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Segunda-feira, Julho 22, 2024

O mundo é uma família!

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Foi com estas palavras, na sua versão original em sânscrito, ‘Vasudhaiva Kutumbakam’ que o Primeiro-Ministro indiano se dirigiu ao mundo (em carta publicada também entre nós em português) na véspera da reunião do grupo dos vinte países tidos como mais importantes do mundo (o G-20) sob presidência indiana em Delhi.

‘O mundo é uma família’ é outra forma de nos falar da ‘sociedade aberta’, conceito que nos foi dado por Henri Bergson – filósofo francês, prémio Nobel da literatura em 1927 – na sua obra de 1932, ‘As duas fontes da moral e da religião’, e que poderemos referir também como uma filosofia política humanista, ou ainda como uma globalização centrada no ser humano, como Narendra Modi desenvolve de resto na sua missiva.

As diferenças entre a sociedade aberta de Bergson e aquela a que Modi faz referência são naturalmente importantes, a começar pelo facto de Bergson a conceber como necessariamente decorrente da religião e Modi, na tradição Hindu, a apresentar antes como um princípio de filosofia de vida que é o hinduísmo, que se vê como tal e não como religião, (a classificação do hinduísmo como religião foi feita pela colonização britânica mas não é aceite por este) mas penso que são ambas genuínas e bem diversas do pastiche contemporâneo que abusa da expressão para cobrir as actividades opacas de fundos de investimento registados nas ilhas Caimão.

A reunião da grande família conhecerá duas ausências importantes, a primeira a de Vladimir Putin, sobre quem pesam mandatos de captura internacional pelos crimes contra a humanidade de que é responsável na Ucrânia, e a segunda a de Xi Jinping, cujas relações com a Índia conheceram um sério abalo quando da recente publicação oficial de um mapa chinês que reivindica não só vários territórios indianos ocupados pela força, mas como ainda vários outros.

Desde há cerca de vinte anos que conclui que a Índia iria ser o centro do mundo democrático no nosso século. A Índia segue o que é essencial numa cultura democrática, que é a proeminência do voto popular e a separação de poderes. A esse propósito, pareceu-me extremamente significativo que a recente condenação pela justiça do líder da oposição fosse revogada pela Supremo Tribunal Indiano.

Se excluirmos os EUA, a Europa, Israel, Austrália e Nova Zelândia, só o Japão partilha com a Índia um longo percurso democrático sem interrupções autoritárias.

Em segundo lugar, a Índia é o maior país do mundo, o mais dinâmico entre os grandes países democráticos, situado no que na zona que se tornou na mais importante do mundo, o chamado Indo-Pacífico. É claramente o único que tem massa crítica para se colocar como alternativa ao modelo autoritário chinês.

Posto isto, é fácil encontrar insuficiências – e por vezes inflaccioná-las – na forma como a Índia se afirma no mundo, mas creio que o problema das nossas sociedades ocidentais é mais o de não ver os sinais positivos e as potencialidades indianas do que ver o que funciona pior.

E quanto ao que pior funciona, precisamos de começar por entender que há no país quem entenda as suas insuficiências e que há mecanismos democráticos e abertos para lhes fazer face; a postura de arrogância externa de dar lições em nada ajuda a resolver as questões.

Acho por isso que é necessário seguir com atenção o percurso de afirmação mundial da Índia, interagindo com o país de forma construtiva. Algo que tenho tentado fazer, nestes últimos doze anos no Fórum Democrático da Ásia do Sul!

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