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Sábado, Outubro 23, 2021

“Matar” a infância

Maria do Céu Pires
Doutorada em Filosofia. Professora.

Há muitas formas de “matar” a infância. Desde logo, todas as que se praticam em inúmeros países onde abunda a mão-de-obra escrava (onde muitas crianças são obrigadas a trabalhar por volta dos 4, 5 anos) e todo o tipo de exploração, desde o casamento infantil, até às chamadas crianças-soldado.

Mas, nas sociedades ocidentais abundam, também, um conjunto de práticas, algumas recentemente instauradas, associadas ao desenvolvimento tecnológico e à sociedade do espetáculo que se traduzem na “morte” da infância que abrange um número cada vez maior de crianças.

1. Assistimos atualmente a uma espécie de adolescência precoce: as crianças (e de um modo muito particular as meninas) vestem-se como adultos, saltos altos, maquilhagem, vestidos e penteados apelando a uma certa “sexualização”, exibindo poses sensuais. E os adultos, seus educadores, acham muita graça e enaltecem as suas “princesas”!

Basta assistir a alguns programas televisivos para se constatar que, aqui, a escravatura é outra: é a da moda e a dos cânones de um mundo onde tudo se tornou e se reduz ao espetáculo. Esta submissão conduz, muitas vezes, à anorexia e a outras perturbações relacionadas com a autoestima. Cabe perguntar: será que num mundo vertiginoso, de um tempo “líquido”, também se quer “acelerar” o desenvolvimento?

 

2. Quer a nossa observação empírica, quer alguns estudos já realizados apontam para uma conclusão sobre o estilo de vida de um número cada vez maior de crianças, em Portugal: “estamos” a fazer (quase) tudo ao contrário. As crianças encontram-se cada vez mais e mais precocemente dependentes do uso de tecnologias, levando uma vida sedentária, com pouco exercício físico e com escassa interação social. As consequências são várias, ao nível da saúde, física e mental, da capacidade de concentração e de aprendizagem, numa palavra, do seu desenvolvimento equilibrado.

Um dos estudos mais recentes (realizado pela pediatra Carla Rêgo)[1] aponta para a carência de vitamina D nas crianças devido ao reduzido número de atividades ao ar livre. Realizado no Porto, indica que cerca de metade das crianças e adolescentes nesta região apresenta níveis de vitamina D abaixo do normal. Sendo a vitamina D essencial para a absorção do cálcio e para a formação óssea, para a produção de insulina, a regulação da pressão arterial, o desenvolvimento neuronal e a respostas imunológicas, estes dados indicam sérios riscos na saúde futura destas crianças e adolescentes.

Horas em excesso dentro de casa, na escola, dentro do carro não são nada saudáveis. As crianças e os adolescentes precisam de contacto com a natureza, de andar e fazer exercício físico, de brincar em espaços ao ar livre e de apanhar sol. Também neste aspeto, precisamos de mudar estilos de vida e de alterar radicalmente o nosso paradigma de sociedade. Começando pelos pequenos hábitos do quotidiano (não passear apenas os cães mas passar as crianças), até às decisões políticas, por exemplo, relativas à carga horária (excessiva) de crianças e jovens. A bem da saúde de cada um e da sociedade no seu conjunto!a prevalência de deficiência em vitamina D era de 48%, sendo que 6% registava uma deficiência severa e 5% tinham compromisso de mineralização óssea para a idade”.

 

3. Uma das características essenciais da infância é a curiosidade, a vontade de saber e de querer compreender. Também isso estamos a aniquilar. Para crianças que têm acesso a tudo já nada se apresenta como surpresa, já nada inquieta ou suscita curiosidade. Na verdade, o excessivo acesso a bens de consumo e a banalização do uso de tecnologias desde a mais tenra idade aumenta a apatia e a incapacidade de sentir, diminui a sensibilidade perante os outros, perante o mundo e está a produzir pequenos “autómatos”.

Sem curiosidade não aprendemos, não memorizamos, não sentimos, não experimentamos. Perde-se o esforço como tentativa de realização, a motivação e a criatividade. Deixa de haver sonhos.

 

O que resta? Uma infância que deixa de o ser e que conduz a um adulto amputado.

 

[1] O estudo foi publicado na Acta Pediátrica Portuguesa e divulgado pela agência Lusa no dia 21 de março do corrente ano.

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