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Domingo, Outubro 17, 2021

Victoria Camps e “O Século das mulheres”

Maria do Céu Pires
Doutorada em Filosofia. Professora.

Nascida na cidade de Barcelona, a filósofa Victoria Camps é autora de uma vasta obra sobre questões de educação, de ética e de ética aplicada. Como reconhecimento pela obra “El gobierno de las emociones” publicada em 2011 foi-lhe atribuído, no ano seguinte, o Premio Nacional de Ensayo. Anteriormente, em 2008, tinha recebido o Premio Internacional Menéndez Pelayo pela sua dedicação ao ensino da Filosofia e pela influência moral do seu pensamento.

Valoriza o papel da Filosofia no mundo contemporâneo, defendendo que esta deveria integrar a formação geral de todos os cidadãos, pois trata-se de uma disciplina reflexiva, que ensina a pensar. Neste sentido, a filósofa dirige o seu olhar crítico para a actualidade e para a crescente confusão entre filosofia e “auto-ajuda”. Na verdade, basta entrar em qualquer livraria e observar o que se passa relativamente às várias secções de livros. Rápida e tristemente observamos que desapareceram as secções de Filosofia e que os livros (poucos) desta área estão colocados num espaço designado como “auto-ajuda”.

Victoria Camps

Victoria Camps desenvolveu, ao longo da vida, para além da actividade académica (Professora Catedrática de Ética na Universidade Autónoma de Barcelona desde 1986) e de investigação, uma intensa participação cívica e política. Foi Senadora independente pelo partido Socialista da Catalunha (entre 1993 e 1996) e presidente da Fundaciones Alternativas, desde 1996 até 2001. Esta Fundação tem como objectivo a reflexão sobre as questões políticas, económicas e culturais em Espanha e na Europa, no contexto da crescente mundialização. Pretende ser um lugar de encontro, de discussão e de elaboração de propostas para apresentar aos diferentes decisores políticos. Integrou, também, o Comité de Bioética de Espanha (de que foi presidente até 2012) e o Comité de Bioética da Catalunha e Conselhos de Ética de vários hospitais de Barcelona.

Outra área a que Victoria Camps dedicou parte significativa da sua reflexão e produção teórica é a que trata das questões de género. A obra “O século das mulheres”, publicada em 1998, expressa algumas das suas preocupações e propostas sobre esta problemática. Considerando que, dos vários movimentos sociais do século XX, o das mulheres foi o que se revestiu de mais importância e que teve mais impacto, a filósofa consta que o que se conseguiu ao nível formal/legal ainda não se concretizou, mantendo-se, de facto, a desigualdade. A discriminação continua a dois níveis: no privado e no público. Por isso, há que pensar as causas desta situação e os modos possíveis de a superar. Embora a sua aproximação ao feminismo tenha sido, segundo as suas próprias palavras, “muito tímida” e “um pouco lateral”, Victoria Camps propõe que o feminismo do novo século se centre em quatro âmbitos: a educação, o emprego, a política e os valores éticos. A finalidade é que este deixe de existir por ser desnecessário e inútil e que o século XXI se afirme como “o século das mulheres”.

Passados quase vinte anos sobre a publicação da obra que antes indiquei e sobre o início do século, cabe perguntar: estamos a aproximar-nos ou a afastar-nos deste horizonte? Seja qual for a resposta que consigamos dar a esta questão, mantém-se, a meu ver, totalmente válido um dos princípios defendidos por Victoria Camps:(…) o feminismo não é um assunto de mulheres, é um assunto de interesse comum.”[1]

[1] Camps, Victoria, O século das mulheres, trad. Regina Louro, Lisboa, Editorial Presença, 2001, p.18.

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