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Quinta-feira, Julho 18, 2024

Nada de novo no Banco Mundial

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

Teve lugar há pouco mais de um mês a substituição efectiva de David Malpass por Ajay Banga como presidente do Banco Mundial. Esta troca ocorreu um ano antes da data prevista e tudo se terá ficado a dever a uma falta de concordância com a administração Biden no sentido de acelerar as reformas destinadas a mudar a forma como o Banco Mundial opera para garantir maiores empréstimos para combater a mudança climática e outros desafios globais.

Recorde-se que David Maplass, ex-economista-chefe do Bear Stern (banco comprado pelo JP Morgan em 2008) e ex-subsecretário de estado do Tesouro na administração Trump, foi por este escolhido para a presidência do Banco Mundial, lugar onde vinha a ser contestado pela polémica gerada em torno do não reconhecimento do papel dos combustíveis fósseis na crise climática.

Tal como o antecessor, o novo presidente do Banco Mundial também é originário de Wall Street, tendo sido CEO da Mastercard, do Citigroup Asia Pacific e vice-presidente da General Atlantic, uma importante empresa de private equity (gestão de fortunas), além de ser membro da Comissão Trilateral e do Council on Foreign Relations (confirmável aqui, seguindo o link, e aqui), currículo que o qualifica para a função e assegura que pouco ou nada mudará na direcção do Banco Mundial.

Recorde-se que esta instituição foi criada, tal como o Fundo Monetário Internacional (FMI) na sequência da Conferência de Bretton Woods (sobre esta Conferência e o Acordo que dela resultou ver o artigo O ESGOTAMENTO DE BRETTON WOODS aqui no TORNADO) que definiu, ainda antes de terminar a guerra, os contornos da economia mundial no pós-guerra, assegurou a preponderância do dólar norte-americano como moeda internacional de pagamentos e criou dois organismos – o FMI e o Banco Mundial – para garantirem as condições de financiamento (o primeiro para as necessidades de tesouraria ou curto-prazo e o segundo para as de investimento ou médio/longo prazo), algo em que falharam completamente.

Como o tempo tem demonstrado, as restrições e as condições impostas aos empréstimos do FMI e do Banco Mundial – orientadas para obrigar os países a adoptarem políticas económicas neoliberais (privatizações, desregulamentação, reduções de tarifas e cortes nos serviços sociais) que contribuem enormemente para o aumento da desigualdade na distribuição da riqueza, a par com os princípios do ajustamento estrutural (nome pomposo para designar a fragmentação e a fragilização dos tecidos económicos e sociais dos países sujeitos àquelas intervenções) – e a necessidade do seu rápido reembolso, fortemente penalizadora de uma consolidação económica de longo prazo e contínua fomentadora de novos endividamentos, são o oposto do principio gizado em 1944, em Bretton Woods, onde era atribuído ao FMI a função de apoiar a reconstrução do sistema monetário internacional, deixando ao Banco Mundial a função de erradicar a pobreza extrema e a construção de uma prosperidade geral partilhada.

Talvez esta deriva neoliberal tivesse sido menos fácil se tivesse vingado a proposta defendida em Bretton Woods pelo inglês John Maynard Keynes, que preconizou a criação de uma moeda de reserva internacional, em lugar do uso do dólar norte-americano, e uma maior regulamentação para o comércio mundial, o que talvez pudesse ter criado uma ordem económica mundial mais equitativa do que a que surgiu, mas garantidamente menos favorável aos interesses norte-americanos.

A opção escolhida, defendida pelo alto representante norte americano Harry Dexter White, explica cabalmente que os sucessivos responsáveis por estes organismos sejam invariavelmente oriundos da “fileira Wall Street” e essa característica seja exibida como principal factor diferenciador para uma escolha que se deveria orientar por outros critérios que não os da estrita obediência à cartilha neoliberal ou o dos lucros alcançados mediante o recurso a técnicas puramente especulativas.

Não se estranhe por isso que o FMI e o Banco Mundial estejam a ser lentamente substituídos por instituições de crédito chinesas – nomeadamente o Banco de Investimento Asiático para as Infra-estruturas (sobre o AIIB, ver o artigo YUAN VERSUS DÓLAR aqui no TORNADO), criado em resposta à iniciativa ocidental de impedir o aumento da influência chinesa nas grandes instituições financeiras mundiais –, menos monolíticas e que por enquanto não estarão a impor as mesmas restrições nas suas linhas de crédito, política que estará a levar muitos dos países em vias de desenvolvimento a procurarem o AIIB em alternativa aos tradicionais FMI e Banco Mundial e a contribuir para o sentimento de fragilidade e insegurança norte-americano a que a administração Biden procura responder com o agravamento das tensões político-militares com Pequim.

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