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João de Sousa

Sexta-feira, Outubro 22, 2021

Lula deve explicações ao Brasil

Um ano depois de ter sido solto, após 580 dias de detenção, Lula da Silva permanece em eclipse quase total na cena política do país. Ironicamente, fala-se menos dele hoje do que quando estava encarcerado na superintendência da Polícia Federal, em Curitiba.

O ex-presidente mantém-se em liberdade enquanto recorre da sentença – já em segunda instância – que o condenou por corrupção a mais de oito anos de cadeia. A sua expectativa é que o Supremo possa ainda anular o processo se considerar – como defende a defesa – que o juiz Sérgio Moro foi tudo menos imparcial. Sem isso, no entanto, além de correr o risco de voltar a ser preso, Lula tem os direitos políticos limitados, uma vez que por força da Lei da Ficha Limpa não pode candidatar-se a cargos públicos.

Com 75 anos completados há dias, Lula aparentemente está bem: segundo os seus porta-vozes, faz exercício regular, tem nova namorada com quem pretende casar e projeta mudar-se no final do ano para uma vila no litoral da Bahia…

Mas se as coisas lhe correm bem no plano pessoal, já no plano político tudo é mais complicado. A expectativa dos seus apoiantes e aliados de que, uma vez solto, o velho líder petista iria rapidamente mudar o cenário em favor da esquerda, até agora não se concretizou. O PT mostra-se anquilosado, sem quadros capazes de assumir uma liderança renovada e pode até sofrer derrota histórica nas eleições locais deste mês.

Oportunidade falhada

Na raiz deste declínio encontra-se o acentuado divórcio do partido com as classes médias, em particular com a intelectualidade, que começou logo em 2005, quando foram revelados os primeiros escândalos de corrupção (Mensalão); se acentuou depois com as grandes manifestações de 2013, já com Dilma, e prossegue até agora. Foram dissidentes do PT – recorde-se – que fundaram o PSOL (Partido do Socialismo e Liberdade), que hoje desafia a tradicional hegemonia petista à esquerda e onde se refugiou boa parte dos artistas e intelectuais que antes estavam com o Partido dos Trabalhadores.

Para o PT reverter esta situação seria necessário um gesto sincero de humildade e arrependimento por parte de Lula, reconhecendo os erros do partido e dando explicações ao país. É certo que as repetidas acusações pessoais contra ele deixam transparecer um certo justicialismo persecutório e grandes juristas internacionais questionaram a lisura dos processos em que está envolvido. No entanto, mesmo admitindo tudo isso, a verdade é que essas questões não apagam todos os outros casos comprovados de envolvimento em larga escala do PT em casos de corrupção. E sobre isso, Lula guarda de Conrado o prudente silêncio.

A grande oportunidade para se explicar foi precisamente há um ano atrás, no momento da libertação, quando teve sobre ele novamente concentradas as atenções do país e do mundo. Já com o país mergulhado na torpeza rude do bolsonarismo, a expectativa era enorme: esperava-se dele pelo menos meia palavra de autocrítica em relação aos erros que no passado abriram caminho ao impensável e, ao mesmo tempo, uma mão estendida de reconciliação e unidade ampla das forças democráticas com vista ao futuro.

Mas Lula defraudou essas esperanças e falhou estrondosamente esse momento, naquele que pode ficar para a história da política como um case study de oportunidade perdida. Num registo raivoso e negacionista contra a Lavajato, sem qualquer mea culpa, o fundador do PT mostrou que os seus interesses pessoais imediatos têm prioridade sobre os interesses gerais do país.

A decepção foi tão grande, que os seus apoiantes prometeram que o discurso “p’rá valer” viria daí a alguns dias, no território mítico das greves do ABC. Mas os dias passaram e o discurso a sério não veio – nem em São Bernardo do Campo nem noutros locais, até hoje. O que veio foi a informação de que o PT não faria alianças à direita, facilitando assim a vida a quem está no poder. No fundo, repete-se a estória de 2018, quando o PT insistiu até ao fim na candidatura de Lula quando sabia que ela não era viável, descartando alianças ao centro e acabando por abrir caminho a Bolsonaro.

Perante isso, de pouco servem as jeremiadas sobre o leite derramado de um projeto que chegou a concitar o entusiasmo do país e do mundo na visão de um Brasil democrático, forte e progressista, dando prioridade à resolução dos problemas sociais e alinhado no diálogo com o que de melhor se faz no mundo. Um projeto de que Lula foi o rosto e a alma, mas do qual resta hoje apenas uma infinda recordação nostálgica.
Com o PT dando mostras de que não se consegue auto-reformar, com a esquerda dividida e o centro deixado aos compromissos de bastidores com o poder instalado, Bolsonaro vai resistindo a tudo – do desastre ecológico gigantesco dos derrames de petróleo no litoral à destruição da Amazónia e do Pantanal, passando pelos 160.000 mortos da Covid, naquela que é já a pior tragédia sanitária da história do Brasil. Mesmo neste contexto adverso, a popularidade do presidente brasileiro ronda hoje os 40 por cento! (Pesquisa: Aprovação de Bolsonaro cresce mesmo com crise da Covid-19).

Perante isto, são duplas as explicações que Lula deve ao país – pelos erros do passado e pela incapacidade de resposta adequada aos desafios da presente situação política. Acorda, Lula, já lá vai um ano!


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