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Quinta-feira, Maio 26, 2022

O pensamento e a ação devem caminhar juntos para guiar nossos olhares

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

Desde que estreou na Netflix, em 9 de dezembro de 2021, o filme “Não Olhe Para Cima”, de Adam McKay, vem provocando um intenso e importante debate sobre as questões mais candentes no mundo contemporâneo para a salvação do planeta e da humanidade.

Ao se fiar na frase dita pelo astrofísico Neil deGrasse Tyson “nós falhamos até na mais simples das observações científicas – ninguém mais olha para cima”, a obra de McKay apresenta o mundo como ele está onde grandes conglomerados econômicos dominam a comunicação planetária e determinam, de acordo com seus interesses o que pode ser noticiado.

Como escreveu em seu artigo “Não Olhe Para Cima alerta: as Big Techs podem destruir você e o mundo”, Renata Mielli afirma que no filme “a ameaça apocalíptica vinda do espaço é apenas uma paródia, mas o perigo que as Big Techs sem regulação representam para a sociedade é a grande realidade escancarada”. Além da polarização forjada com a divulgação de fake news e a exposição da vida das chamadas “celebridades”, como essenciais.

O artigo chamou a atenção para o debate sobre o papel desempenhado pelas Big Techs – empresas que dominam o mercado de tecnologia como o a Microsoft, o Google, o Facebook, a Amazon e a Apple, por exemplo – na manipulação das notícias, impedindo a disseminação do conhecimento e facilitando discursos carregados de ódio, alimentando o ressentimento de uma classe média que se julga marginalizada quando se busca combater a pobreza e diminuir as desigualdades.

O documentário, “O Dilema das Redes” (2020), de Jeff Orlowski, desnuda a manipulação das pessoas por algoritmos. E “não se trata de pensar em barrar o avanço tecnológico, mas de entender que as novas tecnologias estão mudando as relações humanas e, inclusive as trabalhistas”, argumenta Laura Rodrigues, secretária da Juventude da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, seção São Paulo (CTB-SP) e militante do Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas e Cursos de Informática do Estado de São Paulo (Sindiesp).

Assista trailer de Não Olhe Para Cima

Mas, acentua Laura, “as novas tecnologias devem contribuir para a liberdade das pessoas, para a sua individualidade”, assim como para o “desenvolvimento do pensamento crítico”, mas para isso, “precisamos de um Estado forte que controle o funcionamento dessas empresas e, sem censura, coíba os abusos e defenda a preservação da privacidade e dos dados pessoais da população”.

Mas o filme de Mckay é também uma “tentativa de desvelar as relações contraditórias entre a ética do conhecimento, digamos da ciência, e a sociedade capitalista de massa submetida aos poderes reais da grana inquieta, despojada de empatia em sua objetividade cruel”, como observa Luiz Gonzaga Belluzzo, no artigo “Não Olhe Para Cima, o narcisismo do apocalipse”.

Numa análise sucinta, Belluzzo reforça que no filme “para não ser aprisionado pelos enganos da imprensa manipuladora, por opiniões de celebridades cretinas e por decisões de governos sem-vergonha. A ameaça do cometa sintetiza as desgraças das sociedades capitalistas contemporâneas”.

Para confirmar o que diz o economista, basta ver os dados divulgados nesta terça-feira (18) do estudo “A Desigualdade Mata”, da Oxfam, com dados aterradores pelos quais “um novo bilionário surge a cada 26 horas desde o início da pandemia. Os dez homens mais ricos do mundo dobraram suas fortunas, enquanto mais de 160 milhões de pessoas foram empurradas para a pobreza. Nesse meio tempo, estima-se que 17 milhões de pessoas morreram de Covid-19 no mundo”.

E o aprofundamento da desigualdade não vem de agora, nem surgiu na pandemia, mas é um de seus efeitos mais perversos, como assinalam os pesquisadores da Oxfam “desde 1995 o 1% mais rico acumulou quase 20 vezes mais riqueza global do que os 50% mais pobres”. Por isso, “a fortuna de 252 homens é maior do que a riqueza combinada de todas as mulheres e meninas da África, América Latina e Caribe”, mais de 1 bilhão de pessoas.

Para Eugênio Bucci, as Big Techs são responsáveis por “uma mutação profunda do capitalismo, que se tornou um modo de produção de imagens, voltado sobretudo para o desejo e não para a necessidade”. Renata emenda que se a ameaça no filme que “vem do espaço pode ser evitada pela tecnologia desenvolvida na Terra e pela ação dos países, a ameaça que as Big Techs representam pelo seu poder econômico e político não tem oposição”.

É nesse ponto que “entra a atuação do movimento sindical e dos movimentos sociais para suplantar a bolha imposta pelos algoritmos e levar informação de qualidade para todas as pessoas”, diz Laura. “Principalmente para as mais vulneráveis”.

Ela cita como exemplos a atuação das Big Techs em questões nacionais de diversos países, inclusive na eleição dos Estados Unidos, quando foi eleito Donald Trump, na eleição de Jair Bolsonaro e na decisão do Reino Unido em sair da União Europeia.

Belluzzo cita Umberto Eco que “fez considerações que relacionavam os novos meios de comunicação, as redes sociais e o rebaixamento intelectual dos indivíduos massificados: ‘Deram voz aos idiotas de aldeia’”, para Belluzzo, esse comentário “foi duro, mas preciso”.

Porque “a mídia nos afeta completamente. Afeta nossa estrutura conceitual nas dimensões pessoais, políticas, econômicas, estéticas, psicológicas, morais, éticas e sociais. Não deixa nenhuma parte intocada, inalterada. O meio é a mensagem. Qualquer compreensão da mudança social e cultural é impossível sem um conhecimento da forma como a mídia funciona”, diz Marshall McLuhan, como mostra Belluzzo em seu artigo.

“Não Olhe Para Cima” trava esse debate e vai além. Mostra a necessidade de um engajamento permanente das forças democráticas da sociedade para a regulação de todas as mídias, impedindo a formação de monopólios e a difusão do pensamento único. E o perigo constante de destruição do planeta e da humanidade por um sistema excludente, que coloca o lucro acima da vida.

“A valorização da diversidade, da cultura, da comunicação plural e da liberdade deve fazer parte de toda a comunicação que pretenda se contrapor à hegemonia do pensamento burguês e da ideia furada de fim da história”, reforça Laura.

Afinal, “a história é um carro alegre, cheia de um povo contente, que atropela indiferente todo aquele que a negue. É um trem riscando trilhos, abrindo novos espaços, acenando muitos braços, balançando nossos filhos” (“Canção pela Unidade Latino-Americana”, de Chico Buarque e Pablo Milanés).

Portanto, o pensamento e a ação devem caminhar juntos para guiar nossos olhares e evitar manipulações.


Texto em português do Brasil

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