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Terça-feira, Janeiro 18, 2022

A União Europeia e o Dodó, a feliz galinha gorda que se extinguiu sem lutar

Carlos de Matos Gomes
Militar, investigador de história contemporânea, escritor com o pseudónimo Carlos Vale Ferraz

Numa recente entrevista ao ‘The Economist’, o presidente francês Emmanuel Macron considerou a NATO em coma cerebral e que UE está à beira do precipício e enfrenta o risco de “desaparecer geopoliticamente”.

Disse que o rei vai nu. As reações foram as esperadas. Eh bien! Voila, Madame la Marquise, Tout va très bien, tout va très bien. Tudo vai bem para as marquesas alemãs. A chanceler Merkel considerou-as radicais e a nova presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, reivindicou o papel da NATO como a aliança de defensa mais poderosa do mundo. São duas visões antagónicas do papel da Europa no mundo.

A União Europeia foi sempre vista por Washington como uma tentativa de escape da Europa do seu domínio e, no ponto em que se encontra, ela é o resultado de tentativas suaves de a Europa sair do abraço de urso dos Estados Unidos após a derrota na II Guerra Mundial. No seio da União, em todas as suas configurações anteriores, existiram sempre estados que pretenderam a autonomia e outros que pretendiam e pretendem a submissão, designada como aliança preferencial. Este último foi o papel do Reino Unido e os alargamentos a martelo a Leste que promoveu tiveram por finalidade aumentar o peso dos estados com interesse em ligações especiais aos EUA. A Alemanha parece ter assumido esse papel e a escolha da subalternidade.

A raiz dos problemas da União Europeia é a definição do que pretende ser: ou o que tem sido no pós-guerra e até agora, um espaço político, militar e económico subsidiário dos Estados Unidos, um anexo dos vencedores; ou impor-se como um espaço autónomo, um ator no grande jogo dos poderes mundiais que se trava entre os Estados Unidos, a Rússia e a China. Se prefere os riscos e os custos de ser lobo, ou a comodidade de ser um cão de companhia.

Mais do que preocupar-se com os outros poderes, a Europa, a União Europeia, tem de se definir a si mesma.

Os grandes impérios, como os grandes espaços de domínio, vivem da energia dos seus povos e definham quando essa energia se esgota. Assim, ou os europeus entendem que são portadores de uma civilização e de um modo de vida que querem preservar e expandir, e devem criar os meios para o impor, ou entendem que já esgotaram o que tinham a dar ao mundo e a Europa definhará como tantos impérios definharam, como definharam as civilizações da Mesopotâmia, as no Norte de África, os impérios romano, espanhol e o inglês.

Na realidade a União Europeia não existe a não ser como um mercado e um espaço de disputa. A atual União Europeia está como os antigos galeões carregados com tesouros, mas desarmados e à mercê dos piratas.

Se olharmos para o mapa, a Europa da União Europeia e da NATO está cercada de conflitos para os quais pouco ou nada contribuiu, mas de que sofre as consequências: a Ucrânia com a Rússia, a Turquia com a Síria, Israel contra o Irão e a Síria, o Iraque, os países do Magreb, a Líbia em primeiro lugar. Até no Afeganistão a Europa se viu envolvida! Que interesses estão em jogo e que vantagens tem obtido a Europa nestes conflitos: Refugiados! Ameaças à sua estabilidade política, despesas colossais a pagar para não receber refugiados pelos quais, com exceção dos vindos através da Líbia, não é a principal responsável.

O que vemos é uma União Europeia à mercê de qualquer poder. Uma União Europeia que não dispõe dos três pilares do poder atual: Não é uma potência nuclear. Não possui armas nucleares nem lançadores de terra, mar e ar. Também não é uma potência espacial, não dispõe de satélites militares, hoje determinantes em qualquer conflito, finalmente não dispõe de sistemas autónomos de tecnologias de informação, redes e tratamento de dados.

Da União Europeia se pode dizer que está como dodó (nome científico: Raphus cucullatus), uma ave da família dos pombos, que foi endémica nas ilhas Maurícias no Oceano Índico, a leste de Madagáscar, gorda, mas incapaz de voar e de se defender, facilmente caçada para servir de alimento aos marinheiros, até ser extinta. A questão essencial que se coloca aos europeus é a de quererem ser uma espécie comestível e sem defesas, que será extinta em pouco tempo, ou se se armam para resistir.

Que relação tem tido a Europa e a União Europeia com o Estado Suserano, os Estados Unidos? A de se sujeitar a que estes lhe exijam que pague mais pela sua segurança contra ameaças que eles causaram, a técnica dos grupos mafiosos de provocar distúrbios para vender segurança, aumento de taxas de importação de produtos, imposição de compra e utilização das suas tecnologias de informação e do seu armamento de alta tecnologia e, por fim, fecho de fronteiras para que nem um refugiado entre no castelo do império!

Qual tem sido a posição da Rússia e da China a esta União Europeia que eles não consideram como uma entidade do seu nível? A atitude inteligente de aliciamento, aproveitando a brutalidade com que o suserano trata a Europa. Oferecendo cooperação em troca de agressão. Displicência. A Rússia vende gás e estabelece acordos militares com os vizinhos da Europa e a China vende eletrónica, compra empresas e substitui a Europa em África. A China e a Rússia aliam-se para projetos espaciais e para desenvolverem sistemas alternativos aos dos Estados Unidos, caso da geolocalização (GPS) e da sociedade para pagamentos interbancárias, SWIFT, entre tantos.

O risco que ameaça a Europa é o da morte após uma mais ou menos longa agonia da civilização que aqui desenvolvemos, a civilização que tem a sua pedra base em Platão. A civilização da República, que separou os três poderes, o executivo, o legislativo e o judicial, que separou a religião do estado, a civilização que primeiro colocou em causa a escravidão, que mais longe foi no direito de igualdade das mulheres, e também no conceito de segurança social, com a instauração de serviços públicos de saúde, de educação, de previdência. A civilização que tem como lema Liberdade, igualdade, fraternidade. Com todas as limitações e maus tratos que estes valores têm sofrido, esta é a civilização que está em risco.

E está em risco não por ameaças externas, mas por ameaças internas. A primeira e a mais importante, a de os europeus não estarem de acordo em que pretendemos viver no nosso mundo e que queremos defendê-lo. Os ingleses optaram por assumirem sem ambiguidades a integração nos Estados Unidos, a Alemanha das senhoras Merkel e Von der Leyen prefere o papel de chefe do pessoal menor e de guarda às zonas de serviços do império.

A análise de estratégias refere muitas vezes os interesses e os meios e até o modo de fazer, de realizar ações, fazer o quê, para quê, contra quem, com que meios. Esquece normalmente o elemento essencial: a Vontade. Queremos verdadeiramente lutar pela Europa e pelos seus valores?


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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