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Terça-feira, Julho 23, 2024

O relatório Durham abala os EUA

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Quanto aos que pensam que a alternativa passa pela eliminação do poder americano sobre a Europa e o mundo livre, penso que eles não vêm que todos os problemas americanos se encontram igualmente entre nós, e em regra tão ou mais acentuados, com uma notável diferença: na Europa será improvável ver surgir qualquer equivalente ao relatório Durham que exponha de forma tão clara o apodrecimento do núcleo duro do poder.

  1. Desinformação e manipulação eleitoral pelo FBI e pela CIA

Conselheiro Especial John Durham

Por carta enviada no dia 15 de maio, o Ministério da Justiça dos EUA transmitiu ao Congresso o relatório do ‘Conselheiro Especial John Durham’ sobre a actividade dos serviços de informação durante a campanha eleitoral de 2016.

O relatório, em mais de 300 páginas, prova de forma inequívoca o que já era conhecido de forma menos circunstanciada da responsabilidade das autoridades de informação americanas – especialmente o FBI – na invenção de uma ‘conspiração russa’ que envolveria o então candidato Donald Trump em 2016, e a que eu já tinha aludido aqui no Tornado.

Como acertadamente concluiu o congressista republicano da Flórida, Matt Gaetz: ‘Em suma, o FBI transformou-se numa empresa de desinformação e interferência eleitoral aqui no nosso país.’

Mas mais importante do que ver a oposição política americana a dizê-lo, é ver a imprensa institucional americana e internacional – que foi tão ou mais decisiva na manobra de desinformação que o FBI, o Ministério da Justiça ou a CIA – por uma vez reconhecer a validade do relatório, que tendo a chancela da administração Biden, foi iniciado no final da precedente administração Trump.

A meu ver isto quer dizer que essa mesma comunicação social entendeu que o escândalo é tão grande e tão difícil de esconder que, em vez de o silenciar, o melhor é apostar na falta de memória dos cidadãos, e fazer de conta que a comunicação social não foi corresponsável da manobra de intoxicação informativa.

Mas esta confirmação de que estamos perante uma agência de desinformação e manipulação instalada nas instituições dos serviços de informação americanos é especialmente importante também por se seguir àquela a que eu aludi há duas semanas no Tornado, da autoria dos mesmos protagonistas (neste caso mais a CIA que o FBI) com o objectivo de negar a evidência de corrupção pelo clã Biden por interesses estrangeiros, apresentando-a como fruto de outra ‘conspiração russa’.

Eu mesmo dediquei um relatório a uma agência de desinformação – que a evidência parece mostrar que tem cobertura por parte dos mesmos serviços de (des)informação americanos – que igualmente inventou uma ‘conspiração russa’ para tentar salvar a pele de um assessor presidencial francês.

No caso francês, a mentira foi rapidamente exposta, não sem que antes toda a imprensa institucional – a começar pela Agência France Press – e as instituições políticas (um inquérito parlamentar foi mesmo anunciado) a tivesse dado como verdadeira. A agência de desinformação em causa continuou de resto a receber somas astronómicas de subvenções públicas e a ser propagandeada por todo o aparelho político-mediático como uma entidade respeitável, como se não tivesse sido provada a vigarice que montou.

A inventora desta ‘Conspiração russa’ foi distinguida em 2018 com o prémio Sputnik para a melhor história do ano (não sei qual a distinção que irá ser dada às duas agora em foco, seguramente mais importantes) mas a consequência mais óbvia do à-vontade com que os responsáveis dos serviços de informação americanos inventam ‘conspirações russas’ para servir interesses inconfessáveis é a de passar uma esponja sobre a máquina de desinformação russa, dado que qualquer cidadão passará a ter as mais legítimas dúvidas sobre qualquer acusação nesse sentido vinda dos EUA.

E esta situação de descredibilização dos serviços de informação americanos pode dever-se a inconsciência, o que é difícil de acreditar quando se trata dos mais famosos serviços de informação mundiais. Pode ainda entender-se como traição assumida, ou seja, trabalho consciente para o inimigo. Isso poderá ser pontualmente o caso, mas não creio que seja a regra. O mais provável é estarmos perante uma grosseira falta de profissionalismo, que leva a pôr de lado os interesses da nação para a qual se trabalha em favor de outros.

  1. A problemática dos serviços de informação

Não é a primeira vez que se constata que os serviços de informação de um país se tornam numa ameaça ao país que supostamente defendem. É impossível viver sem eles, mas como temos aqui o exemplo, é também difícil de viver com eles.

Se não é impensável ver o facciosismo partidário como tendo alguma influência, creio que essa influência, se existe, é secundária, entre outras razões, porque, se ela fosse importante, seria difícil de entender como as mesmas instituições que se envolveram agora no afastamento do Presidente republicano Donald Trump, se envolveram antes na remoção do Presidente democrata Jimmy Carter.

Centenas de agentes da CIA foram demitidos ou pediram demissão durante a Presidência de Jimmy Carter na sequência da sua acção para pôr fim aos abusos sistemáticos cometidos pela CIA, especialmente na América Latina, sendo o caso do Chile o mais tristemente célebre.

Foram esses mesmos agentes demitidos que trataram de assegurar a substituição de Carter por alguém mais amigo – que veio a ser Reagan – usando para isso de todos os meios, incluindo o acordo com Teerão para manter os reféns americanos por libertar durante a Presidência de Carter, a troco de armas (e vale a pena reler aqui o livro de Frederico Duarte Carvalho ‘Camarate – Sá Carneiro e as armas para o Irão’.

E esta conexão com a teocracia iraniana, como outras que foram estabelecidas com a Jihad (o Paquistão, o Afeganistão, Bin Laden…) têm algum peso na compreensão da especial vulnerabilidade da máquina americana à penetração pela Jihad, que me parece ser um dos seus maiores problemas.

Como dizia recentemente Sam Westrop, duas décadas depois do 11 de setembro, os EUA esqueceram quase por completo a ameaça jihadista, mais ainda que a Europa. Trata-se de um fenómeno complexo cuja causa essencial me parece ser a da porosidade da sociedade americana às operações de influência externas centradas nos negócios, matéria em que o Qatar ou o Irão se mostraram mais capazes do que a Rússia ou a China.

Enquanto há quarenta anos o mundo dos negócios era relativamente periférico à acção das agências de informação, que o utilizavam principalmente para disfarçar as suas operações, hoje em dia, estamos perante a situação contrária: as maiores empresas americanas estão centradas na informação, e olham de cima para baixo para o aparelho dos serviços públicos de informação (mesmo quando, como acontece com a Google, a empresa foi criada por eles).

Mesmo passando por cima dos maiores grupos empresariais, e olhando para grupos económicos de média dimensão, por onde passa uma parte importante da acção dos serviços americanos de informação – como por exemplo o conglomerado político-financeiro ‘Sociedades Abertas’/George Soros – o problema é que é este que domina a acção da CIA ou do FBI, e não o contrário, como se dá por adquirido um pouco por todo o mundo.

E este grupo político-financeiro cuja carteira de investimentos está escondida numa intricada rede de bonecas russas centrada em abrigos fiscais como as ilhas Caimão, desempenha nominalmente o que se lhe pede, (e daí a ideia que ele se limita a obedecer aos pedidos do Estado americano) mas a sua acção real é ditada pelos seus negócios, e estes pouco ou nada têm a ver com os interesses dos EUA, mas têm mais a ver com os do Qatar, o Irão e outras potências islamistas.

E aqui está outro dos grandes problemas no discurso conservador que domina a oposição a esta máquina de desinformação: o conservantismo não está interessado em pôr em causa a facilidade com que as ‘Sociedades Abertas’ fecham os seus negócios ao escrutínio público!

Para citar apenas um exemplo, veio a público que a Igreja de Jesus Cristo, conhecida como Mórmon’, e um dos bastiões do conservantismo americano, esconde cem mil milhões de dólares em esquemas opacos supostamente ‘filantrópicos’ semelhantes aos da máquina de Soros. Trata-se de uma soma cinco vezes superior ao investimento que eu estimo que esteja a ser usado na máquina da ‘Sociedade Aberta’ (trabalho de investigação em curso).

É claro que há uma dimensão ideológica para Soros diferente da que envolve a Igreja de Jesus Cristo, e ela é também importante, embora a sua importância tenha sido exagerada. A inconsistência interna do wokismo, e mais ainda a sua inconsistência com a filosofia do discípulo de Friedrich Hayek invocado pela máquina de Soros (Karl Popper) não aconselha que se tome o assunto como digno de grande reflexão intelectual.

Não creio tão pouco que haja paralelo no grau de conspiração contra a verdadeira sociedade aberta desenvolvida pelo grupo de Soros com o que quer que seja que faça a congregação religiosa Mórmon.

O essencial do problema parece-me ser outro: a permeabilidade do sistema político democrático (o americano em especial) à manipulação pelos interesses financeiros, tema tabu, porque se parte do princípio, errado, que quem o diz partilha necessariamente da ideologia comunista ou ‘socialista’ (tal como entendida nos EUA).

  1. A destruição da liberdade

Mas se a ‘comunidade americana dos serviços públicos de informação’, de que as duas instituições mais conhecidas são o FBI e a CIA, não teve escrúpulos em transformar-se em máquina de desinformação e manipulação contra o país que a sustenta, o que fará ela no resto do mundo?

Como muito acertadamente nos disse recentemente a escritora e jornalista americana muçulmana de origem indiana Asra Nomani, tanto em entrevista como em livro, a guerra que essa diabólica aliança entre o fanatismo islâmico e algum esquerdismo conhecida como ‘wokismo’ trava é contra a liberdade e contra os EUA. Se tenta primeiro assassinar os muçulmanos que lhe resistem – porque eles são os que podem mais facilmente expor a sua hipocrisia – ela não ficará por aí.

O que Asra Nomani poderá não se ter ainda dado conta é que essa aliança penetrou já profundamente o aparelho político americano, tanto interna como externamente, e que não é possível ficar apenas pela denúncia da ideologia sem entender a lógica dos interesses que se esconde por trás dela.

Quanto aos que pensam que a alternativa passa pela eliminação do poder americano sobre a Europa e o mundo livre, penso que eles não vêm que todos os problemas americanos se encontram igualmente entre nós, e em regra tão ou mais acentuados, com uma notável diferença: na Europa será improvável ver surgir qualquer equivalente ao relatório Durham que exponha de forma tão clara o apodrecimento do núcleo duro do poder.

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