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Quinta-feira, Janeiro 27, 2022

Lembrar Notre-Dame no 1º de Maio

Arnaldo Xarim
Economista

Na semana em que voltámos a celebrar o dia de 1886 que marcou o início de uma greve geral pela conquista de melhores condições de trabalho e pela redução da jornada diária para oito horas, movimento que ficaria tristemente célebre pelos incidentes ocorridos em Chicago que levaram à prisão e morte de cinco sindicalistas.

Alguns anos volvidos a data continuou a ser marcada por manifestações reivindicando, ainda e sempre, a redução do horário de trabalho, até que em 1891 e na sequência de novos confrontos e mais mortos (desta vez no norte de França) a Internacional Socialista reunida em Bruxelas proclamou-a como dia internacional de reivindicação das condições laborais. O processo culminaria em 1919 quando o senado francês, acompanhando a decisão já tomada em 1890 pelo Congresso norte-americano, ratificou a jornada de oito horas e proclamou feriado o dia 1º de Maio daquele ano.

Tal como um pouco por todo o Mundo – a excepção são os EUA que até à data continuam a recusar o reconhecimento do 1º de Maio como o Dia do Trabalhador – também em Portugal se assistiram a manifestações promovidas pelas diferentes centrais sindicais nacionais, mas entre nós as atenções centraram-se especialmente numa greve marcada pelos trabalhadores da grande distribuição que reivindicam o encerramento das grandes superfícies aos Domingos e Feriados e que, como habitual, se saldou por um resultado pouco claro com o Sindicato promotor a referir uma grande adesão à greve e as empresas do sector a falarem em “normalidade”.

As polémicas que envolvem aquele sector de actividade não constituem novidade nem se resumem a questões de horários e dias de descanso, pois quando recentemente foi noticiado que os administradores das empresas do PSI20 ganham em média 52 vezes mais que os seus trabalhadores, mereceu destaque especial o facto do grupo Jerónimo Martins (dono da cadeia de supermercados Pingo Doce) manter a classificação da empresa com o maior fosso entre a remuneração do presidente executivo e a dos trabalhadores – uma diferença de 140 vezes o vencimento médio destes. Este desequilíbrio, que não tem paralelo em mais nenhuma empresa do PSI20, é de tal forma gritante que se a Jerónimo Martins fosse excluída dos cálculos a diferença de rendimentos cairia para 37 vezes, precisamente o diferencial que se regista no grupo concorrente, a Sonae.

Os problemas da desigualdade na distribuição do rendimento não são de agora nem um exclusivo nacional. Ainda há bem pouco tempo, quando na sequência do incêndio da catedral de Notre-Dame surgiram as primeiras notícias dos “fabulosos” donativos para a reconstrução do monumento, ficou clara a ambivalência e a ambiguidade da sociedade em que vivemos.

Num mundo onde se continua a morrer de fome, sede e falta de cuidados básicos de saúde, rapidamente apareceram mais de mil milhões de euros de donativos, com especial destaque para as generosas famílias Arnault, Pinault e Bettencourt-Meyers que doaram 200 milhões de euros, cada uma. Para os mais distraídos recorde-se que a família Arnault é a dona do grupo LVMH, a maior empresa de bens de luxo do mundo que conta na sua “carteira” marcas como a Louis Vuitton e a Dior, a família Pinault é a proprietária de marcas como a Château Latour, Yves-Saint-Laurent ou a Christie’s e a família Bettencourt-Meyers é apenas a dona da L’Oréal (cosméticos), tendo as duas primeiras doado cerca de 0,66%, e 0,25% da sua respectiva riqueza e a última 0,2% da capitalização bolsista da sua empresa. Para melhor contextualizarmos estes valores, é como se cada um dos menos favorecidos dos trabalhadores portugueses (aqueles que neste país recebem cerca de 8 mil euros por ano) doasse qualquer coisa como 50 euros para o esforço de reconstrução, acrescendo ainda que ao abrigo da lei francesa as empresas poderão deduzir 60% das suas despesas a favor do mecenato.

Sem pretender criticar a importância nem a intenção de apoiar a reconstrução de um monumento tão emblemático (para o país e para o mundo) como a catedral de Notre-Dame, estranha-se ainda o completo silêncio financeiro do Vaticano (o monumento afectado trata-se afinal de uma das igrejas católicas mais famosas), mesmo conhecendo-se o secretismo de que este sempre tem envolvido as suas questões financeiras.

Este episódio dos “donativos” milionários é apenas mais um resultado do cada vez menos aceitável e defensável modelo de distribuição da riqueza que há décadas tem assegurado um crescimento regular dos proventos dos mais ricos em detrimento de todos os outros.


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