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Terça-feira, Outubro 26, 2021

O novo puritanismo

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

As guerras mais importantes são as guerras das ideias, e quando estas se perdem não há exército no mundo, por melhor equipado que esteja, por melhores soldados que tenha, que as consiga vencer no terreno.

Anne Applebaum é uma das mais conhecidas e influentes jornalistas ocidentais. Autora de obras de grande impacto sobre os crimes do regime soviético – entre elas um livro sobre o Holodomor, o genocídio soviético na Ucrânia dos anos trinta – e sobre o putinismo, de que foi uma das primeiras opositoras, Applebaum passou por um grande número de grupos de reflexão e de jornais de primeira linha.

O seu último livro – originalmente publicado a 23 de Julho de 2020 – foi considerado o melhor livro do ano por símbolos da imprensa institucional, como o Washington Post e o Financial Times, e decorre da visã consensual entre as nossas elites que faz da deriva populista direitista, de Putin, e finalmente de Trump, as razões para o que há de pior no mundo, e nomeadamente o ‘Crepúsculo da Democracia’, título da obra.

Li ocasionalmente Applebaum e, para além do seu óbvio talento literário, deparei-me com algumas boas análises de temas que sigo particularmente, como o dossier iraniano, sem prejuízo de diferenças de opinião profundas.

Há quase dois anos juntou-se à redacção do ‘Atlantic’, revista de reflexão e também jornal electrónico, cuja linha editorial se rege pelos mesmos padrões da mais conhecida imprensa institucional, sendo que deu a conhecer a 31 de Agosto a cópia avançada do artigo que deverá ser publicado na Atlantic de Outubro que intitula de ‘O novo puritanismo’ e a que dedico estas linhas.

E a razão primeira pela qual penso que este artigo de Applebaum merece que se lhe dê toda a atenção é, mais do que o seu conteúdo, o seu contexto, o facto de ele ser uma quebra profunda com toda a arquitectura ideológica do quadro institucional em que nos situamos, e de que o seu livro ‘Crepúsculo da Democracia’ a que fizemos referência é uma peça emblemática.

Os novos puritanos, como afirma no resumo que encima o artigo, são os guardiões dos ‘novos códigos sociais’ que ela considera estarem a mudar positivamente, mas que estão a ser impostos por julgamentos sumários e impiedosos, na verdade linchamentos populares como ela acaba por descrever com algum detalhe em várias partes do artigo.

O puritanismo, versão protestante da intolerância e fanatismo social que entre nós ficou mais simbolizado pela Inquisição, sobreviveu de forma mais autêntica nos EUA do que no Noroeste da Europa de onde é originário.

Comecei a entender que é ele que informa o politicamente correcto, a cultura woke, ou o despotismo do cancelamento, e que é no essencial uma cultura totalitária que nada tem de ‘progressista’, há mais de trinta anos, quando calcorreei pela primeira vez os EUA. Contudo, o substancial dossier de violação de direitos humanos que Applebaum expõe – tal como acontece nos relatos de violações de direitos humanos em países totalitários, por vezes mantendo o nome das vítimas anónimas – constitui um libelo acusatório, mesmo para mim, surpreendente e aterrador.

Para todos os que ainda não entenderam o que é aquela monstruosidade, recomendo vivamente a leitura do artigo de Applebaum.

E aterrador a tal ponto, que a consagrada autora de algumas das mais demolidoras críticas do Gulag se vê obrigada a esclarecer que, apesar de tudo, os EUA não são a China de Mao ou a União Soviética de Estaline – enfim; não há campos de concentração, desterro para o Alasca ou valas comuns para dissidentes, e o aparelho de Estado (ainda) não participa ou incentiva as perseguições – mas a existência de comités e processos secretos, linchamentos sumários de carácter, proibição da opinião dissidente, ou ausência de direitos de defesa, são comuns a todas essas realidades.

A autora mantém a ilusão das boas intenções das ‘normas sociais’ que estariam por trás desses processos, o que me faz lembrar aquelas primeiras reflexões dos dissidentes de organizações comunistas que vão invariavelmente nesse sentido: as intenções eram boas mas… Até se darem conta que as intenções são verbo-de-encher e o que é importante é o poder despótico sobre o semelhante coberto por uma retórica que pouco tem a ver com a realidade.

A autora faz questão de apontar para o facto de nem toda a esquerda se rever nesses processos e de eles serem também utilizados pela direita, considerações que partilho, embora não necessariamente pelas mesmas razões e nos mesmos termos, mas que é conveniente recordar quando mesmo o semanário Economist, na sua edição de dia 4 de Dezembro, faz capa com a deriva totalitária do que chama de ‘esquerda iliberal’, a propósito do saneamento de um jornalista do New York Times (e acolhido pelo Economist) por não ser suficientemente ortodoxo no seu ‘novo puritanismo’.

O Economist dá-se também conta nesse artigo que esta ‘esquerda iliberal’ para além de ser inimiga da liberdade é também pró-capitalista, embora não vá ao ponto de entender que ela tem a sua expressão máxima no oligopólio das empresas tecnológicas e que floresceu à conta da psicose pandémica.

Há já muito tempo que não me revejo no discurso institucional do ‘crepúsculo da democracia’ de Anne Applebaum. Putin, na tradição imperial russa (czarista ou comunista, a diferença não é grande) é um perigo para a liberdade, em primeiro lugar pelo facto de ter à sua disposição o maior arsenal nuclear do mundo, mas o seu conservantismo – como o de vários outros na Europa e no mundo – não traz ideologicamente nada de novo e não é qualquer crepúsculo da democracia mas antes a continuação do autoritarismo depois de falhada a conversão democrática.

Tão pouco o é o populismo de Donald Trump. As derivas populistas têm ciclicamente passado pelos EUA e têm permitido travar o poder indisputado das aristocracias tecnocráticas que tanto nos EUA como mais ainda em todas as outras chamadas democracias são parte essencial do poder.

O autoritarismo nos EUA é marcado pelo puritanismo, como a tradição soviética do asilo siberiano prolonga a czarista e o culto de Xi tem muito a ver com o dos imperadores chineses, mas estamos aqui no domínio que é menos importante para entendermos o que há de global e comum no real crepúsculo da democracia, que não é o que Applebaum descreve no seu livro mas sim o que ela agora descreve no seu ‘novo puritanismo’.

O que há de essencial que une os novos despotismos, aparentemente diferentes e irreconciliáveis, é o da obsessão com a imposição política de normas sociais de comportamento, quer sob o nome de Sharia no Jihadismo, quer como tabelas de pontos de correcção social com a chegada de Xi ao poder na China, quer como puritanismo, esquerda iliberal ou correcção política nos EUA e no resto do Ocidente. Ou seja, é o totalitarismo, porque não se limita a privar de liberdade política e submeter ao poder oligárquico do dinheiro, mas requer também a obediência a apertados códigos de conduta social.

As guerras mais importantes são as guerras das ideias, e quando estas se perdem não há exército no mundo, por melhor equipado que esteja, por melhores soldados que tenha, que as consiga vencer no terreno.

A administração Biden começou o seu mandato a fazer de Putin o seu grande inimigo público. A sua promessa de concentrar a sua força para confrontar a China é oca e demagógica, como se pode perceber pela colaboração com a China na imposição dos Taliban no Afeganistão, que passou pela debandada desse país fronteiriço com a China.

A política de apaziguamento e cooperação com o Jihadismo é total e sem salvaguardas, e isto é assim tanto com o programa nuclear iraniano como com os Talibã. O anúncio da ‘possível’ colaboração com os Talibã por parte do exército americano anunciado pelo General Milley, chefe do Estado Maior das Forças Armadas, que eu largamente antecipei a semana passada, é uma pequena amostra de onde nos leva a política americana que se deixou colonizar por este movimento de neopuritanismo.

Mas a resposta, repito-o, não é fazer um divórcio armado com os EUA, que é o que pretendem todos os inimigos do Ocidente, e isto por muitas as razões, a começar pelo facto de a Europa há muito ter perdido a vontade de combater.

A resposta é entender, analisar, debater, esclarecer, combater as negras ideias totalitárias independentemente do disfarce que usem, e naturalmente saudando aquelas figuras que, mesmo que por vezes tardiamente, se apercebem do monstro com que conviveram.

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