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Quinta-feira, Julho 7, 2022

O Brasil chora a morte de Nelson Sargento

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

O artista é símbolo da resistência ao ódio e ao preconceito.

A cultura brasileira está de luto. Morreu nesta quinta-feira (27), o baluarte do samba mais idoso do momento, Nelson Sargento, aos 96 anos, vítima de covid. Como dizem seus versos “a felicidade se foi quando você me abandonou. A tristeza sem ser convidada, o seu lugar ocupou”, (A Felicidade se Foi, 1986).

O G1 informa que o Instituto Nacional do Câncer (Inca) informou a morte às 10h45. Além da idade avançada, Nelson também sofreu com um câncer de próstata anos atrás. “Nelson era a cultura brasileira viva. Tenho muita gratidão por esse grande artista brasileiro”, diz Leci Brandão, em seu Instagram.

“Lembro-me quando eu tinha 11 anos, em 1955, vi a Mangueira desfilar com o samba-enredo Cântico à Natureza. Foi uma grande emoção pra mim. Eu era muito jovenzinha ainda, mas aquela música composta por ele tinha entrado na minha vida para sempre”, reforça Leci.

Cântico à Natureza, Nelson Sargento canta com Chico César

“Mais tarde, já em 1971, é o Nelson quem bate o martelo na comissão da Mangueira para a minha entrada na ala dos compositores da escola”, complementa. O sambista paulista Paulinho Timor aponta a perda de “um pilar da música popular brasileira”. Para ele, Nelson estava “à frente do seu tempo”, além de ser “sempre muito generoso com quem estava começando a trilhar as avenidas do samba”.

Presidente de honra da Estação Primeira de Mangueira, da qual ele foi componente da ala dos compositores por muitos anos, com grandes sambas-enredos presentes no imaginário popular, como Cântico à Natureza (1955), dele com seu padrasto Alfredo Português e Jamelão.

“Nelson plantou muita coisa como compositor, pintor e escritor, além de ser um grande contador de histórias da vida brasileira, do povo mais pobre, do povo que cria na resistência”, argumenta Railídia Carvalho, cantora, compositora e jornalista. “Queria vê-lo festejar seus 100 anos, que era tanto o seu desejo”, conta.

Mas para ela, “Ficamos com as suas histórias, suas músicas e com o seu jeito de viver que é o jeito da maioria do povo brasileiro, do artista negro e pobre, que enfrentou o sistema, como muita gente do samba se arrisca a trabalhar mesmo em meio à pandemia por pura necessidade”.

Nascido Nelson Mattos, no Rio de janeiro, ele completaria 97 anos em 24 de julho. Ganhou o apelido de Nelson Sargento pela sua passagem pelo Exército. Apesar de ter começado muito cedo no samba e na Mangueira, seu primeiro grande sucesso aconteceu com o samba-enredo Cântico à Natureza, para muitos um dos melhores da história dos carnavais cariocas.

Como grande parte dos sambistas de meados do século 20, Nelson Sargento trabalhou uma vida inteira na construção civil, mas isso não o impediu de escrever livros, poesias, pintar centenas de quadros, participar de filmes e de compor mais de 400 músicas.

O Século do Samba

Em Século do Samba, Sargento homenageia seus grandes parceiros de estrada na Mangueira e na boêmia como Nelson Cavaquinho (1911-1986) e Cartola (1908-1980). Ele canta:

Nossa majestade, o samba
O “mundo é um eterno moinho”
Meu berço “folhas secas” vão caindo
As novas vão crescer em seu caminho
A manga brota em flor sem ter espinho
No batuque, no pagode
Avante mangueira teu cenário é uma beleza
Tua voz uma bandeira.

Com todas as dificuldades para se viver da arte neste país, Nelson Sargento é a prova de que o talento vence a negação de quem tem o poder para a divulgação da cultura, mas ávidos de lucros, não valorizam a cultura popular e menos ainda os artistas populares. Só querem o lucro fácil e fugaz.

Com tudo isso, o Brasil chora a morte desse grande artista, símbolo da resistência ao ódio e ao preconceito.

 


Texto em português do Brasil

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