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João de Sousa

Terça-feira, Outubro 4, 2022

O aumento da pobreza, os lucros exorbitantes das petrolíferas e da banca e um Governo apático

Eugénio Rosa
Eugénio Rosa
Licenciado em economia e doutorado pelo ISEG

A guerra, como os media prolongaram a guerra, as sanções económicas, a utilização da população civil europeia na guerra económica, a escalada de preços, a recessão económica, o aumento da pobreza, os lucros exorbitantes das petrolíferas e da banca e das receitas do Estado, e um governo apático.

Neste estudo, utilizando um estudo recente do FMI (julho de 2022), analiso os efeitos das sanções tanto para a Rússia como para a U.E., referindo-me ao relatório também recente da Amnistia Internacional que tanto enfureceu Zelensky e seus defensores, assim como as caraterísticas do ditador Zelensky utilizando para mostrar isso dados concretos bem como ao facto da Ucrânia não ser um Estado de direito. Analiso o beco em que caiu a U.E. devido à falta de visão dos seus dirigentes e como sair dele, e termino comparando os enormes lucros de grandes empresas com os aumentos de miséria das remunerações dos trabalhadores e das pensões dos reformados e dos aposentados

 

Estudo

A guerra, como os media prolongaram a guerra, as sanções económicas, a utilização da população civil europeia na guerra económica, a escalada de preços, a recessão económica, o aumento da pobreza, os lucros exorbitantes das petrolíferas e da banca e das receitas do Estado, e um governo apático.

Num dos primeiros estudos que divulgamos após a invasão da Ucrânia pela Rússia, chamamos a atenção de que os governos dos países da U.E. não deviam “brincar” (serem aprendizes de feiticeiro) com as sanções económicas, pois era uma arma de dois gumes, já que o efeito “boomerang” (ricochete) das sanções aplicadas à Rússia teria efeitos muito graves para a economia da U.E. e para a vida dos europeus. Muitos leitores criticaram-me pelo realismo das minhas afirmações chegando-me a acusar, por e-mail, de que estava do lado do agressor e, alguns até pediram para os retira da lista a quem envio os meus estudos, embora muitos mais se inscreveram (agora são 4800). Mas como cantava o poeta Adriano Oliveira “não tenho medo pois a verdade é mais forte que as algemas” Na altura o governo, os comentadores que dominam os media e jornalistas alimentaram a ilusão de que Portugal e os portugueses não seriam afetados pelas sanções porque as importações e as exportações da e para a Rússia eram reduzidas e o seu efeito para a economia e para os portugueses seria insignificante. Por ignorância ou deliberadamente “esqueceram” que vivemos numa economia globalizada, e que a eliminação das exportações russas do mercado mundial iria causar uma escalada de preços nesses mercados onde Portugal adquire esses produtos (o chamado “efeito borboleta” referido pelo cientista Edward Lorenz do MIT). E isto porque a Rússia é um dos principais exportadores mundiais de petróleo, de gás, de cereais, de pesticidas, etc. As consequências nosso alertas na altura estão à vista e sentidas por todos os europeus e mais pelos portugueses cujo rendimento médio é cerca de metade do da U.E. Os efeitos das sanções para a população civil europeia e, nomeadamente, para os mais pobres, e para a economia são dramáticos Os jornalistas ao divulgarem noticias sem confirmar se eram verdadeiras ou falsas, ou se eram parciais, ou se viam cenários verdadeiros ou previamente preparados pela partes envolvidas na guerra (só tinham acesso a eles horas ou dias depois quando elas autorizavam e só viam o que elas queriam) pois numa guerra tudo isto são armas utilizadas (e os jornalistas devem estar prevenidos para não serem enganados) condicionaram a opinião publica e, esta, as decisões dos lideres fracos da U.E. o que pode contribuir para prolongar a guerra. O papel dos media nesta guerra é um verdadeiro “case study” que merece uma tese de doutoramento.

UM ESTUDO RECENTE DO FMI SOBRE OS EFEITOS DAS SANÇÕES IGNORADO PELA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Na pág. 5 de um estudo divulgado pelo FMI em julho de 2022, portanto muito recente, com o título “ATUALIZAÇÃO DAS PERSPE TIVAS DA ECONOMIA MUNDIAL – um panorama sombrio e mais incerto” sobre os efeitos das sanções lê-se o seguinte: “Estima-se que a contração da economia russa durante o 2º trimestre foi inferior ao esperado (pelos governos, entidades e media ocidentais, acrescentamos nós) já que as exportações não energéticas e de petróleo resistiram melhor que o previsto. Para além disso a procura interna também deu provas de resiliências, devido à contenção dos efeitos das sanções sobre o setor financeiro nacional e o enfraquecimento do mercado de trabalho não foi tão significativo como se acreditava. Noutro sentido, as consequências da guerra para as principais economias europeias (e também para os EUA, acrescentamos nós, pois já entrou em recessão) foram piores do que o esperado, devido ao aumento dos preços da energia e à perda de confiança dos consumidores e a um menor dinamismo da indústria causada pelos persistentes problemas na cadeia de fornecimentos e pelo aumento dos preços dos produtos consumidos”. Portanto, o que está a acontecer com as sanções à Rússia é precisamente o contrário do previsto pelos governos e vaticinado pelos media ocidentais. Quem o afirma é o insuspeito FMI, que não pode ser acusado de ser amigo de Putin.

Mas as previsões “sombrias” do FMI para as economias ocidentais se a guerra e as sanções continuarem não ficam por aqui. Num cenário mais grave, também considerado pelo FMI (págs. 13 e 14 do seu estudo) “ o impacto na Europa ainda seria maior” já que o choque teria um impacto generalizado causado pelos preços mais elevados das matérias primas e condições financeiras e monetárias mais restritivas em quase todos países, embora de diferentes graus, …. O que implicaria um crescimento regional quase nulo”. E a recessão económica atingiria certamente muitos países europeus inclusive Portugal pois no 2º trim.2022, o “crescimento já foi negativo” e se isso acontecer no 3º trim.2022 Portugal entrará em recessão económica, o que aumentará o atraso do país, com consequências sempre dramáticas a nível de desemprego. Espero que aqueles que me atacaram por dizer que isto ia acontecer agora compreendam a verdade da realidade: Aos leitores mais interessados aconselho a leitura do documento do FMI (tem a versão espanhola, francesa e inglesa), para não serem enganados pelos media.

A ESCALADA DE PREÇOS CAUSADA PELAS SANÇÕES ESTÁ A TORNAR INSUSTENTÁL A VIDA DOS PORTUGUESE, NOMEDAMENTE DA CLASSE MÉDIA E DE BAIXOS RENDIMENTOS, E TAMBÉM O FUNCIONAMENTO DAS EMPRESAS

A guerra na Ucrânia, mas fundamentalmente as sanções(não se caia na cegueira de pensar que a culpa é apenas da guerra e se esqueça a razão principal que são as sanções), a causa da escalada de preços. No entanto, o acordo para exportação dos cereais da Ucrânia é a prova que há uma saída para o beco em que a U.E caiu. A este propósito interessa referir mais uma vez a parcialidade do jornalismo e dos comentadores dos media em Portugal que, quando falam do acordo, apenas referem a exportação de cereais ucranianos, “esquecendo-se” que a Rússia obteve, também como contrapartida, a facilitação das suas exportações de cereais e fertilizantes como noticiou o próprio EURONEWS que os próprios leitores podem confirmar (mas assim vai a “verdade jornalista” no nosso país). A multiplicação das sanções `Rússia, pelo peso que ela tem nos mercados mundiais, está a determinar uma escalada de preços e a causar na Europa, e também nos EUA, uma situação insuportável para a vida dos cidadãos e, em particular, dos portugueses e para o funcionamento da economia. O gráfico 1 com os últimos dados do INE confirma a dimensão do problema face a passividade do governo que nada faz para minorar os seus efeitos.

Entre dezembro de 2021 e dezembro de 2022, estima-se que inflação aumente em Portugal 12,2% (a anual 8,4%) e a subida nos preços de energia que afeta os consumidores domésticos e as empresas, pois cerca de 40% da eletricidade produzida é consumida pela indústria; repetindo, estima-se que as subidas dos preços na energia atinjam este ano 38,6%. Esta situação a manter-se, e os governantes europeus já afirmaram que a guerra e as sanções se manterão por muito tempo, é insustentável tanto para a população como as empresas.

Em 2022, os portugueses vão sofrer uma quebra dramática no seu poder de compra e nas suas condições de vida já muito baixas. Este ano, o aumento das remunerações dos trabalhadores da banca, incluindo do banco publico (CGD) o que é uma vergonha, foi inferior a 1%; o dos 734.000 dos trabalhadores da Função Pública foi somente de 0,9%; o dos trabalhadores do setor privado (cerca de 3.600.000) em média, a subida é de 2,2% na remuneração média bruta total, segundo os últimos dados divulgados pelo INE; e o aumento das pensões de cerca de 3.000.000 de reformados e aposentados variou entre 0,24% e 1%. Estima-se que a inflação anual este ano atinja os 8,4%, que é enorme, e não se está a referir à inflação homóloga pois a perda de poder de compra dos portugueses seria ainda muito maior porque esta deve atingir em 2022 cerca de 12,2%.

 

A U.E. ESTÁ REFÉM DA GUERRA NA UCRÂNIA E DAS SANÇÕES QUE APLICOU À RÚSSIA E É A POPULAÇÃO CIVIL EUROPEIA, NOMEDAMENTE A MAIS VULNERÁVEL, QUE ESTÁ A SUPORTAR TAMBÉM OS CUSTOS DESTA SITUAÇÃO

Como mostramos a multiplicação das sanções está a arruinar a economia europeia e vida dos europeus. E como concluiu o FMI, os efeitos na economia do agressor têm sido muito inferiores aos previstos pelos governos ocidentais. O acordo para a exportação dos cereais da Ucrânia, mesmo estando os dois países em guerra, veio abrir uma porta que poderá ser utilizada para a U.E. sair do beco em que se meteu devido à ingenuidade e à falta de visão estratégica Tudo dos seus governantes. A Rússia autorizou a exportação dos cereais da Ucrânia em troca do levantamento dos obstáculos à exportação dos cereais e fertilizantes(ver EURONEWS), que os jornalistas têm ocultado à opinião publica certamente por terem recebido ordens nesse sentido, porque não posso acreditar que eles não estejam interessados em relatar a verdade. Zelensky já veio pedir um acordo semelhante para poder exportar metais, a que a Rússia respondeu que daria o seu acordo se fossem levantados os obstáculos criados pelos países ocidentais à exportação dos seus metais. Está aqui uma via aberta que devia ser explorada para que U.E. saísse o beco em que os governantes a meteram (falta de visão), e que está a ter consequências dramáticas para a vida dos europeus. A probabilidade de encontrar uma solução negociada que ponha fim a esta guerra que está a destruir um povo e um país e também toda a Europa, com consequências dramáticas para outros povos do mundo, certamente seria mais fácil de encontrar. E não se pense nem se procure iludir que a independência energética da U.E. é possível a curto prazo. Isso é uma quimera, pois levará muito tempo e terá custos elevados Putin é um ditador e um autocrata que aproveitou como pretexto o cerco da Rússia pela NATO como mostrei no estudo 9/2022 de 6 de março para invadir a Ucrânia, disso ninguém tem dúvidas. Mas é importante também não esquecer que Zelensky é igualmente um ditador, apesar da imprensa ocidental o procurar transformar num “herói”, e que a Ucrânia não é um Estado de direito, onde os direitos humanos são respeitados. E não me venham com a “treta” que estou a pôr em pé de igualdade o agressor e agredido para me calarem de dizer a verdade.

A prova de que Zelensky é também um ditador, é o facto de ter ilegalizado 11 partidos perante o silencio cúmplice dos governos e media ocidentais, que utiliza o seu próprio povo como escudo, como consta do relatório da amnistia internacional pois permite a instalação do exército ucraniano em áreas residenciais para atacar os russos (no seu relatório a Amnistia Internacional afirma que “as táticas de combate ucranianas põem civis em risco, acusando o exercito ucraniano de montar bases militares em zonas residenciais, nomeadamente em hospitais, e em escolas e lançar ataques a partir daí , VISÃO 6.8.2022) dando assim o pretexto aos russos para bombardearem esses edifícios causando elevadas mortes de civis que depois é aproveitado por Zelensky nos seus discursos diários de propaganda. E quando é denunciado por uma entidade que não pode ser acusada de defender PUTIN como é a AI tenta desacreditá-la sempre com o mesmo argumento: “ou apoias tudo que faço ou então estás com Putin, ou fazes o jogo de Putin”. Mesmo a nível dos seus apoiantes as demissões feitas por ele multiplicam-se desde embaixadores, até à procuradora-geral da Ucrânia e ao chefe máximo de segurança, seu amigo de longa data. E isto mostra bem o desespero a que chegou que vê inimigos e amigos de Putin em toda a parte. E utiliza tanto a verdade como a mentira e a duplicidade que são armas de guerra para condicionar a opinião publica (interna e mundial) e os governos. Um ex.: durante meses Zelensky pressionou os governos ocidentais, de uma forma arrogante agressiva e prepotente, como mandasse neles, para que proibissem a importação de gás russo. Quando a Rússia lhe “fez a vontade” e aos governos ocidentais reduzindo a venda de gás aos países da U.E., veio logo dizer que era um ato terrorista russo, e a U.E. e a NATO também acusaram a Rússia de não respeitar compromissos. Então querem ou não gás russo? E os governos da U.E., a começar pela presidente da Comissão Europeia, aceitam e dão cobertura às chantagens de Zelensky, desacreditando-se perante a opinião publica. Este contexto internacional já muito grave foi ainda agravado pela insensibilidade e arrogância caraterística do EUA (Pelosi) que reacendeu e aumentou o conflito com a China criando mais riscos.

 

LUCROS E RECEITAS DE IMPOSTOS EXORBITANTES CONSEGUIDOS À CUSTA DAS DIFICULDADES DOS PORTUGUESES

O quadro 1 que inclui apenas 10 empresas, mas já dá bem uma ideia dos enormes lucros que as grandes empresas estão a conseguir com a crise, incluindo o banco do Estado que tem um comportamento igual aos outros, que paga aos depositantes taxas de juro de miséria e os obriga a pagar múltiplas comissões

Quadro 1 – Os levados lucros obtidos pelas grandes empresas no 1º semestre de 2022, ou seja com a crise

No 1º semestre de 2022, os lucros destas 8 grandes empresas somaram 3.078,2 milhões €, ou seja, mais 76,3% do que em igual período de 2021, enquanto os aumentos dos salários e das pensões no nosso país, em 2022, variaram entre 0,24% e 2,2% como mostramos anteriormente. São lucros verdeiros obscenos quando comparamos com os aumentos das remunerações e pensões este ano e face ao alastrar da pobreza no nosso país. E isto perante a apatia e a indiferença do governo e do presidente da República que nada fazem de concreto para minorar a situação. O comportamento do governo não se diferencia das grandes empresas que estão a tirar enorme proveito da crise perante a passividade daquele. Apesar das enormes dificuldades que enfrentam as famílias e as empresas, só no 1º sem.2022, o Estado arrecadou 22.980,2 milhões € de impostos, ou seja, mais 5.262,3 milhões € (+29,7%) do que em igual período de 2021, sendo mais 614,2 milhões € de IRS e 2131,6 milhões € de IVA. Uma parcela da enorme receita de IVA que, no 1º sem.2022, atingiu 10.30,2 milhões € resulta também de impostos sobre bens alimentares (a taxa varia entre 6% e 13%) que mesmo os pensionistas têm de pagar embora a pensão média esteja abaixo do limiar da pobreza. Mas é aproveitando-se também dos que vivem na miséria e não alterando os escalões e taxas do IRS para reduzir o enorme aumento de IRS de Passos Coelho/Portas/Vitor Gaspar sobre trabalhadores e pensionistas que o governo consegue reduzir o défice de que se gaba em Bruxelas, o que devia era envergonhar-se disso pois isso está a ser conseguidos à custa da imposição de enormes sacrifícios às famílias e às PME portuguesas.


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