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Quinta-feira, Julho 7, 2022

Manuel da Fonseca

Helena Pato
Helena Pato
Antifascistas da Resistência

(1911 – 1993)

Grande figura da Cultura nacional e, ao mesmo tempo, parte integrante da história da Resistência, Manuel da Fonseca tinha uma personalidade cativante, era um homem popular, que muito prestigiou o Alentejo.A sua escrita era seguida de perto pela Censura. Vigiado e perseguido pela PIDE, tanto pelo que escrevia como pela militância política, conheceu a brutalidade dos interrogatórios e dos cárceres fascistas.

Biografia

Manuel da Fonseca nasceu em 15 de Outubro de 1911, em Santiago do Cacém, e aí se manteve até completar a instrução primária. Desde muito cedo se iniciou no mundo da leitura, por influência do pai. Na escola, cultivava a paixão pela escrita.

A continuação dos estudos levou-o a Lisboa onde frequentou o colégio Vasco da Gama, o Liceu Camões e a Escola Lusitânia e, mais tarde, a Escola de Belas Artes. Passava férias em Santiago do Cacém e, na cidade de Lisboa, dava longos passeios, a vida nocturna fascinava-o.

Teve os primeiros empregos no comércio e na indústria. Apesar de muito ocupado, (amante do toureio e do desporto), jogou futebol, interessou-se pela espada e florete, chegando a ganhar um campeonato de boxe.

Em 1925 publicou num semanário de província os seus primeiros versos e narrativas.

Intervenção política

Para melhor se entender a personalidade de Manuel da Fonseca, há que referir o seu percurso de intelectual lutador, comprometido com as questões candentes do seu tempo histórico, bem como a sua condição de protagonista do Neo-Realismo português. Não pode deixar de ser salientada a sua intervenção política e a sua fidelidade ao ideal comunista.

Muito cedo fez a opção antifascista e aderiu ao Partido Comunista Português, partido ao qual se manteve fiel atá ao fim da sua vida.

Os primeiros contactos de Manuel da Fonseca com o PCP datam dos anos trinta, ou seja, de um tempo de juventude em que ele encetava um convívio, que se tornaria profícuo, com figuras ligadas às artes, às ciências e à vida política, como Bento de Jesus Caraça, o arquitecto Keil do Amaral, os pintores Maria Keil e Pavia, o escritor e crítico musical Manuel de Lima, Lopes Graça e homens de letras como Ferreira de Castro, Mário Dionísio, Armindo Rodrigues, Redol.[1]

Entra para o PCP nos anos quarenta, na fase da “Reorganização de 1940/41, coincidente com o reacender da luta clandestina e da mobilização das massas contra o fascismo”, com especial incidência no Alentejo e nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo.

Neo-realismo português

Nome maior do neo-realismo português, Manuel da Fonseca afirma-se na literatura como romancista, poeta e cronista, começando a sua actividade literária, muito jovem, como colaborador de jornais e revistas – O Pensamento, Vértice, O Diabo, Seara Nova, Sol Nascente – contribuindo com crónicas e contos. Como cenário do que escrevia estava o Alentejo, as suas gentes, as suas vidas, as suas lutas _ Toda a sua obra é atravessada pelo Alentejo e pelo povo.

Fez parte do grupo do Novo Cancioneiro, tendo então uma intervenção social e política muito importante, retratando o povo, a sua vida, as suas misérias e as suas riquezas, exaltando-o.

O primeiro livro de poemas de Manuel da Fonseca, Rosa dos Ventos, e Planície, publicados respectivamente nos anos 1940 e 1941, são os primeiros passos da poesia neo-realista. A publicação de “Rosa dos Ventos” em 1940, altura em que o neo-realismo na poesia não conseguira ultrapassar a inconsistência de algumas tentativas exploratórias, veio viabilizar uma alternativa ao presencismo dominante”.[2] Da sua obra como romancista destacam-se Cerromaior (1943) e Seara do Vento (1958), duas das obras que melhor representam o neo-realismo português.

Escreveu vários contos: Aldeia Nova (1942), O Fogo e as Cinzas (1951), Um Anjo no Trapézio (1968) e Tempo de Solidão (1973) são os principais.

Após o 25 de Abril

A actividade política de Manuel da Fonseca não cessou com o fim da resistência ao fascismo após o 25 de Abril. Continuou a ser um homem e artista interveniente, quer no seio dos intelectuais – comunistas, e não só – quer, por exemplo, como candidato da CDU por Setúbal, em 1983, nas eleições legislativas desse ano.

Manuel da Fonseca morreu a 11 de Março de 1993, mas a sua obra perdura como referência incontornável na história da literatura portuguesa.

O seu nome, juntamente com o de Alves Redol, foi evocado na Festa do Avante de 2011, ano do centenário do seu nascimento.

Em 2011, a Câmara de Santiago do Cacém comemorou, durante todo o ano, o centenário do nascimento do escritor através de várias iniciativas; e a sua obra foi homenageada na Biblioteca Municipal com uma exposição, «Cidade D’Escrita, acompanhada por um programa educativo destinado aos alunos das escolas dos vários graus de ensino. A comemoração do centenário do escritor teve também lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no Museu do Neo-realismo, em Vila Franca de Xira, e no Auditório António Chaínho, em Santiago do Cacém. Entre muitas outras iniciativas, esteve patente, no Auditório António Chaínho, a exposição «Uma Voz de Revolta».

Manuel da Fonseca com pais e irmão

Manuel da Fonseca em estudante

Manuel da Fonseca com o filho José Carlos 1941

Manuel da Fonseca na década de 50

Manuel da Fonseca, Joaquim Figueiredo Magalhães, Cardoso Pires e Castro Soromenho 1959 ou 1960.

Homenagem a Manuel da Fonseca na Casa do Alentejo, em Lisboa(1959). Vêem-se, entre outros, o escritor ladeado por sua mãe e Ferreira de Castro, Alves Redol, Piteira Santos, Mário Soares e Rogério Paulo.

Festa do Avante, em 1980, em Lisboa. Com o jornalista Carlos Pinhão e Manuel Alpedrinha, ex-preso político do Tarrafal.

Artur da Fonseca (irmão), o escritor Luís Pacheco e Manuel da Fonseca, em 1981.

Festa da Amizade, Vale Verde, Santiago do Cacém. 1981.

Cerimónia da atribuição a Manuel da Fonseca, pelo Presidente da República Ramalho Eanes, da Comenda da Ordem Militar de Sant’Iago de Espada, em 1983. (Foto de Rui Pacheco)

Grupo de intelectuais da Resistência antifascista.
Na Marcha pela Paz (1983) na Av. da Liberdade, em Lisboa: da esquerda para a direita: José Saramago, Piteira Santos, Maria Rosa Colaço, Lopes Graça, Manuel da Fonseca, José Cardoso Pires e Urbano Tavares Rodrigues. (Foto de Rui Pacheco)

Manuel da Fonseca

 


[1] Eram os tempos dos célebres «passeios» no Tejo, – no barco “Liberdade” – que não eram senão formas escondidas de os intelectuais antifascistas se reunirem fora da vigilância da polícia fascista. Manuel da Fonseca era presença assídua.

[2] Com o movimento neo-realista, que viria a marcar impressivamente a literatura portuguesa no século XX, a actividade dos escritores passa a ser parte integrante da luta antifascista e as suas obras propõem-se ser “expressão dos anseios e aspirações dos trabalhadores e do povo. O primeiro livro de poemas de Manuel da Fonseca, Rosa dos Ventos, e Planície, publicados respectivamente nos anos 1940 e 1941, são os primeiros passos da poesia neo-realista.

Dados biográficos:

Todas as fotografias publicadas em comentários são da Página «Manuel da Fonseca – Fotografias», da ESCOLA SECUNDÁRIA MANUEL DA FONSECA

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