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Terça-feira, Maio 17, 2022

Músicas para celebrar a história negada pela elite

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

Ao incendiar a estátua do bandeirante Borba Gato, em São Paulo, o grupo Revolução Periférica queria provocar uma polêmica, e provocou, acerca da história que nos é contada nos bancos escolares. A história dos dominantes.

Muitos criticaram o incêndio ao bandeirante. Esquecem que “a luta política condiciona o conhecimento do passado e a seleção e hierarquização dos fatos em relatos consistentes nos quais os acontecimentos e os heróis podem surgir como legitimadores do status quo atual e da dominação de classe. Ou da contestação a esse status quo a partir da emergência de novas forças sociais cujo objetivo é construir novas, mais avançadas e justas maneiras de viver em sociedade”, como escreveu José Carlos Ruy (1950-2021). Os bandeirantes estavam a serviço da manutenção do sistema opressor.

Aqui a música popular brasileira em toda a sua diversidade tenta contar a história do ponto de quem sofre com os desmandos dos poderosos. Aqui a história do lado de quem luta contra o sistema. De quem visa construir o novo. De quem não chora estátuas de assassinos e escravagistas queimadas ou derrubadas.

Porque “quem vai impedir que a chama/saia iluminando o cenário/saia incendiando o plenário/saia inventando outra trama” (Chico Buarque e Pablo Milanéz). História que segue.

Cidinho & Doca

A dupla de funk carioca, Cidinho & Doca se originou na favela Cidade de Deus, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. É o favelado falando com muita propriedade da favela para desconstruir o mito de que em favela só tem bandido.

“Minha cara autoridade, eu já não sei o que fazer
Com tanta violência eu sinto medo de viver
Pois moro na favela e sou muito desrespeitado
A tristeza e alegria aqui caminham lado a lado
Eu faço uma oração para uma santa protetora
Mas sou interrompido à tiros de metralhadora
Enquanto os ricos moram numa casa grande e bela
O pobre é humilhado, esculachado na favela
Já não aguento mais essa onda de violência
Só peço a autoridade um pouco mais de competência

Eu só quero é ser feliz
Andar tranquilamente na favela onde eu nasci”

Rap da Felicidade (1994), de Cidinho e Doca

Milton Nascimento

Mais uma vez Milton Nascimento, de coração mineiro, resgata a luta de classes e lado a lado com a luta antirracista.

“Filho do senhor vai embora
Tempo de estudos na cidade grande
Parte, tem os olhos tristes
Deixando o companheiro na estação distante
Não esqueça, amigo, eu vou voltar
Some longe o trenzinho ao Deus-dará
Quando volta já é outro
Trouxe até sinhá mocinha para apresentar
Linda como a luz da lua
Que em lugar nenhum rebrilha como lá
Já tem nome de doutor
E agora na fazenda é quem vai mandar
E seu velho camarada
Já não brinca mais, trabalha”

Morro Velho (1967), de Milton Nascimento

Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Os cariocas da gema Tom Jobim e Vinicius de Moraes fizeram inúmeros clássicos da bossa nova. A música popular brasileira nunca mais foi a mesma depois deles. Aqui cantam a necessidade de o morro descer para o asfalto porque a revolução virá da periferia.

“Morro pede passagem
Morro quer se mostrar
Abram alas pro morro
Tamborim vai falar
O morro não tem vez
Mas se derem vez ao morro
Toda a cidade vai cantar”

O Morro (1962), de Tom Jobim e Vinicius de Moraes; canta Tom Jobim

Elizeth Cardoso

A Divina, Elizeth Cardoso (1920-1990) foi uma das mais importantes cantoras do país. Sempre atenta às novidades, gravou em 1958 a música Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, com João Gilberto ao violão.

“Vai, vai barracão
Pendurado no morro
E pedindo socorro
Ai, à cidade a teus pés
Vai, barracão
Tua voz eu escuto
Não te esqueço um minuto
Porque sei que tu és
Barracão de zinco”

Barracão de Zinco (1953), de Luiz Antônio e Oldemar Magalhães; canta Elizeth Cardoso com Época de Ouro e Jacob do Bandolim

Emicida

O paulista Emicida se transformou numa das grandes vozes da periferia na música popular brasileira. Canta a vontade de superar esse sistema opressor, dado voz à classe trabalhadora.

“Permita que eu fale, e não as minhas cicatrizes
Elas são coadjuvantes, não, melhor, figurantes
Que nem devia tá aqui
Permita que eu fale, e não as minhas cicatrizes
Tanta dor rouba nossa voz, sabe o que resta de nós?
Alvos passeando por aí
Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência
É roubar um pouco de bom que vivi
Por fim, permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Achar que essas mazelas me definem é o pior dos crimes”

AmarElo (2019), de Emicida, Felipe Adorno Vassao e Eduardo Dos Santos Balbino; sample Sujeito de Sorte, de Belchior; cantam Emicida, Majur e Pabllo Vittar

Paulinho da Viola

Um dos mais importantes compositores brasileiros, Paulinho da Viola canta a dor de um povo perseguido e a esperança de construir o novo, sabendo que a revolução além de periférica é negra e feminina.

“Por fim achei um corpo, nega
Iluminado ao redor
Disseram que foi bobagem
Um queria ser melhor
Não foi amor nem dinheiro a causa da discussão
Foi apenas um pandeiro
Que depois ficou no chão
Não tirei minha viola
Parei, olhei, fui-me embora
Ninguém compreenderia um samba naquela hora
Hoje eu vim, minha nega
Sem saber nada da vida
Querendo aprender contigo a forma de se viver
As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender”

Coisas do Mundo Minha Nega (1968), de Paulinho da Viola

Chico Buarque e Pablo Milanéz

Chico Buarque e o cubano Pablo Milanéz dispensam apresentações. Em defesa da unidade da América Latina cantam que “a história é um carro alegre/Cheio de um povo contente/Que atropela indiferente/Todo aquele que a negue”.

“Quem vai impedir que a chama
Saia iluminando o cenário
Saia incendiando o plenário
Saia inventando outra trama

Quem vai evitar que os ventos
Batam portas mal fechadas
Revirem terras mal socadas
E espalhem nossos lamentos

E enfim quem paga o pesar
Do tempo que se gastou
De las vidas que costó
De las que puede costar

Já foi lançada uma estrela
Pra quem souber enxergar
Pra quem quiser alcançar
E andar abraçado nela”

Canção pela Unidade Latino-Americana (1975), de Pablo Milanés, adaptação de Chico Buarque feita em 1978; cantam Chico e Milton Nascimento


Texto em português do Brasil

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