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Quinta-feira, Julho 7, 2022

Lula e Alckmin evocam Tancredo e Sarney

Tereza Cruvinel, em Brasília
Tereza Cruvinel, em Brasília
Jornalista, actualmente colunista do Jornal do Brasil. Foi colunista política do Brasil 247 e comentarista política da RedeTV. Ex-presidente da TV Brasil, ex-colunista de O Globo e Correio Braziliense.

As diferenças podem ser muitas mas há algo em comum entre a chapa Lula-Ackmin e a chapa Tancredo-Sarney, fruto da aliança entre o PMDB, maior partido de oposição que havia liderado a campanha das diretas, e os dissidentes do PDS para encerrar a ditadura como era possível, pelo Colégio Eleitoral. Derrotar Bolsonaro e tirá-lo do governo é hoje uma urgência nacional tão importante como a de acabar com a ditadura em 1984/85.

Desnecessário e ocioso dizer por que. Hoje mesmo o Inesc está divulgando seu relatório sobre a execução orçamentária na era Bolsonaro e os números apontam em gritos o desmonte de políticas públicas da maior importância. Vejam lá. Cito apenas um dado. Bolsonaro gastou zero, em três anos, com moradias de interesse social. As lonas pretas estão, entristecendo as ruas. E há todo o resto: debilitação e ameaças à democracia, mentiras, intimidações, uso despudorado da máquina, fracasso econômico e degradação da imagem do país.

Fechada a aliança com o PSB, tendo Alckmin como vice, Lula parte agora para ampliação da aliança de apoio à chapa. Hoje mesmo terá encontro com senadores de partidos de centro e centro-direita, como Omar Aziz (PSD-AM), Renan Calheiros (PMDB-AL), Kátia Abreu (PP-TO) e até Acir Gurgacz (PDT-RR). Depois vai a Belo Horizonte conversar com o prefeito Alexandre Kalil (PSD). O que está buscando agora é criar um movimento “Fora Bolsonaro”, ainda que não use este mote e prefira focar o discurso nos problemas concretos do país. Fora Bolsonaro pelas urnas, embora saibamos que ele terá um esperneio golpista.

A transição política que tivemos, para chegarmos à democracia, não foi certamente a ideal. Especialmente porque deixamos impunes os criminosos da ditadura. Mas foi a possível e cobri todos aqueles fatos. Apesar das massas que se levantaram pedindo diretas-já, a ditadura impediu, por 22 votos, a aprovação da emenda Dante de Oliveira. E então começou a costura da Aliança Democrática firmada entre o PMDB e os dissidentes da Frente Liberal. O documento “Compromisso com a Nação”, assinado por Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Aureliano Chaves e Marco Maciel tinha como ponto mais importante a convocação da Assembleia Nacional Constituinte e a democratização das instituições. O resto é história: Tancredo morreu sem tomar posse, Sarney herdou o Governo e convocou a Constituinte, base da democracia que vínhamos aprimorando, até que veio a catástrofe da eleição de Bolsonaro. Ocioso também rever as causas do desastre.

Outros partidos alargaram a aliança de 1985, votando em Tancredo-Sarney no Colégio Eleitoral. Muitos, de centro-esquerda, dizendo que “de nariz” tapado, e até usaram mesmo lenços brancos ao votar. O PT decidiu contra e expulsou três deputados que votaram na chapa: Beth Mendes, Airton Soares e José Eudes. Hoje, há petistas revoltados com o passo dado por Lula.

Assim como a transição de 1985 foi a possível, Lula parece entender que derrotar Bolsonaro também exige uma frente ampla, que não terá um programa puramente petista ou de esquerda. O que ele começa hoje é movimento para ampliar a frente, para lá da coligação com o PSB, e dos apoios do PC do B, PV e federação PSOL-Rede.


Texto original em português do Brasil

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