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João de Sousa

Quinta-feira, Janeiro 20, 2022

Josh Hutcherson: “Vivemos numa sociedade dominada pelas redes sociais”

JoshHutcherson

Entrevista com Josh Hutcherson

Como descreveria toda esta experiência, agora que estamos a chegar ao final da saga?

É interessante, porque os dois primeiros filmes foram muito exigentes fisicamente, com várias cenas de acção, mas neste filme, como a personagem fica psicologicamente muito abalada, deu-me outro tipo de desafios, igualmente com bastante acção, mas com uma dimensão psicológica mais intensa.

O que diria se, há alguns anos, alguém lhe dissesse que iria ser um dos protagonistas de uma das maiores franchises de sempre?

Diria que estavam a gozar comigo. Mas quando li os livros e percebi que o Gray Ross iria dirigir os primeiros filmes, que a Jennifer iria estar presente, percebi que seria algo sério em que queria participar.

Há muito fascínio e histeria em seu redor. Como reage à fama? É algo que já lida com naturalidade?

Não, isso não é normal. É claro que há partes com as quais nos podemos relacionar, podemos aproveitar de uma forma saudável. Mas todo o outro lado das pessoas acharem que podem querer saber tudo sobre a nossa vida não é justo. É um circo, com o qual nunca poderei me habituar. Uma loucura! Não sei como descrever. É estranho mas ao mesmo tempo é algo bonito, pois estas pessoas criam laços connosco, com o nosso trabalho, com os nossos filmes.

Já vimos adolescentes pendurados com o telemóvel ao alto e um ar de delírio, só para poderem tentar tirar uma foto desfocada de si…

(risos) Pois, ficam excitadas só por nos verem, por poderem tirar uma fotografia. E frequentemente choram. Veja bem, perceber que temos um efeito como esse nas pessoas é incrível; fazer alguém feliz apenas por dizer ‘olá’ é muito poderoso. Mas também é algo intimidante e intenso, porque é algo que nos persegue por todo o lado.

Como reage ao ver o efeito que a sua cara tem nestes adolescentes?

É a minha cara, não posso mudá-la. Às vezes gostaria de poder viver uma vida normal e isso não é possível.

Mas não que esteja arrependido, presumo (risos)…

Não, não, não… Percebo que faz parte do trabalho. Não trocaria isto por nada. Dou apenas graças a Deus que as coisas me estejam a correr tão bem no meu trabalho como actor.

Isso significa que não é um utilizador de redes sociais?

Não, apenas uso o meu twitter para aspectos publicitários relacionados com o meu trabalho. Do ponto de vista pessoal não. Aliás, odeio como hoje me dias as pessoas comunicam. Mas não me compreenda mal. Acho que o twitter e o facebook são excelentes ferramentas para dar voz a quem não tem uma voz. Só que isso é perigoso. Há países que passam por crises graves e as pessoas podem partilhar as suas histórias, o que é óptimo. Só que muita gente também usa também as redes sociais para coisas negativas, como para fazer bullying que é algo que sou totalmente contra. De resto foi algo que experienciei eu próprio com amigos meus. Apesar de tornar o mundo mais ligado, acaba por desligar mais as pessoas umas das outras.

É verdade que também sofreu com problemas de bullying?

Digamos que tenho uma campanha activa contra essas pessoas que fazem bullying. Por acaso não andei no liceu, tive escola doméstica, mas estou familiarizado com as experiências que muitos rapazes e raparigas passam. Isso pode ser um inferno. Acho que chegou a hora das pessoas falarem.

Na verdade, o Josh não é apenas um actor, é também uma celebridade. Como avalia esse fascínio pelas celebridades que afinal de contas não é novo, existe desde os primórdios do cinema?

Sim, só que nessa altura não havia twitter… (risos) Mas quem me dera ter sido um actor, digamos, há trinta ou quarenta anos atrás. Ou mesmo no período clássico do cinema americano, nos anos 40 ou 30. Isto porque onde quer que vamos as pessoas irão sempre tirar uma foto com o seu smartphone, colocá-la online e dizer onde estamos, fazendo com que toda a gente apareça. Por vezes não consigo perceber como os paparazzi conseguem aparecer nos locais mais incríveis. Isso só porque alguém tirou uma foto e colocou no twitter a dizer que estava no aeroporto. Ou seja, nunca me posso perder porque alguém irá sempre encontrar-me. Fico doido com isso. Vivemos numa sociedade dominada pelas redes sociais.

Poderemos dizer que faz parte do trabalho?

Eu sei que faz parte do trabalho, mas não deveria ser assim. Comecei a trabalhar quando tinha apenas nove anos, porque tinha esse desejo. Só não percebo quando as pessoas me dizem que a perda da privacidade vem com o trabalho.

Fala disso como se fosse um enorme problema ser actor… Sabemos que não é assim, certo? Já agora, como foi que começou essa aventura de ser actor?

É verdade, não me posso queixar. Mas desde sempre me lembro que queria ser actor. Lembro-me de ver filmes e televisão e de dizer que queria fazer aquilo, queria representar, imitar o que os outros faziam. Aos nove anos já os meus pais me ajudaram a prosseguir esse sonho.

Felizmente agora pode retribuir todo esse investimento que fizeram em si…

Sim, o melhor que me pode acontecer hoje é mesmo ajudar aqueles que me ajudaram tanto quando estava a crescer, podendo comprar uma casa para a minha mãe ou um carro para o meu pai.

Mas o que acha que procurava ao querer representar?

Acho que as motivações das pessoas sempre me entusiasmaram. Desde criança que queria interagir com as pessoas mais velhas do que eu. E percebi ao ver televisão que existiam outras pessoas que faziam coisas incríveis. Quando via um actor recriar as emoções no ecrã. Senti que isso era algo excepcional. Talvez como actor poderia viver a vida de uma forma mais intensa.

É interessante o seu ponto de vista e defesa sobre os direitos de minorias.

Sim, é a minha defesa dos direitos dos gays e lésbicas, transexuais. Tenho recebido muito feedback. É algo que me diz muito respeito. Para mim, estar apaixonado por alguém é algo muito importante. E não é algo que escolhemos. Ser gay ou não é como escolher um tipo de vida. É algo absurdo porque não controlamos por quem nos sentimos atraídos.

Recentemente, a Ellen Page tornou pública a sua orientação sexual. Qual a sua opinião sobre quem decide tomar esta iniciativa?

Acho que a forma que ela escolheu para se revelar, de uma forma muito pública, dá-lha também muita segurança. É que, muitas vezes, há problemas contrários, de pessoas que se revelam na família e não são aceites e mesmo pessoas que acabam por se suicidar.

Não receia que a sua vida possa seguir um rumo diferente, como sucede a tantas estrelas após perderem a fama? Está seguro sobre aquilo que quer fazer e aquilo que nunca irá fazer em termos de decisões de vida?

Às vezes, muita gente perde o rumo daquilo que fazem, de onde vêm e de onde estão e a razão porque estão ali. Felizmente, tenho muitas pessoas boas ao meu redor, a minha família, amigos e até alguns casos de pessoas que seguram caminhos maus mas, por vezes, por não terem esse grupo de apoio em seu redor, acabam por ser vítimas da sua própria fama. Mas não é isso que eu quero fazer. Sou um actor porque quero contar histórias. E levo isso muito a sério: quero produzir, quero realizar. Por isso, estou focado no meu trabalho. Mas também divertir-me um pouco pelo caminho, porque não?.. (risos)

A verdade é que foi a franchise Hunger Games que criou esse estatuto. Acha que depois desta série, a sua vida poderá regressar à normalidade?

Espero que sim. Vamos ver o que se passa. É verdade que os fãs são muito envolvidos no projecto. Mas na verdade até espero que alguns me possam seguir para outros projectos que venha a fazer, apesar de desejar também que toda esta euforia possa também acalmar-se um pouco.

A sua tatuagem no pulso tem um significado especial?

Sim, é um desenho do signo balança. Tenho-a desde os dezasseis anos. As outras são estrelas, para a minha mãe, o meu irmão e o meu pai. No fundo, elementos relativos à minha família e àquilo que eu sou.

 

 

Paulo Portugal, em Cannes

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