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Quarta-feira, Julho 17, 2024

O ano do coelho

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Convenhamos que o coelho é um animal mais simpático do que o dragão ou a serpente que se lhe seguem no calendário lunar chinês, e é talvez esta uma das razões para olhar o ano que agora começa como a oportunidade para tentar encontrar caminhos mais auspiciosos para o futuro.

Confundir desejos com realidades é consabidamente um mau princípio, mas tão pouco devemos perder de vista que as promessas podem por vezes ajudar por si mesmas à sua consagração na medida em que predispõem os que as fazem a agir de acordo com elas.

O ano do coelho foi festejado pela última vez em 2011, quando Xi não tinha ainda subido ao poder e quando era ainda razoável colocar como hipótese a progressiva liberalização do regime. Apesar da profunda derrota sofrida pelo totalitarismo no final do ano que passou – e que permite agora a tantos chineses voltar a celebrar o seu novo ano – a natureza do regime não se alterou, continuando, por exemplo, o encarceramento de jornalistas que cobriram a revolta popular contra o covidismo, continuando a suspeita de assassínio de dissidentes – incluindo aqui as minorias étnicas do Turquestão Oriental – para o comércio de órgãos vitais ou a sua utilização pela nomenclatura.

Tão pouco internacionalmente se observam quaisquer mudanças sérias de atitude, com as ameaças e provocações a Taiwan a prosseguir e com os choques nas fronteiras com a Índia recomeçaram. O distanciamento de Pequim perante a agressão de Moscovo parece ser mais ditado pelo cálculo do que pelos princípios, enquanto permanece a sua ambivalência perante os regimes despóticos da Coreia do Norte e do Irão.

A mudança de agulhas na diplomacia chinesa que parece ter seduzido Scholz parece mais um recuo táctico que qualquer mudança estratégica séria, como bem observa o canal de informação norte americano Rádio Liberdade.

Taiwan, onde também se celebra o ano do coelho, é a prova de que a cultura chinesa não é necessariamente sinónimo de despotismo. Mais do que a ancestral cultura chinesa, é a máquina do Partido Comunista que sustém a ditadura, e esta está apostada em não seguir os passos finais da máquina soviética que lhe serviu de inspiração. Posto isto, também para os comunistas chineses nem sempre é possível fazer com que as realidades se adaptem aos seus desejos.

A demografia chinesa entrou finalmente em maturidade, enquanto o final do confinamento levou à recuperação da sua economia, recuperação da qual se espera, de resto que venha a recuperação da economia mundial por arrasto, mas é pouco provável que a China possa vir a observar os ritmos de crescimento económico observados nas décadas passadas.

Há muitas incógnitas que pesam sobre o nosso futuro com implicações directas na forma como devemos encarar as relações com a China, as principais transcendem as nossas preocupações habituais e são mesmo de natureza existencial para a humanidade, como o sejam os perigos de catástrofe nuclear e o de a inteligência artificial passar de complemento a concorrência.

Os dirigentes políticos alemães mostram ao mundo que nada aprenderam com a agressão russa de há um ano. Multiplicam as promessas de aposta na defesa, na solidariedade com a Ucrânia, na necessidade de não olharem apenas para as oportunidades do negócio, mas a realidade é bem diversa, e no caso da China, é desavergonhadamente a inversa.

Especialmente desde o BREXIT, a Alemanha é o líder efectivo da Europa, e o seu jogo dúplice tende a ser repetido quer pelas instâncias comunitárias quer pelos seus parceiros europeus. A carta branca passada às autoridades chinesas só pode incentivar o pior por parte destas e quebra qualquer pretensão europeia de propor normas e valores de actuação ao mundo.

A China comunista, como a saga covidista provou, é capaz de se aliar ao fanatismo do dinheiro para pôr em causa o mundo aberto, e os direitos, liberdades e garantias que ele nos proporciona, mas como a mesma saga nos mostra são também os chineses que são capazes de lhe fazer frente.

Por tudo isto, convém que nos preparemos para o pior, mas que trabalhemos para o melhor, num mundo que tenha todos em conta, nos múltiplos calendários e referências, incluindo os calendários lunares, quer o ano do gato celebrado no Vietname, quer o do coelho celebrado, entre outros pela China.

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