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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

“Nós temos que ser a luz para os demais, não uma obscuridade”

Maria do Céu Pires
Doutorada em Filosofia. Professora.

Descendente do grupo Quiché-Maia, Rigoberta Menchú nasceu em Uspantán, na Guatemala, em 1959, filha de um casal de camponeses activistas pelos direitos dos povos indígenas, nomeadamente o direito à terra. O seu pai, Vicente Menchú, um dos fundadores do Comité da União dos Camponeses foi preso e torturado, acabando por ser morto pelo exército. A mãe e o irmão foram também raptados e assassinados na sequência da forma brutal como o governo reprimiu todos os suspeitos de oposição à sua política. A chamada “política de terra queimada” levada a cabo pelos militares nos anos 80 foi responsável pelo incêndio de aldeias, pelo massacre de crianças e de mulheres e pelo exílio forçado (cerca de um milhão de pessoas, na sua maioria, índios maias). É precisamente em 1981 que também Rigoberta Menchú se vê obrigada a deixar o seu país e procurar refúgio no México, onde prosseguiu o trabalho em defesa dos direitos das mulheres e dos povos indígenas. Como a própria refere: “Era uma mulher militante na causa da justiça. Durante doze anos não tive casa própria nem família.”[1]

Em 1992 recebeu o prémio Nobel da Paz, sendo designada embaixadora da Boa-Vontade da UNESCO no ano seguinte. Que fez Rigoberta Menchú para merecer tal distinção? Na atribuição do Nobel consta a seguinte fundamentação: em reconhecimento pelo seu trabalho a favor da justiça social e pela reconciliação étnico-cultural baseada no respeito pelos direitos dos povos indígenas.” [2]

Activista dos Direitos dos Povos Indígenas na Guatemala, Rigoberta Menchú começou a trabalhar desde a infância na colheita do café e, muito cedo, se envolveu na luta pela justiça, denunciando o domínio e a repressão sobre a sua comunidade desde os tempos da colonização até à actualidade. Conviveu desde muito cedo com o problema da pobreza, da guerrilha e da repressão o que contribuiu, juntamente com a formação católica desde a adolescência, para moldar o seu carácter de “guerreira” da paz. O seu crescimento como pessoa é inseparável da formação de uma forte consciência social e também de uma vincada consciência ecológica. Por isso, pode dizer-se que a necessidade de paz, de justiça social, de respeito pela natureza e de igualdade para as mulheres, são os traços essenciais do seu combate. Este pode situar-se claramente na dupla vertente de exigência de reconhecimento (da identidade de um povo) e simultaneamente de justiça (redistribuição).

Rigoberta Menchú criou uma fundação com o mesmo nome que se dedica a promover acções relacionadas com a educação e com o desenvolvimento e se orienta pela inter-relação entre justiça/equidade/desenvolvimento/democracia/respeito pela identidade. Para além disso, fundou um partido político cuja acção é direccionada para a defesa dos povos indígenas da Guatemala de modo a que tenham “voz” nas instâncias de decisão política do país. Tem alguns livros publicados, de que se destaca “El vaso de miel”, livro infantil que reúne lendas maias sobre a origem do mundo.

[1] Fundação Calouste Gulbenkian: Rigoberta Menchú Tum, consultado em 25/11/17.

[2] The Nobel Pece Prize: The Nobel Peace Prize 1992, consultado em 25/11/17.

O título deste artigo é uma citação de Rigoberta Menchú

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