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Sexta-feira, Outubro 7, 2022

O cartoon do António e o totalitarismo

Carlos de Matos Gomes
Carlos de Matos Gomes
Militar, investigador de história contemporânea, escritor com o pseudónimo Carlos Vale Ferraz

O cartoonista António (António Antunes) publicou uma ilustração no Expresso que mostra Donald Trump cego, de quipá judaica na cabeleira loira  a ser levado por um cão-guia do tipo salsicha com o rosto de Netanyahu.

A ilustração foi publicada no «New York Times» e provocou a ira do poderoso grupo de pressão israelita que domina a comunidade judaica americana e, através desta a administração dos EUA. Para combater a má imagem, os estrategas de comunicação dos senhores que dos arranha-céus de Nova Iorque comandam a distribuição da morte e a riqueza pelo mundo, o lobby judaico, utilizou a sequência mistificadora do costume, de confundir semitismo com judaísmo para justificar o sionismo e a política de violência do Estado de Israel, para apoiar o poder norte-americano no Médio Oriente e os fabulosos negócios do petróleo e do armamento que ali se fazem às custas do dito “anti-semitismo”, da defesa da civilização ocidental (de matriz cristã e anti-judaica, diga-se).

Este tipo, Netanyahu, é semita? Por ser descendente de hebreus? Também os palestinianos o são, Arafat, por exemplo. E os árabes, os “nossos” recentes sócios da Arábia Saudita no petróleo e armamentos, e os fenícios que nos ensinaram a navegar, e os sírios, que bombardeamos. E vários povos originários da Mesopotâmia. E até da Etiópia. Por aqui, por estes lados da Península Ibérica, existem celtas, iberos, godos… mas também há descendentes de semitas no Alentejo e na Andaluzia e ninguém passou procuração a estes tipos do cartoon, o salsicha Netanyahu e o cego Trump para se sentirem ofendidos com o castigo do António.  Se enfiam a carapuça é porque ela se lhes ajusta.

O anti-semitismo é uma forma de racismo que nunca teve expressão significativa na Europa. O racismo na Europa e, mais ainda, nos Estados Unidos, dirigiu-se principalmente contra os povos ditos selvagens, negros em particular e contra comunidades étnicas como os ciganos. As comunidades semitas que permaneceram nas suas regiões de origem, o Médio Oriente em geral, independentemente das religiões que foram adotando, não sofreram ataques por razões étnicas, mas religiosas e económicas. Semitas de religião judaica, cristã ou islâmica conviveram e nunca foram atacados por serem semitas. Os cristãos europeus atacaram semitas árabes nas cruzadas para ocuparem o ponto estratégico da Palestina, na rota do comércio com o Oriente, a pretexto da defesa dos “lugares santos” de Jerusalém e atacaram semitas islamizados e não semitas judaizados.

Na Europa quem foi perseguido foi o “judeu” – o praticante de uma religião que matara o deus dos cristãos, a religião dominante na Europa e que, por se ter dispensado do pecado da usura, enriquecia com a agiotagem, a especulação e os juros, um grupo fechado sobre si, fossem sefarditas ou ashknazes, estabelecidos no Oeste ou no Leste da Europa. Os pogrom, onde se pode incluir a Inquisição, nunca foram anti-semitas (racistas), mas anti-judaicos (religiosos e económicos). O mesmo para o holocausto.

A acusação de anti-semitismo pretende evitar a crítica ao sionismo. Ora, o sionismo é uma doutrina criada pela comunidade judaica de Viena e que, em resumo, se opõe à partilha de territórios e à convivência entre povos e comunidades. O sionismo é um racismo, ao considerar os semitas judaizados como um Povo Eleito! Eleito por quem? Pelo deus deles! E, sendo o Povo Eleito pelo seu Deus, Jeová, tem direito a uma Terra Prometida. Prometida por quem, pelo seu Deus. Pelo Deus dos Judeus e não pelo Deus (pelos deuses) dos outros semitas, nem pela Trindade Cristã, nem pelo Alá dos muçulmanos. O sionismo é um tribalismo. Um grupo reunido à volta de um totem numa terra de onde exclui e elimina os adoradores de outros deuses. Ser anti-sionista é ser anti-tribalista.

O Estado de Israel foi uma cedência dos vencedores da II Guerra Mundial aos sionistas, que não encontraram uma solução melhor (esteve prevista a instalação em Angola das comunidades judaicas destroçadas pelo holocausto) para resolverem o problema sobre o que fazer com os judeus pobres sobreviventes, de modo a estes não atrapalharem a reconstrução europeia e não serem um empecilho que recordasse velhos ódios. Ao fim e ao cabo uma solução que permitiu à velha Rússia livrar-se dos seus sempre indesejados judeus e que a conta fosse paga pelos judeus ricos dos Estados Unidos. Esta solução assumiu o sionismo como cimento ideológico, mas um Estado baseado em critérios de pureza da fé é um estado teocrático, é um Estado, uma criação da sociedade, em que o poder é exercido em nome dos interesses do grupo étnica que adora um mesmo Deus e obedece a certas práticas de cariz esotérico, incluindo hábitos alimentares, sexuais e ritos de integração.

Ser contra o sionismo – o programa político de criação de um estado teocrático e totalitário baseado na religião judaica no espaço comum dos povos semitas de religião judaica, cristã e islâmica, a Palestina – não é ser anti-semita, é ser a favor da convivência de semitas, como é ser entre a convivência na Europa de iberos, gauleses, vândalos, celtas, alanos, romanos, eslavos…

Tudo isto é um bêabá da história das civilizações europeias, a matriz da cultural dos Estados Unidos. Que Trump e a oligarquia israelita de Netanyahu queiram confundir quem os ouve e armar-se em vítimas é revelador da ausência de valores destas criaturas. E até da velha sabedoria judaica que garante que quem engana o peixe não é o pescador nem a vara, mas a minhoca. Ora eles são más minhocas. E que, se o silêncio é recomendável aos sábios, quanto mais aos tolos. E eles são tolos.

São tolos, porque o êxito da sua actual violência, terá o mau fim que a longo prazo o princípio dos fins justificarem os meios sempre tem, que o totalitarismo sempre acaba por ter. E é de práticas totalitárias que o cartoon de António acusa os dois retratados.


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