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Quarta-feira, Julho 28, 2021

Miguel Serras Pereira, 40 anos de poesia

Yvette Centeno
Licenciou-se em Filologia Germânica, e e doutorou-se com uma tese sobre A alquimia no Fausto de Goethe. É desde 1983 Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde fundou o Gabinete de Estudos de Simbologia, actualmente integrado no Centro de Estudos do Imaginário Literário.

Continuo a ter ao meu lado a obra de Miguel Serras Pereira, edição em branco, muito elegante, evocando as mais antigas da Ática, onde descobri Fernando Pessoa e publiquei o meu primeiro livro. Sempre gostei de capas assim, lisas, que se fechavam sobre o que iria lá dentro, e o branco não deixava adivinhar.

Fiel a esta escolha, de que no branco se esconde todo o mistério, e por vezes toda a revelação, Miguel não nos dá versos fáceis de ler, mas deixa em suspenso as nossas e suas interrogações.

Conheci o Miguel há muitos anos, num encontro de literatura e arte, em que pude também apreciar as suas grandes qualidades de tradutor. Agora reuniu 40 anos de produção poética e podemos ter o prazer de ler e estudar como foi evoluindo, ao longo dos anos que passaram. E de como a sua escrita ora se adensou ora se tornou mais simples e secreta, com uma falsa aparência de leveza, com versos batendo ao ritmo do coração. Sente-se a herança de Camões, em muitos dos seus poemas, sonetos de evocações amorosas, embora envoltos em roupagem moderna. Ou algo do Velho Marinheiro, com versos onde navegam viajantes, navios percorrem um imaginário simbólico que permite ao poeta escapar do quotidiano, que evoca por vezes sem desejar que volte a ser. Nada nos seus poemas permite que volte a ser o que foi. Interroga, mas fica A MEIO DO CAMINHO (p. 86) poema em que a contradição do destino permanece no ar. Como em Camões, o Destino comanda o sentimento, o Caminho, toda uma vida em suspenso.

Não há peso no que escreve e descreve: há sim, uma narrativa mais detalhada, com o passar dos anos, do carrocel de emoções. Contrastando com a contenção que podemos ver neste poema, que citei e agora transcrevo, e onde encontro uma espécie de anseio, de esperança, de que afinal mesmo o tempo pode ser revertido, e não apenas o espaço que em sonhos se percorre e já foi sublimado:

A MEIO DO CAMINHO

Mas dizer que me sais hoje ao caminho

e levas e desteces dia a dia

o fio dos meus passos e me firmas

tão desprendidamente tranquila

como se não tivesses vindo ainda

E tão ao desencontro do destino

que só podes ser tu quem vem assim

Que melhor modo de dizer o amor e o abandono de um amor que se deseja ainda?

Esta Amada bem poderia ser a de Rilke, nos Cadernos de Malte Laurids Brigge, a Portuguesa que amou infinitamente nas cartas que alguém em seu nome escreveu, e assim a imortalizou.

Não é escolhida ao acaso a epígrafe com que o livro nos confronta. É de Rimbaud, o das Illuminations, “Je suis un musicien…qui ai trouvé quelque chose comme la clef de l’amour”.

A muita leitura e a muita cultura de Miguel Serras Pereira transparece, subtil, nunca a denunciando, porque a fez sua, carne de sua carne, vivida, e sobre a qual nos deixa indícios que nos levem também a ler, para entender, ou descobrir (em cada nova leitura um novo eco, uma nova descoberta) e faz da sua obra algo de original, de precioso a que podemos voltar vezes sem conta.

Em A CORÇA

para que bicho mítico nos remete este poema, que depois, noutro poema, nos fala da “amada desconhecida” (p.115)?

Uma corça que morre aos pés do amado é certamente uma licorne, a da DAME À LA LICORNE, que pousou a cabeça no colo dessa mulher pura e entregue à solidão do seu amor guardado. Pode não ser a única, mas é a que naquele momento condensou toda a expressão do desejo assim manifestado:

É a última corça? É a primeira? E é a única?/ Transforma-a

uma flecha de água em rapariga/ e ao abrigo do vento atravessando a bruma / leva-me à orla da lagoa e deita-me contigo

No belo Jardim das tapeçarias da Dama, que julgo terem sido de Jean de Lyon (escrevi um post sobre essa autoria até hoje não assinalada) há um Éden terreal, povoado de um bestiário alquímico, mas a que falta a água, o elemento de que tudo nasce. Aqui o poeta pede que seja levado à lagoa, a água em que a Conjunção se pode dar. Completa, deste modo, com o seu poema, a “lição” que as imagens continham.

A figura da amada atravessa o livro, como sombra leve retirada de algum sonho em que corpo e alma se fundiam, obedecendo a uma pulsão secreta. Sombra que vai, não permanece:

A FIGURA DA AMADA

Ao princípio eram duas a figura da amada

mais incerto hoje o número se é de ti que se trata

neste coito estelar que nos ronda e assombra

Ao princípio eram duas a figura da amada

ou as duas só tu e o vazio da onda

Este poema pediria aqui uma das mais importantes imagens da alquimia medieval, do Rosarium Philosophorum (1550) em que a conjunção de anima e animus é feita na dissolução da água. Dois sublimados na união do Um. Ficará para uma próxima vez.

Sendo como é, um livro de balanço de escrita poética ao longo dos anos, é natural que a inocência pelo caminho se perca, e a escrita se torne mais reflexiva, mais dubitativa.

Não se cresce, na vida como na obra, sem perder a inocência.

Mas é-se enriquecido pela hesitação, pela interpelação, pela contemplação, (veja-se a longa lista de Haikai no meio do livro) e por uma nova capacidade adquirida de abertura às vozes do mundo, ao seu vozear, mais centrado ou confuso.

Miguel Serras Pereira, como grande poeta que é, dá atenção a essas vozes, enquanto se interroga sobre a sua, nunca posta de lado, que atravessam os seus 40 anos de produção, a que, espero, se irão seguir outros mais.

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