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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

“Uma estrangeira em Atenas”

Maria do Céu Pires
Doutorada em Filosofia. Professora.

“Uma estrangeira em Atenas”[1]

O que as mulheres pensaram, escreveram e fizeram ao longo da História é coberto com um enorme manto de silêncio, como se uma profunda neblina ocultasse parte da realidade, impedindo-nos de ter uma visão clara. E, quando se trata das sociedades antigas, mais densa é a sombra. Algumas vezes, o silêncio é quebrado apenas para passar uma imagem negativa e distorcida, à medida das representações sociais de um certo tempo histórico.

Aspásia de Mileto

Assim foi (é) com Aspásia de Mileto (470-410 a.C.). Através dos relatos de alguns contemporâneos, nomeadamente de Platão no diálogo Menexêno, sabemos que Aspásia foi sofista, mestre de retórica, e que pertencia à elite intelectual de Atenas. A sua actividade exerceu grande influência cultural e política em Atenas, nos finais do século V, o século de Péricles, de quem foi amante e teve um filho.

Nasceu em Mileto onde recebeu uma esmerada educação pois nas cidades jónicas o ensino era acessível também às mulheres e, desde jovem, manifestou interesse pela leitura de poetas e de filósofos, por exemplo, de Pitágoras. Em 450 a.C. mudou-se para Atenas onde residiu como estrangeira e fundou uma escola de filosofia que alcançou grande prestígio e tinha a particularidade de ser frequentada também por mulheres. Na verdade, Aspásia de Mileto para além da beleza física era dotada de grande inteligência e capacidade oratória, tendo vivido de forma pouco comum para a época, afirmando a sua liberdade e independência económica. Entre os seus interlocutores conta-se Sócrates e, embora não sejam consensuais, existem interpretações segundo as quais ela terá exercido alguma influência na opinião de Sócrates relativamente à igualdade entre homens e mulheres. De qualquer modo, como defende Amalia Gozalez Suarez na sua tese Lo feminino en Platon: “ Su figura pudo poner de manifiesto a Platón la capacidade de las mujeres quando eran educadas fuera de los estrechos limites de la instruccion feminina ateniense”.[2] Parece, pois, que Platão não terá sido indiferente a este exemplo. Aliás, Aspásia de Mileto e (no Banquete) são as duas figuras femininas a ter lugar nos diálogos platónicos.

Diotima de Mantinea

Sendo uma situação excepcional mas não única, a actividade pedagógica, cultural e política de Aspásia pode, de algum modo, ser integrada num “movimento” que, entre o século V e o século IV se desenvolveu em Atenas e que corresponde a um pensamento diferente sobre a situação das mulheres e a sua intervenção no espaço público. As peças de Aristófanes Lisístrata (cujo motivo serve de inspiração ao filme de Radu Mihaileanu “A fonte das mulheres” de 2011) e Assembleia de Mulheres são bom exemplo da existência dessa marginalidade.

Foi à margem das convenções sociais que Aspásia ensinou homens e mulheres e viveu a sua paixão pela cultura e pelo saber. Também por isso, enfrentou um processo com a acusação de “impiedade”. Aspásia não foi uma “mulher de Atenas” como as cantou Chico Buarque, foi, isso sim, e em todos os sentidos, uma estrangeira em Atenas.

[1] La bella bienvenida, Aspasia de Mileto (460 – 401 a.C.), consultado em 27/12717.
[2] Lo Femenino en Platon Amalia Gonzalez Suarez, p. 34, consultado em 27/12/17.

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