e acabou com a amizade e os negócios entre Cartum e Telavive. A oposição finalmente conseguiu derrubar o regime militar através de uma revolta popular em outubro de 1964. O general I.Aboud renunciou e dissolveu o Conselho Superior das Forças Armadas. Um governo provisório foi formado para servir sob a constituição provisória de 1956.Mais tarde o Sudão ajudou mesmo, no limite das suas parcas posses o Egito na Guerra dos seis dias em Junho de 1967, e durante a década seguinte não houve, ao que se sabe, encontros bilaterais com Israel.

Recomeçaram agora.

Parece-lhe um filme de aventuras?

É-o.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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