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João de Sousa

Quinta-feira, Agosto 5, 2021

O direito ao desabafo

Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

DO AVESSO

Construímos boa parte da nossa história sobre dois pilares periclitantes: o irrealismo, que nos capacitou sermos capazes de enfrentar dragões…… pelo menos um Adamastor, Bojadores, Mostrengos e Prestes João, Sebastião, nevoeiros e mais algumas Índias, mares nunca d´antes navegados, ditadores, guerras civis, guerras mundiais e coloniais, troikas e ultraliberais, com o culto das utopias a tiracolo e um indefinível fogo nas veias que nos fez aventureiros e sinónimos de diáspora… E, segundo pilar, o idealismo – que teve visões e aparições, utopias também, revolucionários e poetas, impérios sonhados e sonhos em convulsão, convicções e metas inalcançáveis, quimeras e nostalgias.

Andámos por patamares espantosos, estéticos, épicos, líricos, mas também satíricos, trágicos, irónicos, e até em algum espírito científico, um toque eficaz de realismo ocasional, uma prática (empírica) que marcou pontos aqui e acolá.

Quando uso o plural, cometo um abuso: é como se fossemos uma coisa só, como se Portugueses quisesse dizer alguma coisa, pois vendo bem a mesma palavra equivale a um grande mosaico, onde heróis e facínoras estão na mesma nau, onde gente laboriosa sofre a convivência com os corruptos mais habilitados, onde a sabedoria e o génio emparelham com os alarves paladinos da ignorância, onde o multicultural é a única certeza, apesar da xenofobia que tenta amarrar o quotidiano aos postes da intolerância.

Não creio que tenhamos uma identidade: não aprecio o galo de Barcelos, não sou grande fã de bacalhau e muito menos de sardinha, não acho que a língua nacional seja um nacionalismo a preservar e penso mesmo que deve ser reformada (muito mais do que já foi, toda a gente sabe que Saa de Miranda e Lvis Vaz de Camoeens não escreviam como hoje se alinhava a escrita). Também não vibro com os plágios do cantor popular, não estou na romaria da santinha com a fé dos que me rodeiam, entro em templos de qualquer crença não entro em crença alguma como se fosse o meu templo, leio Aquilino Ribeiro e raramente recorro ao dicionário dos termos caídos em desuso, não acredito em providencialismos nem pureza dos costumes, ortodoxias doutrinarias ou irrupções populares, não reconheço vozes encantatórias, misturo o melhor do exotérico com o melhor do esotérico, não vislumbro qualquer figura de autoridade a que me agrade obedecer, não distingo cores de peles, não fico de luto se o clube perde – e gosto dos bons desafios – e pior do que isso, amo em qualquer lugar.

Pode ser que isto não faça grande sentido. Para mim faz. Há um novo ano letivo a estrear e a burocracia e as praxes são mais fortes nas intenções de vida do que os conteúdos e o saber. Há eleições à porta e um enorme desamor dos candidatos pelos seus munícipes, fregueses e locais de exercício do poder – raro é aquele que se apresenta a sufrágio porque ama a cidade, a vila, a aldeia onde já não ia desde que nasceu.

Creio que isto,  sendo pouco, é apenas o direito ao desabafo.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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