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Quarta-feira, Maio 25, 2022

Maria de Lourdes Pintassilgo

Maria do Céu Pires
Maria do Céu Pires
Doutorada em Filosofia. Professora.

“Viemos ao mundo não para ser servidos mas para servir”Maria de Lourdes Pintassilgo: a engenheira química que foi a primeira mulher a desempenhar o cargo de Primeiro – ministro em Portugal e a terceira na Europa e que chefiou o V Governo Constitucional entre Julho de 1979 e Janeiro de 1980. Antes tinha sido Secretária de Estado da Segurança Social (1974) e Ministra dos Assuntos Sociais (entre 1974 e 1975). Foi primeira em muitas outras coisas: primeira engenheira na CUF, primeira embaixadora portuguesa na UNESCO, primeira candidata presidencial.

Mas, apesar da vasta obra publicada e de um percurso cívico, político e religioso invulgar e pautado por valores éticos universais, tem sido votada ao esquecimento. Este, sendo mais ou menos generalizado, tem como excepção o trabalho da Fundação “Cuidar o Futuro” que, inspirando-se no seu exemplo pretende desenvolver a cultura e a ética do cuidado.

Sendo pouco reconhecida no seu país, Maria de Lourdes Pintassilgo teve, durante cinco décadas quer em Portugal, quer em instâncias internacionais (OCDE, ONU, UNITAR, OIT, NATO, UNESCO), uma relevante intervenção cívica. Desde os fóruns políticos, passando pela intervenção das mulheres na sociedade civil, pelas questões do desenvolvimento, da cidadania e também da teologia e da espiritualidade, nada lhe foi alheio.

Foi embaixadora da UNESCO entre 1976 e 1979. Mas, quando, na sequência do excelente trabalho realizado um forte grupo de países latino-americanos e nórdicos a pretenderam candidatar ao cargo de secretária-geral da organização, o seu país negou-lhe o apoio… Era, então, Primeiro-ministro Cavaco Silva.

Entre 1992 e 1997 presidiu à Comissão Independente para a população e Qualidade de Vida das Nações Unidas cujo relatório foi publicado em 1998. Nesse relatório afirmava: “ Temos o conhecimento de muitos meios necessários (tecnologia, opções políticas, recursos financeiros) mas não temos empenhamento nem a força de vontade para agir. (…) Precisamos de uma ética envolvente de cuidado pelos nossos companheiros de humanidade e pela nossa casa comum, a Terra.”

O seu pensamento esteve sempre à frente do tempo. Para ela, a democracia é mais que um regime político, é também um modo de estar no mundo e a sua realização é, simultaneamente, a realização da humanidade. Daí, a importância atribuída às questões da qualidade de vida, do acesso à saúde, da aquisição do saber em todas as etapas da vida, do dever de preservar o planeta de modo a que seja habitável, na linha daquilo a que Hans Jonas designou “princípio da responsabilidade”.

Numa inspiração/reformulação do imperativo kantiano “temos o dever de agir de modo a que a nossa acção seja compatível com a permanência de uma vida humana autêntica na Terra”. Também no que às questões de género se refere, o seu pensamento é exemplar, considerando as mulheres como agentes do curso da História, cuja intervenção no espaço público deverá ser fortalecida.

Poder-se-á dizer que a sensibilidade social e a procura religiosa nortearam o pensamento e a intervenção pública de Maria de Lourdes Pintassilgo, fazendo do cuidado de si, dos outros e do mundo um lema de vida.

Introduziu, no nosso país, juntamente com Teresa Santa Clara Gomes, o movimento GRAAL, movimento internacional de mulheres cristãs determinadas pela procura espiritual e pela construção de um mundo entendido como comunidade global de justiça e de paz.

Maria de Lourdes Pintassilgo fez da sua vida um caminho de atenção e de cuidado em relação às necessidades do Outro. Mulher de coragem e de força, de inteligência e de lucidez, trabalhou com entusiasmo e não cedeu ao conformismo nem à indiferença, trilhou caminhos e apontou uma nova forma de vivermos em conjunto, de construirmos “cidades futuras”, segundo um novo modelo: o do desenvolvimento sustentável.

Estando à frente, não foi compreendida no seu tempo e, sendo incómoda, é remetida ao esquecimento, hoje. Precisamente no tempo em que escasseiam as visões da política como serviço público, a sua figura poderia ser inspiradora e fonte de esperança para os mais jovens.

Mas, vivemos um tempo em que a memória parece ser cada vez mais “líquida” e a adoração de ídolos de papel substitui valores humanos essenciais. Vivemos uma época em que pouco se apreciam as pessoas “de excepção na paisagem espiritual, cultural e política com rosto feminino”, como foi Maria de Lourdes Pintassilgo segundo as palavras de Eduardo Lourenço.

(Texto adaptado de “Pão & Rosas – exercícios de cidadania”, Maria do Céu Pires (2012)

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