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João de Sousa

Quinta-feira, Julho 25, 2024

O raio da velha!

A senhora, uma velha, tendo em conta a tipologia etária, havia sido uma menina que por ali apascentou rebanho; puxou juntas de bois; aprendeu os hábitos usos e costumes da região e calcorreou o carreiro diariamente a caminho da escola aonde aprendeu a ler e a escrever, e que, se apaixonou profundamente pela sua terra onde também ajudou a criar os filhos da vizinha por ser infértil e viu o homem com quem casou partir para o desconhecido mas que, para ela, a sua alma continua a pairar sobre as casa, os campos e o monte.

Na calçada descansa a vista e no horizonte as memórias.

A calçada, à portuguesa, uma inovação para a época dos carreiros por onde a água lavrava caminho serpenteando por entre as pedras avulsas e a erva brava, calcorreados por gado diverso: vacas; cabras; ovelhas; e outras espécies bravas comuns na zona, que lhe mantinham a traça ao limpar, comendo, a vegetação que teimava em avançar sobre o carreiro que os novos tempos teimaram em transformar em calçada para que as pessoas, as carroças e os carros de bois não se enterrassem na lama.

Uma calçada que ainda hoje teima, em plena era do asfalto, continuar a servir de caminho à pequena comunidade residente de onde se destaca uma senhora de idade avançada por, ao longo dos anos ter adquirido os casebres que serviam de residência aos vizinhos e familiares que foram deixando a aldeia localizada no interior profundo e sem as mínimas condições básicas de vida. Uns para Países de emigração no tempo: França; Alemanha; Luxemburgo; Suíça; Brasil entre outros países.

E outros porque, se finando, as famílias não se interessavam por heranças paupérrimas no meio de nenhures, com acessos duvidosos e valor simbólico, e que por isso vendiam à idosa resistente que foi comprando assumindo compromisso moral de continuidade aguerrida na defesa dos valores que lhes haviam sido comuns

Trouxeram os novos tempos novas formas de economia a implementar em lugarejos abandonados e com valor financeiro residual facilmente diluído num qualquer projeto de turismo rural motivo que atrai forasteiros diversos e de diversas origens disponíveis para “investir” capital alheio capitalizado através de subterfúgios e outros artefatos de financiamentos submetidos e aprovados por entidade competente mas também capital próprio por motivos distintos.

Simplesmente:

– o raio da velha!

Não vende o seu pecúlio de pedras e terras.

E os interessados, depois de muito insistirem, lá iam embora deixando a senhora na paz e sossego do lugar.

A sua resistência aos interessados em transformar a aldeia numa instância turística tinha raízes profundas nos afetos e de completo desapego a interesses materiais.

Os espíritos, são a sua companhia; a razão, o corpo da alma; e a mente, a essência da vontade em continuar;

E assim, o raio da velha, viúva de um emigrante e sem herdeiros,

Não vende o seu lugar a um qualquer “punhado de garotos” que lhe queiram roubar a história de uma vida desde a meninice à velhice ao serviço daquela aldeia, dos seus e dos seus vizinhos.

– O raio da velha nunca mais morre! – É o desabafo recorrente de todos os interessados. – Na aldeia da velha senhora o uivo dos lobos deixou de se ouvir há já muito tempo por escassez de caça e os javalis também debandaram porque os campos já não são cuidados. As raposas desceram os vales até outras povoações aonde a agricultura de subsistência ainda sobrevive.

A floresta avança ao sabor da desertificação crescente sobrando as ruínas dos muros baixos ainda delimitando terrenos em zona de minifúndio mais uns quantos marcos que já não fazem sentido salvo para identificar o registo matricial que conjuntamente com o aglomerados de pedras das habitação mais os carreiros, dão nota da história que só o “raio da velha” sabe contar de uma comunidade com vida.

A Igreja erigida a um Santo já não tem o Santo nem o telhado mas mantém todas as crenças dos velhos e dos novos tempos, e da escola primária ainda está lá o sítio.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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