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Domingo, Fevereiro 25, 2024

Onde andam os veículos eléctricos?

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

Muita gente vê nos veículos eléctricos uma resposta às mudanças climáticas e a subida do preço dos combustíveis tem feito aumentar o número de interessados, mas a inflação e a escassez de viaturas novas estão a dificultar essa transição, tanto mais que se continuam a ouvir argumentos favoráveis à flexibilização das regulamentações sobre a perfuração de petróleo e gás como a solução para uma rápida redução dos preços dos combustíveis. Este aumento dos preços até poderá ajudar a viabilizar o futuro eléctrico pelo qual se anseia, mas as notícias que chegam do sector automóvel e o prenúncio da recessão económica que se adivinha deixam antever que o futuro próximo revelar-se-á incerto e difícil.

Os veículos eléctricos ainda são muito caros para a maioria das famílias (mesmo nos países mais ricos) e a actual instabilidade nas cadeias de abastecimentos significa uma redução na produção, com alguns fabricantes a alertarem para longos tempos de espera para comprar os seus modelos mais populares e este efeito a ser de pronto repercutido no aumento do preço das viaturas usadas. Enquanto isso, as propostas políticas para ajudar a aliviar a escassez de oferta ou tornar os carros eléctricos mais acessíveis primam pela ausência ou pela ineficácia, com o subsídio destinado ao apoio para a aquisição de carros eléctricos a esgotar nos primeiros três meses. É que perante cenários, como o do reafirmado interesse na substituição das motorizações a combustíveis fósseis e o da escassez geral de microprocessadores, os poderes públicos continuam a atribuir fundos para a indústria automóvel sem os fazerem acompanhar da imposição de normas e de políticas industriais orientadas para uma adequada massificação dos seus produtos mediante a redução dos custos (nomeadamente através da redução da parafernália de engenhocas de discutível utilidade prática que aumentam o recurso a microprocessadores e apenas encarecem o preço final ou o da uniformização das baterias) e da sua repercussão directa sobre os preços de venda.

Com os combustíveis a atingirem preços nunca vistos aumentou o interesse em veículos movidos a combustíveis alternativos e a quota de veículos eléctricos e híbridos plug-in no mercado automobilístico mais que duplicou desde o início do surto da Covid-19. No entanto, apesar do crescente interesse, os potenciais compradores de um veículo eléctrico enfrentam já o grande obstáculo que é o de encontrar um para comprar. A escassez global de microprocessadores e minerais raros necessários para a fabricação de automóveis desencadeou uma enorme crise de oferta de viaturas novas que atingiu em especial o segmento eléctrico, devido à sua maior dependência de sistemas electrónicos (um veículo eléctrico utiliza cerca do dobro dos chips de um carro com motor de combustão interna).

Depois vem o factor o preço, com um veículo eléctrico básico, como o Renault Zoe, a custar cerca de 15.000 € a mais do que um carro equivalente movido a gasolina, como o Clio do mesmo fabricante; diferença de preço esta que é significativamente maior do que os 5.000 € que se estima que os proprietários de veículos eléctricos poderão economizar em combustível e manutenção ao longo de um período de 10 anos.

A par das limitações impostas pelos elevados custos de aquisição e pela redução na oferta, outra importante limitação na mudança para os veículos eléctricos é a incerteza sobre os meios e os métodos de carregamento das baterias, com especial destaque para a ainda limitada infra-estrutura de recarga e para a sua desequilibrada distribuição geográfica, factor que aumenta a penalização das regiões periféricas, tanto mais que estando aquelas redes dependentes de interesses empresariais dificilmente responderão atempada e adequadamente às necessidades de outros utilizadores que não os dos grandes centros populacionais.

Apoiar as empresas e as famílias no processo de conversão para os veículos eléctricos deverá ser o meio mais eficaz para combater os altos preços dos combustíveis a longo prazo e esse esforço não se pode limitar a um pequeno incentivo no momento da aquisição (provavelmente a forma mais irrelevante de apoio, já que a primeira vaga de compradores sairá da franja dos rendimentos mais elevados); os mais efectivos dos contributos poderão muito bem ser o da infra-estruturação de uma rede nacional de carregamento, geograficamente bem distribuída e a todos acessível e a conversão de carros com motores de combustão para motorização eléctrica, alternativa que já existe (ver a título de exemplo a Evolution) mas a custos exorbitantes (mais de 17.000 € para converter um veículo do tipo citadino e mais de 27.000 € para uma berlina) e apenas oferece autonomias reduzidas (não mais de 300 km). Esta solução, tecnicamente viável e relativamente simples, apresenta ainda a vantagem adicional de potenciar a reciclagem das viaturas usadas, mas carece de vontade política para a elaboração de regulamentação do Código da Estrada, como existe para os veículos a GPL, certificação das empresas que procedem às transformações, homologação de kits e agilização de processos de legalização no IMT (Instituto de Mobilidade e Transportes), o que à partida é logo um obstáculo de monta na realidade que bem conhecemos.

Apesar das notícias sobre o aumento das exportações de carros eléctricos da China, a transição para este tipo de veículos ainda deverá demorar alguns anos até adquirir uma dinâmica própria – mesmo quando se diz que impulsionadas pela Tesla as vendas mundiais de eléctricos cresceram 108% em 2021 ou que, mais recentemente, a fabricante chinesa BYD tenha ultrapassado a Tesla nas vendas globais de veículos eléctricos, – ainda que esta deva beneficiar amplamente com a redução dos custos de produção, a multiplicação da oferta de novos modelos e o desenvolvimento e instalação de estações de carregamento mais rápidas.

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