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Segunda-feira, Agosto 15, 2022

Le Vénérable W. – Um filme de Barbet Schroeder que explica a perseguição aos ‘rohingya’

José M. Bastos
José M. Bastos
Crítico de cinema

A escrita deste texto foi-nos suscitada pela publicação no ‘TORNADO’, na passada quinta-feira, de uma nota da Amnistia Internacional sobre o massacre dos ‘rohingya’. A intenção ficou reforçada ao vermos no ‘PÚBLICO’ de ontem uma fotografia, a toda a largura da primeira página, remetendo para um artigo sobre o mesmo tema nas páginas interiores.A ‘limpeza étnica’ que está em curso na Birmânia (agora chamada de Myanmar) é um assunto que, há muitos meses, vem sendo referida na imprensa de todo o mundo e é preocupação de muitas organizações e instituições. A Prémio Nobel, Aung San Suu Kyi, actualmente detentora de altos cargos e tida como a verdadeira autoridade do país, não tem, não quer ou não pode ter mão nos militares que estão a executar esta acção de extermínio. O Papa Francisco que recentemente visitou o país abordou o tema com muitos rodeios e nunca proferiu a palavra ‘rohingya’.

A diplomacia e o receio de beliscar a religião budista a isso o terão obrigado. Queremos crer, no entanto, que muitos dos budistas birmaneses (porventura a maioria) estarão em oposição ao ‘desvio fundamentalista’ de que falamos mais adiante.

É por isso com alguma estranheza que constatamos não ter estreado em Portugal ‘Le Vénérable W.’ documentário de Barbet Schroeder que faz alguma luz sobre a origem desta situação. Exibido no Festival de Cannes/2017 pudémo-lo  ver na SEMINCI/Valladolid no passado mês de Outubro.

Tanto quanto sabemos, teve no mesmo mês no DocLisboa, a única exibição no nosso país.

Barbet Schroeder

Wirathu

Franco-suíco, nascido no Irão, Barbet Schroeder é homem com uma vasta carreira como actor,  realizador (‘Barfly’, ‘Reveses da Fortuna’, ‘Jovem Procura Companheira’,  ‘La Virgen de los Sicarios’, ‘Crimes Calculados’, …) mas também como produtor.  No início dos anos 60 do século passado fundou ‘Les Filmes du Losange’ que nos legou muitos dos filmes de Éric Rohmer, mas também de Rivette e de Godard. Tem também feito algumas incursões no documentário. É desse registo a ‘Trilogia do Mal’ composta por ‘General Idi Amin Dada’ (1974), ‘O Advogado do Terror’ de  2007 (sobre o advogado Jacques Verger, defensor de criminosos de guerra, nazis, ditadores e terroristas) e agora este ‘Le Vénerable W.’

Schroeder foi até à Birmânia entrevistar o monge budista Ashin Wirathu e alguns dos seus companheiros e mestres. Ficamos assim a conhecer o trajecto de uma figura que fazendo a sua formação no seio de uma religião que faz da tolerância e da não-violência traços fundamentais, se vai convertendo num líder nacionalista e racista fomentador de perseguições e atrocidades. O seu alvo são os ‘rohingya’, etnia muçulmana minoritária na Birmânia. Cerca de um milhão de pessoas que habitam no norte do país. Wirathu aponta-os como um povo de ladrões, usurpadores do património birmanês e que, ainda por cima… que se reproduzem como coelhos. Seguido por uma multidão de sempre crescente, Wirathu convence os seus apaniguados a perseguirem os ‘rohingya’, a saquearem e queimarem as suas aldeias e a matá-los ou, em alternativa, a obrigá-los a fugir para os países vizinhos. Mantendo sempre um ar seráfico Wirathu, a certo passo da entrevista, declara a sua admiração por Donald Trump que deseja ardentemente ver como presidente dos Estados Unidos…

Schroeder oferece-nos um documentário que do ponto de vista da realização cinematográfica não tem nada de extraordinário. É até bastante banal. Contudo, estamos na presença de um importante documento, com uma característica muito interessante: o realizador não faz juízos de valor sobre os intervenientes no filme. Dá um voto de confiança aos espectadores e confia na sua capacidade de julgamento.

Uma nota final para a narração em ‘voz off’ em que encontramos o próprio Barbet Schroeder e as actrizes Bulle Ogier e… Maria de Medeiros.

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