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João de Sousa

Quarta-feira, Maio 25, 2022

Criar talvez seja dar pés e mãos a sonhos

 

Entrevista a João David Zilhão

João David Zilhão em discurso directo.

Jornal Tornado: Há alguma mensagem que queres passar com os teus desenhos?

João David: Dos desenhos em si não há mensagem. O que há não se vê nem se toca. Sente-se. Os desenhos têm a sua própria vida, são orgânicos. Cada um verá o que quiser, entenderá na língua que aprendeu a imaginar. Assim que os acabo tornam-se independentes, soltam-se. Já não são meus, e ao “ninguém” pertencerão. Se um dia surgir uma mensagem que ela seja esta palavra: exaltação!

Mas há então uma mensagem externa ao que passas para o papel?

Há, sim, uma mensagem que é para todos deste mundo: é possível! Os desenhos são um produto do esforço, da circunstância, do desalento, da coragem, da frustração, da anarquia. Surgiram da necessidade – essa é a mensagem. 

“Sou tão banal como uma folha (a da copa) de árvore que se desprende no Outono, que renasce na Primavera, que se queima no Verão e hiberna no Inverno”Tudo começou por uma necessidade?

Comecei há três anos, em Buenos Aires, a satisfazer essa necessidade. E ela era a da sobrevivência. Iniciei o périplo artístico através de desenhos que fazia em folhas de papel recortadas do tamanho de um marcador de livros. E foi com eles que saí à rua para comprar o pão. Depois fui crescendo, aprendendo, esticando as folhas. Atrevi-me a pensar que era possível. Tive ajuda, claro! 

Recorda-nos essas ajudas.

Lembro-me quando uma amiga me ofereceu um conjunto de lápis de cor, tinha eu 28 anos… Depois “As Cartas a Theo” que me ofereceu um outro amigo. Já tinha as bases e agora só dependia de mim. Praticar, praticar, praticar. Pintar, pintar, pintar. E este é o caminho para o progresso artístico. Depois, claro, é preciso ter tempo e espaço e comida. E coisas dessas que se conseguem à custa de um esforço que Vincent Van Gogh, Henry Miller, Ariel Bistagnino ou Isadora Duncan, entre outros, nos deram a conhecer. Também ajudou o facto de ter sido despedido de vários trabalhos, por incompetência. 

Estás a ser irónico?

Não, não, foi também esse empurrão externo que me obrigou a pendurar nos desenhos o destino em que o caos me tinha atirado. E, claro, a liberdade artística que a cidade de Buenos Aires permite ao dispor de dezenas de feiras de acesso livre, permitindo a todos aqueles que professam a criação vender o seu trabalho. Para todos os que pensam que o talento é um gene particular que nasce em alguns de nós, acreditem, não é! Está em todos e está à deriva.

“O Mundo obriga-nos a usar os instintos”

 

O ponto de partida da tua obra foi Buenos Aires, mas já viajaste por uma dezena de países, de Africa à América, com a mochila às costas. O mundo deu-te o quê?

“Tenho mais respeito pela ceifa do que por qualquer um dos meus desenhos. Mas sinto-me um agro-criador (ainda que me seja mais fácil comprar alface do que semeá-la)”

Não me deu nada. Bom… deu, claro!… Deu muita incerteza, espanto, fome, cansaço, êxtases, tristezas, enfim… todas essas coisas que, no fundo são toda a natureza pertencente à vida. Fez-me sim prostrar-me aos seus encantos e aos seus desencantos. No fundo, o que procurava eram as pessoas e as suas vidas. E a natureza quando delas queria fugir. O que aconteceu é que cresci exponencialmente. Cada fronteira que passava (que podia ser só um rio ou um ser) deu-me novos conhecimentos. Afinal o que o mundo nos dá é experiência. Obriga-nos a usar os instintos. 

Sentes-te mais rico?

Depois percebi que aprendi demasiado rápido, que também se pode viajar sentado, numa cadeira do sonho. Para mim, o mundo tal como é, continua a ser um mistério que nós humanos forçamos em desvendar. E ainda que me sinta um pouco maior do que era estou também mais vazio. Há tanta e com cada coisa neste mundo… E os desenhos também são desse mundo, pertencem a esse mistério.

“Sem criação não há liberdade”

Há momentos na tua criação, ou fora dela, em que te sentes aprisionado?

“Os desenhos são um produto do esforço, da circunstância, do desalento, da coragem, da frustração, da anarquia. Surgiram da necessidade – essa é a mensagem”

Não há um “fora da criação”. Ela é omnipresente, entranha-se diariamente no quotidiano. Digo-te que ela é como ter um nó górdio, que continuamente se desenvolve, à volta do pescoço. Pois sem criação não há liberdade. Sem embargo, na criação encontramos muitas amarras, barreiras, entraves, pontes partidas. Sobretudo quando nos falta a matéria-prima. E quando nos falta “o tempo”. Comparando, suponho que seja como a composição musical. Quantos elos melódicos não ficaram suspensos no abismo? Quanta criação inacabada? Agora que penso, talvez tenha sido o vento musical que me embala, quando no barco da criação vivo, que me corta as amarras. Falo de Jordi Savall e do seu grupo musical. Todos eles me protegeram da intempérie; empurraram a criação para uma constante viagem amena e de deleite. Os desenhos são parte dessa música; são também um instrumento que toca uma composição barroca da nossa época.

Onde te achas feliz e o que te faz sentir sempre livre?

Em qualquer lugar onde haja enlevo. Bem, feliz não sou! Mais despreocupado, diria. Livre tão pouco, só preciso de menos coisas que os demais. Ou de outras coisas. Gosto da contemplação, do olhar. Sou viciado no porvir e nos sonhos. Mas não há nada mais agradável na vida que a frescura de um manjar e as delícias de um bom vinho. Ou de ouvir bater uma mão amiga no coração. Sou um pouco como Sancho Pancha: quando como logo durmo. E aí a Paz é imensa. Conheço uma só liberdade e ela é conceito. Essa outra (qual outra?) abraço-a somente na criação e mesmo assim fragmentada. Os desenhos são também essa felicidade. E dão-me alguma “daquela” liberdade.  

Pintor? Criador? Artista? Desenhista? Como te descreves?

Todas as coisas, como todos neste mundo. Um ser. Um elemento. Um átomo. Um parasita. E um degenerado. Mas não posso dar-me a conhecer, não me conheço bem para os outros. Mas digo-te que no fundo sou tão banal como uma folha (a da copa) de árvore que se desprende no Outono, que renasce na Primavera, que se queima no Verão e hiberna no Inverno. 

E também poeta…

No fundo sou como os desenhos: estranho, de difícil interpretação, belo e feio, louco, pacífico, musical. Um nefelibata. Mas há esta diferença: eles, os desenhos, são o resultado de uma paciência provocada por um ser impaciente.

“Passar uma grande borracha cósmica sobre a humanidade”

Por fim, pergunto-te o que é um criador no mundo?

Criar é transformar o que está à nossa volta. Tenho mais respeito pela ceifa do que por qualquer um dos meus desenhos. Mas sinto-me um agro-criador (ainda que me seja mais fácil comprar alface do que semeá-la). Infelizmente, nesta época o que é necessário é aniquilar ou extinguir e não criar. É preciso dizer a verdade qualquer que ela seja, especialmente sobre nós mesmos. O Bakunin dizia que há tanta voluptuosidade na destruição como na criação. Para mim, é preciso acender a vela do prazer e começar a destruir as estacas que apoiam o abismo da nossa época. 

Que abismo é esse?

O que é preciso é apagar o mal no mundo. Mas temo que para isso tenhamos que passar uma grande borracha cósmica sobre a humanidade e desaparecer num faz de conta para sentirmos a fragilidade que somos; talvez seja essa a grande criação que precisamos. Talvez, hoje, ser um criador no mundo seja não fazer absolutamente nada, mas não deixar os outros fazer as coisas por nós. É tudo uma grande confusão porque no fundo somos todos iguais, todos feitos da mesma matéria e ainda feitos da mesma moral. O que há no mundo é medo, medo de nós mesmos (medo de perder a meia).

Perguntei o que é. Agora pergunto-te o que quer ser um criador no mundo?

É uma pergunta traiçoeira… Quantos “criadores do mundo” não criaram maldade e destruição? E o que são eles para nós? Eu não quero ser um criador no mundo à custa dos desenhos. Prefiro que eles sejam uma criação minha, para a minha vida e que sejam ponte para outras criações futuras mais, humm… ousadas! Por agora, melhor tento desconstruir do que construir, embora ambas sejam fruto da tal voluptuosidade. É que os desenhos são uma destruição do passado e por fim uma construção do presente. Amanhã serão talvez essa tal criação que não chegue a conhecer. Quem sabe o mundo pode começar a girar ao contrário e a luz ter mais velocidade que a que se conhece. Talvez sinta agora que criar seja dar pés e mãos a sonhos que vão desbravar novos trilhos. Mas uma coisa sei:

Para ser um criador no mundo basta nascer.

 

João David

«Máscaras» de um artista acidental e impaciente

Depois de expor em Buenos Aires e em Lisboa, as “Máscaras” são a sua mais recente mostra que inaugura este fim-de-semana, em Torres Novas. Até 12 de Fevereiro próximo

Artigo sobre a exposição, com imagens das obras do artista

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