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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

Marchar contra o ódio porque amar é coisa de bravo nestes tempos sombrios

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

Depois de um tempo de espera, cinco canções são selecionadas para celebrar a resistência a tudo de ruim que existe no mundo. Assim a história se fez, de luta, de resistência, de superação.

A inspiração do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha – 25 de julho –, que leva milhares de mulheres negras às ruas de diversas cidades todos os anos como um grito de liberdade, de transgressão de uma realidade dura, imposta pelo patriarcado, de mentalidade racista e misógina.

E “A Guerrilha da Concórdia”, do uruguaio Jorge Drexler para lembrar que amar sim é coisa de bravo. Porque “a raiva é irmã da covardia”, como canta Chico Buarque.

Luana Hansen

A paulistana Luana Hansen, mulher negra, lésbica e rapper, canta a resistência do povo negro, essencialmente das mulheres, que estão na base da pirâmide social, sustentando essa sociedade, que tanto as maltrata.

“A mulher negra vai marchar contra os racistas
Pra acabar de vez com a história dos machistas
Pelo fim do genocídio da juventude negra
Acontece todo dia não finja que não veja

Onde a parcela mais oprimida e explorada da nação
Luta diariamente contra a criminalização
Quer moradia digna, educação e saúde
Pelo tom de pele ninguém nunca te julgue

Cansada de uma mídia sexista e racista
Que só promove a violência física
Anônimas, famosas, afro- latinas brasileiras
São suas as vitórias, grandiosas guerreiras

Lutando por suas terras oh mulheres quilombola
Trazendo a ancestralidade em cada aurora
Marchamos mulher negra contra o racismo e violência
Pois todas nós juntas sim fazemos a diferença

Afro-negra de todas as idades
Vamos todas juntas mudar nossa realidade
Afro-negra de todas as cidades
Vamos todas juntas mudar nossa realidade

Marcha contra o racismo, eu vou
Marcha contra violência
Marcha pelo bem viver

Marcha contra o racismo, eu vou
Marcha contra violência
Marcha pelo bem viver

Mulheres de memória ylároixas
Tocando no djembe, o som do ilu obá
Mulheres de axé, resistência e tradição
Manteve nossa fé e religião

Cansada do lugar de inferioridade
De conviver com tanta desigualdade
Falta creches, escola, uma mídia igualitária
Enquanto isso a mulher negra vive em condições precárias

Uma legião de lutadoras clandestinas
Silenciada enquanto impunidade segue sua rotina
Matando, julgando, a marginalizada
Sou mais uma Claudia, mais uma negra arrastada

Cansada da pobreza que pra nos já foi imposta
O som do meu tambor, sim já e minha resposta
Respeite o meu cabelo é minha cultura que ecoa
Respeite meu turbante sim ele é minha coroa

Que segue resistindo de uma forma natural
E vai sobrevivendo ao preconceito racial
Vamos todas juntas, lutando lado a lado
Ocupando cargos públicos e derrubando o patriarcado

Marcha contra o racismo, eu vou
Marcha contra violência
Marcha pelo bem viver

Marcha contra o racismo, eu vou
Marcha contra violência
Marcha pelo bem viver

Eu sou Tereza de Benguela, eu sou
Carolina de Jesus, eu sou
Minha resistência aqui não para
Eu sou filha de Dandara

Sou Chiquinha Gonzaga, eu sou
Sou Luiza Mahin, eu sou
Estou disposta a dar um basta
Eu sou filha de Anastácia

Marcha contra o racismo, eu vou
Marcha contra violência
Marcha pelo bem viver”

Negras em Marcha (2015), de Luana Hansen; canta com Leci Brandão

 

Jorge Drexler

O uruguaio Jorge Drexler se tornou o primeiro compositor de língua espanhola a ganhar o Oscar de Melhor Canção Original pelo filme “Diários de Motocicleta” (2004), de Walter Salles, com a música “O Outro Lado do Rio”. O filme conta a viagem de Che Guevara pelo continente em cima de uma moto.

“A Guerrilha da Concórdia” fala em derrotar o ódio com amor e superação do medo em lutar.

“Amar é ficar cego
O coração dispara enquanto tudo queima
O ódio é muito mais fácil
O ódio é o guia para os covardes

Arme-nos, arme-nos de coragem
Vamos nos armar, nos armar de coragem até os dentes
O medo saiu de seu túmulo e hoje
Amar é coisa de bravo

Vamos nos amar, vamos nos amar só porque
Vamos nos amar, agora e aqui
Fazendo história
Vamos lançar nossos panfletos no ar
Da guerrilha da concórdia

Amar é ficar cego
O coração dispara enquanto tudo queima
O ódio é muito mais fácil
O ódio é o guia para os covardes

Arme-nos com coragem
Arme-se de coragem até os dentes
O medo saiu de seu túmulo e hoje
Amar é coisa de bravo

Vamos lançar nossos panfletos no ar
Da guerrilha da concórdia
Amar é coisa de bravo

Corpo a corpo, verso por verso
É uma guerra de guerrilha
E há um comando de poetas suicidas
Rimando nos esgotos
Dizendo

Vamos nos armar
Arme-nos de coragem até os dentes
Por que amor
Amar é coisa de bravo”

La Guerrilla de la Concordia (A Guerrilha da Concórdia, 2021), de Jorge Drexler

 

Zeca Baleiro

O maranhense Zeca Baleiro canta a necessidade de por fim do desgoverno de Jair Bolsonaro, precursor do ódio, da violência e da miséria. Um desgoverno que negligencia numa pandemia, nega a ciência, a educação, a cultura e a vida. Um desgoverno que destrói um país.

“Vencerão a justiça e a poesia
É preciso calar a negação
Nós estamos em época sombria
Mas no fim desse túnel há clarão

Um homem sem juízo e sem noção
Não pode governar esta nação”

Desgoverno (2021), de Joãozinho Gomes e Zeca Baleiro

 

Gabriel o Pensador

Já o carioca Gabriel o Pensador retrata a crueza de uma sociedade insensível. Prostrada pelo egoísmo, pelo individualismo e avessa ao amor ao próximo, mesmo o próximo bem próximo. Uma sociedade que tortura e mata crianças e jovens, mulheres, LGBTs. Uma sociedade adoecida.

“E quando o chicote arrebenta minhas costas
me sinto impotente mas olho pra trás
A lágrima lava o meu rosto e eu já consciente
levanto pra sonhar de novo
E quebro as correntes quando reconheço o
meu rosto na cara do meu capataz”

Patriota Comunista (2021), de Gabriel o Pensador

 

Tiago Araripe

O pernambucano Tiago Araripe, radicado em Portugal apresenta a canção “Terra no Lugar” para mostrar que o ódio passa. A vida segue e o amor vence. A resistência sempre se fez.
“Se tudo passa, o que fica é o amor
Que eu guardei e fui buscar para te dar
No teu abraço, vou até aonde for
E o que for, será

Tudo no lugar
Nada a mentir
A fingir, esconder
Asas pra chegar”

Tudo no Lugar (2021), de Tiago Araripe; canta com Mara


Texto em português do Brasil

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