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Sábado, Outubro 16, 2021

O direito ao desejo após os 50

Christiane Brito, em São Paulo
Jornalista, escritora e eterna militante pelos direitos humanos; criou a “Biografia do Idoso” contra o ageísmo.  É adepta do Hip-Hop (Rap) como legítima e uma das mais belas expressões culturais da resistência dos povos.

Entre a viúva e a amante não soube escolher. Estava bem como esposa, mas o esposo decidiu retirar-se cedo sem cerimônia. Ataque cardíaco.

Guardar memórias e álbum de casamento não preencheu, mas impediu que vencesse a vontade de enlouquecer, mansa e crescentemente corrosiva por dentro.

Nem fóssil nem fatal, nem frígida nem fêmea, ficou no limbo do esquecimento. Contou-me com sopro gélido de embalsamada viva sobre a invisibilidade da mulher após os 50, de nada lhe servem agora opiniões, ninguém escuta. Mas eu ouvia e a enxergava do avesso, entranhas exatamente como as minhas e de todas.

Sem palavras de consolo, reconhecendo a vulnerabilidade da mulher que envelhece, fui à minha visita rotineira à ginecologista. Comentei o corrido com ela e não encontrei tampouco consolo para mim. A medicina não tem ainda esse remédio mágico.

A vida é cruel com mulheres depois da menopausa explicou minha ginecologista num tom de voz controladamente baixo. Desesperei, acreditei porque sempre confiei nela. Pensei: fosse Deus clemente mulheres deviam partir aos 40!

No entanto vivem mais que os homens, talvez como jogador que está perdendo e dobra apostas na ilusão de virar o jogo. Ou como quem tem tanto medo que paralisa a meio caminho entre o amor que aterroriza e a morte que enamora.

Que filme de horror é a vida para com as que povoam o mundo com suas almas e rebentos, ventres da desumanidade. A magnitude das sacerdotisas virou cinzas nas fogueiras da inquisição. O pós-vida é para bem poucas, as que sabem se arriscar e conviver com a solidão desde meninas. As que sabem criar saídas na fantasia, valem versos ou filhos, novos amores e relacionamentos, desidentificar-se do atrativo sexual que buscam e expõem na vida desde o nascimento. Imposição social.

Neste mês de junho de 2017, o SESC-SP lançou campanha contra as violências veladas que o idoso enfrenta. O psicanalista Contardo Calligaris, escritor e articulista da Folha de S. Paulo, abordou o tema sexualidade. É tabu. Desconhece-se a fundo o bem que poder amar de novo faz aos homens e mulheres. Tem que manter o coração aberto para o amor, que envolve o desejo físico como anelo de vida e todos os hormônios do bem que são despejados na circulação quando o gozo realiza-se.

Não é promiscuidade, é outra função do corpo que exige apetite, libido, assim como comer, dormir, dançar, cantar, acarinhar os seres amados.

Ah, o toque no idoso, só isso daria uma matéria longa, sobre o isolamento na velhice.

Aliás, o que é velhice…há médicos que definem o envelhecimento como doença crônica, pode ser combatida, não com plásticas de fora para dentro, mas com revoluções de pensamento e hábitos de dentro para fora.

O tema é muito atual e exige amplo debate, pois se nem temos clareza sobre a fronteira da meia-idade, alguns estão prorrogando esse prazo para os 75 anos.

Hoje, para terminar bem o dia, tive o prazer de ouvir o cineasta, também artista, escritor, etc,  Alejandro Jodorowsky, discursar longamente sobre a vida.

Tem 88 anos, vive um grande amor, que explodiu à primeira vista, há décadas. Acabou de lançar em circuito alternativo o longa-metragem biográfico “Poesia sem fim”.

A obra é coesa e também surreal, chacoalha os acomodados, mas não faz juízo final. A entrevista do cineasta deixou três conclusões para quem a ouviu: o sujeito tem que ter cabeça, para processar neuras e não para intelectualizar a vida, porque intelectualidade demais castra. E tem que ter sexo, porque é uma belíssima expressão da arte, da arte de saber viver.

Por fim, destacou o sexo com bondade e entendi muito bem, faço amor e envio ondas de bondade ao outro em cada olhar, carinho, beijo, beijinho. Tornei-me mais generosa com a idade porque sei que o amor que tenho para dar a outro começa e renova-se em mim, na doação, ninguém me tira.

E gosto de distribui-lo, bondosamente, na cama, na cozinha que mal frequento mas admiro quem o faz, na sala de visitas e na intimidade com os amigos que menos me comunico e mais me entendo no silêncio, com a filha que é uma deusa desafiadora e magnânima, milhões de passos à minha frente, com meus netos, dois em cada mão, pequenos tornando-se gente nas contradições dos tempos.

Nós também crescemos nessas condições e vamos lavorando e dilapidando, tirando pedaço para conviver com o imutável e trocando tudo o que pode ser trocado. Há que se reconhecer.

Minha luta atual continua sendo por uma sociedade democrática e justa, mas meu lado mudou, fico enfileirada entre os que levantam as bandeiras da inteligência (fora manipulação da mídia e outras chantagens sentimentais), liberdade e humor na maturidade, pelo charme eterno de quem vê o outro e deixa-se ver. Amor, eis tudo!

A autora escreve em Português do Brasil

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