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Segunda-feira, Agosto 2, 2021

Luandino Vieira

Helena Pato
Antifascistas da Resistência

(N. 1935)

Nascido em Portugal, Luandino Vieira fez-se angolano pela sua participação no Movimento de Libertação Nacional de Angola. Durante a guerra colonial, combateu nas fileiras do MPLA, contribuindo para a criação da República Popular de Angola. Em 1961 foi condenado a 14 anos de prisão, por “actividades subversivas contra a segurança externa do Estado”, e enviado para o «Campo da morte lenta», no Tarrafal. A sua obra, com raízes na terra e na cultura do país, foi precursora da literatura angolana, que constituiu uma importante arma de combate no processo da luta de libertação nacional . Quando a Sociedade Portuguesa de Escritores, em 1965, lhe atribuiu o Grande Prémio de Novelística, o escritor encontrava-se na sua longa prisão no Tarrafal. Essa circunstância determinou uma campanha repressiva do regime fascista do Estado Novo, então a braços com a guerra colonial, e o nome Luandino Vieira ficou para sempre associado ao movimento que então se gerou em Portugal a favor da liberdade de expressão.

Luandino Vieira fez-se angolano

José Vieira Mateus da Graça (com pseudónimo literário Luandino Vieira) nasceu em Lagoa de Furadouro, Vila Nova de Ourém, a 4 de Maio de 1935. Passou a juventude em Luanda, onde concluiu os estudos secundários. Já antes do eclodir da guerra estivera detido pela PIDE, por se manifestar contra a ditadura. Ligado aos círculos culturais de Angola, tinha sido preso pela primeira vez em 1959. Em 1961 volta a ser preso[1] e, condenado a 14 anos de prisão, acabou por ser enviado para o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, onde passou oito anos.

Era, nesses anos, um nome proscrito pelo salazarismo, cuja citação podia constituir delito de opinião. Em 1965, a simples notícia da atribuição de um prémio literário a José Luandino Vieira, pela Sociedade Portuguesa de Escritores, desencadeou uma das mais violentas ondas de repressão salazarista.

Luandino Vieira cumpria então a pena no Campo do Tarrafal, em Cabo Verde, de onde iria regressar a Portugal em 1972, em regime de liberdade condicional e com residência vigiada, em Lisboa.

Trabalhou com o editor Sá da Costa até à Revolução de Abril. Em 1975 voltou a Angola mas, na sequência do reinício da guerra civil angolana, veio residir em Portugal. Radicou-se no Minho, em Vila Nova De Cerveira.

Nos anos mais recentes, Luandino Vieira dedica-se, entre outras coisas, a animar uma pequena editora-livraria em Vila Nova de Cerveira, “Nóssomos”, que edita jovens poetas e outros menos jovens.

Luandino Vieira

Aos 80 anos: foto do escritor que declinou o Prémio Camões 2006

 

Em 2006 foi-lhe atribuído o Prémio Camões, o maior galardão literário da língua portuguesa. Luandino recusou o prémio alegando «motivos íntimos e pessoais». Em entrevista posterior ao Jornal de Letras, esclareceu que não aceitara o prémio por se considerar um escritor morto e, como tal, entendia que o mesmo deveria ser entregue a alguém que continuasse a produzir .

Em Maio de 2015, a APE celebrou os 65 anos de Luuuanda, numa cerimónia na Gulbenkian.

O Prémio ao livro «Luuanda» e a vaga repressiva

Em 1965 a Sociedade Portuguesa de Escritores distinguiu Luandino Vieira com o “Grande Prémio da Novela” atribuído ao livro Luuanda. A SPE não tardou a ser extinta, a sua sede assaltada, vandalizada e encerrada pela PIDE, por despacho do Ministério da Educação. Os escritores Alexandre Pinheiro Torres, Augusto Abelaira e Manuel da Fonseca, membros do júri, foram detidos pela PIDE, pela ousadia de premiarem um escritor em choque com a ditadura salazarista.


«Luuanda»

As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos – os bairros pobres de Luanda, onde o autor viveu.

Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. […] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência […] é porque isso era – digamos assim – o aquário onde meus personagens e eu circulávamos”.


A referência a este acontecimento foi proibida em todos os jornais. O Jornal do Fundão (JF), que divulgara a notícia, foi suspenso por cinco meses e depois submetido a censura especial. Jaime Gama, que escreveu um artigo sobre o assunto no jornal “Açores”, (depois, “Açoriano Oriental”), foi detido. Cópias das primeiras provas tipográficas do «Luuanda» corriam desde 1963 nos musseques de Luanda, enquanto que, em Portugal, a edição que iria circular em 1965, adquirida pelos democratas, havia sido feita por agentes da PIDE .

Luandino Vieira, que contava então apenas 29 anos, começara a sua actividade literária em O Estudante, órgão dos alunos do Liceu de Luanda. De 1957 a 1960 apareceu integrado numa camada de novos escritores angolanos que elaboraram “CULTURA”, jornal literário da Sociedade Cultural de Angola: poemas, contos, ilustrações com a sua assinatura. Em 1960 publica o seu livro de estreia A Cidade e a Infância, tendo publicado depois Duas Histórias de Pequenos Burgueses (1961) e Luuanda (1964), que lhe valeu o Grande Prémio.

Na verdade, Luuanda, que traz histórias dos musseques e exibe uma linguagem inovadora, foi escrito (Luandino já preso) e o texto passado pelo escritor para a mulher, que o dactilografa para ser editado. E quando o prémio da SPE é atribuído, Luandino continua detido, não sabendo de nada. Desses tempos na prisão, ficaram notas várias, uma espécie de diário.


Angola – ‘LUUANDA – Estórias’

de José Luandino Vieira – Lisboa 1972 – Edição numerada e assinada


Sobre o livro e o prémio da SPE

A primeira edição do Luuuuanda

Alexandre Pinheiro Torres pronunciou-se no jornal Diário de Lisboa da seguinte maneira: «Três histórias que são (…) três obras-primas do nosso conto contemporâneo, e a enorme e imprevista revelação de um escritor de sensibilidade excepcional e de notável capacidade de criação dum estilo… É n’A Estória do Ladrão e do Papagaio, que desde já considero digna de figurar sem desdouro ao lado das melhores de José Cardoso Pires de Jogos de Azar, ou das melhores de Manuel da Fonseca de O Fogo e as Cinzas (e que maior elogio poderia eu fazer-lhe?), é nessa “estória” que Luandino Vieira nos dá prova das suas extraordinárias possibilidades».

O Jornal do Fundão (JF) publicou na edição de 23 de Maio de 1965, no Suplemento Literário Argumentos, dirigido por Alexandre Pinheiro Torres, a notícia sobre os Prémios da Sociedade Portuguesa de Escritores. Tinham sido distinguidos: Isabel da Nóbrega pelo romance Viver com os Outros (Prémio Camilo Castelo Branco – Romance); Luandino Vieira por Luuanda (Grande Prémio da Novela) e Armando Castro com A Evolução Económica de Portugal (Grande Prémio do Ensaio). A propósito do prémio atribuído ao escritor angolano Luandino Vieira, a notícia do JF informava que do júri tinham feito parte João Gaspar Simões, Augusto Abelaira, Alexandre Pinheiro Torres, Manuel da Fonseca e Fernanda Botelho.

Em 2009, Fernando Paulouro Neves, director do JF, escreveu em artigo nesse jornal: «A verdade, porém, é que as três narrativas de Luuanda eram “três obras-primas”. A escrita de Luandino Vieira tinha consigo o futuro. Não só para a afirmação de uma literatura angolana, mas para o enriquecimento da língua portuguesa. À distância do tempo, Luuanda tem a frescura de uma linguagem inovadora, a música de uma oralidade tão próxima do universo africano, uma dimensão poética que faz dos contos de Luandino Vieira uma aventura de leitura estimulante. A obra posterior só veio confirmar o grande escritor. Sempre a condição humana no seu húmus, a batalha pela liberdade e pelo pão elementar, num compromisso que é sempre, por mais voltas que dêem, o essencial da acção criadora».

Em 2009, numa rara entrevista concedida ao jornal Público, Luandino confidenciou que as notícias do prémio chegaram tardiamente ao Tarrafal, pois o director do campo de detenção retardara a informação. Como o escritor estava impossibilitado de candidatar a obra, bem como o seu editor, foi com surpresa que percebeu que a obra fora, mesmo assim, distinguida, graças à intervenção do crítico literário Alexandre Pinheiro Torres.

Prémios

Antes do Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores (Prémio Camilo Castelo Branco) (1965) tinha recebido os prémios:

  • Prémio Sociedade Cultural de Angola (1961);
  • Casa dos Estudantes do Império – Lisboa (1963);
  • Prémio Mota Veiga (1963);
  • Associação de Naturais de Angola (1963).

Obras de Luandino Vieira

Algumas das obras de Luandino Vieira:

Contos

  • A cidade e a infância (Contos), 1957; 1986
  • Duas histórias de pequenos burgueses (Contos), 1961
  • Luuanda (Contos), 1963; 2004
  • Vidas novas (Contos), 1968; 1997
  • Velhas histórias (Contos), 1974; 2006
  • Duas histórias (Contos), 1974
  • No antigamente, na vida (Contos), 1974; 2005
  • Macandumba (Contos), 1978; 2005
  • Lourentinho, Dona Antónia de Sousa Neto & eu (Contos), 1981; 1989
  • História da baciazinha de Quitaba (Conto), 1986

Edição da União dos Escritores Angolanos, 1979, Capa de António Ole

Capa do livro “Vidas novas”, de José Luandino Vieira com ilustração de José Rodrigues

 

Capa da primeira edição (muito rara) da Casa dos Estudantes do Império, 1954


Novela

  • A vida verdadeira de Domingos Xavier, 1961; 2003
  • João Vêncio. Os seus amores, 1979; 2004

Romance

  • Nosso Musseque (Romance), 2003
  • Nós, os do Makulusu (Romance), 1974; 2004
  • O livro dos rios, 1º vol. da trilogia De rios velhos e guerrilheiros (Romance), 2006
    Infanto-juvenil
  • A guerra dos fazedores de chuva com os caçadores de nuvens. Guerra para crianças, 2006

Outras

  • Kapapa: pássaros e peixes, 1998
  • À espera do luar, 1998

Canção para Luanda

José Luandino Vieira

A pergunta no ar
no mar
na boca de todos nós:
– Luanda onde está?

Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos

– Xé
mana Rosa peixeira
responde?
-Mano
Não pode responder
tem de vender
correr a cidade
se quer comer!

“Olá almoço, olá almoçoeee
matona calapau
ji ferrera ji ferrereee”

– E você
mana Maria quintandeira
vendendo maboques
os seios-maboque
gritando, saltando
os pés percorrendo
caminhos vermelhos
de todos os dias?
“maboque, m’boquinha boa
doce docinha”

– Mano
não pode responder
o tempo é pequeno
para vender!

Zefa mulata
o corpo vendido
baton nos lábios
os brincos de lata
sorri
abrindo o seu corpo
– seu corpo cubata!
Seu corpo vendido
viajado
de noite e de dia.
– Luanda onde está?

Mana Zefa mulata
o corpo cubata
os brincos de lata
vai-se deitar
com quem lhe pagar
– precisa comer!

– Mano dos jornais
Luanda onde está?
As casa antigas
o barro vermelho
as nossas cantigas
tractor derrubou?

Meninos das ruas
cacambulas
quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?

– Manos
Rosa peixeira
quitandeira Maria
você também
Zefa mulata
dos brincos de lata
– Luanda onde está?

Sorrindo
as quindas no chão
laranjas e peixe
maboque docinho
a esperança nos olhos
a certeza nas mãos
mana Rosa peixeira
quitandeira Maria
Zefa mulata
– os panos pintados
garridos, caidos
mostraram o coração:
– Luanda está aqui!

 

[1] Em 1961, com dois camaradas poetas, António Jacinto e António Cardoso, andou de cadeia em cadeia, em Angola, até em 1964 serem transferidos para o Tarrafal.

Dados biográficos


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