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Domingo, Fevereiro 25, 2024

Tantos manuais de auto-ajuda e eu não me sinto muito bem…

José Carlos S. de Almeida
José Carlos S. de Almeida
Professor de Filosofia do ensino secundário. Licenciado em Filosofia e em Direito.

elogio-da-intolerancia-slavoj-zizekNão sabemos a que mercado em concreto se refere o filósofo esloveno, mas a afirmação pode aplicar-se ao mercado português dos livros, onde a literatura de auto-ajuda invadiu as livrarias de todo o tipo 1.

Mas porquê esta invasão deste tipo de livros?

Zizek, na continuação do artigo («É a economia política, imbecil!») dá-nos algumas pistas: estes livros ajudar-nos-iam a triunfar sobre o nosso adversário, afinal, a ultrapassar os obstáculos, a ter êxito na sociedade.

Zizek resume lapidarmente a lição a tirar deste tipo de livros: o nosso sucesso depende da nossa «atitude».

Aliás, trata-se de facto duma lição de como vencer na vida e para isso o exemplo concreto sobre o qual Zizek reflete não podia ser mais elucidativo: o caso de Bill Gates.

Contudo, o filósofo esloveno tenta desmistificar a mitologia que está por detrás da suposta atitude de génio de Bill Gates. Não se trata de perguntar como foi que Bill Gates conseguiu construir o seu império, mas “como está estruturado o sistema capitalista, o que é que nele não funciona como deveria para tornar possível que um indivíduo possa aceder a um poder tão desproporcionado?” (p. 132).

O fenómeno da literatura de auto-ajuda é colocado, assim, num terreno extra-literário, fora do locus da ficção literária.

A lotaria social está instalada, os manuais de auto-ajuda multiplicam-se a par das biografias dos indivíduos auto-ajudados, todos eles irão explicar-lhe como ganhar o prémio gordo, como viver melhor e ganhar mais dinheiro, como triunfar perante as adversidades, como fazer dos obstáculos oportunidades, como desenvolver a mente na vida e nos negócios, como con-vencer a vizinha do lado com um simples sorriso.

Ilustração: Bárbara Scarambone
Ilustração: Bárbara Scarambone

Mas é possível ver mais longe neste movimento recente de proliferação desmedida dos livros de auto-ajuda. Trata-se, com efeito, do que poderíamos designar por uma psicologização do comportamento e da vida política.

A rarefacção da esfera política e do político face à invasão da lei dos mercados, do mesmo modo que se assiste, segundo Zizek, a uma despolitização da economia, constituem faces do mesmo processo de anulação da esfera política, da luta política, dos posicionamentos políticos.

A auto-ajuda que se tenta promover leva consigo a afirmação de que nada se consegue através da luta política, que através da política não se alcança nenhuma mudança significativa e que a existir uma mudança, esta só poderá ocorrer ao nível do Eu.

A verdadeira mudança depende das recomendações relativas à regulação comportamental, eis o que defendem os teóricos da auto-ajuda muitas vezes pregando na televisão que lhes garante o púlpito em troca das audiências doentes mas ávidas duma palavra milagrosa que os converta e lhes endireite a coluna.

Ou como diriam os nossos adolescentes, os tais que são os homens de amanhã, tudo depende do psicológico.

Enfim, tudo se centra no plano subjectivo, no drama que se desenrola na instância mental, alheada completamente da realidade envolvente. Por isso, acabamos por concluir a partir do desafio de Zizek: os actuais manuais de auto-ajuda são, afinal, os modernos manuais da luta política do tempo presente. Para a nossa infelicidade.

1 Para uma análise do surgimento e desenvolvimento do fenómeno da literatura de auto-ajuda entre nós desde 1950, bem como o código de comportamento e emocionalidade que aí surge, cf. o artigo de Fernando Ampudia de Haro, «Gestão, desenvolvimento e êxito: sociogénese da literatura de auto-ajuda em Portugal», in Revista Crítica de Ciências Sociais, 94, Setembro 2011: 41-61.

 

Slavoj ŽižekSlavoj Zizek, Elogio da Intolerância, Lisboa, Relógio D’Água, 2006, 148 pp.

 

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